Política e Jornalismo

por Amílcar Theias

A informação assume-se cada vez mais como um quarto poder. Contrariamente aos poderes tradicionais, cuja legitimidade democrática é inquestionável, o poder da informação revela quase sempre um défice de “accountability”. A emergência deste quarto poder, para além de ser explicada em grande parte pelo progresso tecnológico, foi facilitada pela crise da própria democracia e por uma certa esclerose das suas instituições. O desmoronamento do espaço ideológico e político, acelerado após a queda do muro de Berlim, levou a que tenhamos entrado numa época que alguns apelidam de gelatinosa. Tudo é vago e incerto: as ideias, os projectos e os programas políticos.

A política dos principais partidos de esquerda pouco se diferencia da política defendida pela direita dita civilizada, ambas subordinadas ao divisor comum constituído pelo designado “politicamente correcto”. A política como laboratório de ideias e de experiências tendo como objectivo contribuir para o bem comum desapareceu e deu lugar a um horizonte cinzento e desinteressante de promessas vagas e banais. O debate de ideias deu lugar à arbitragem de interesses económicos ou simplesmente de classe, nacionais ou locais. Arbitragem e “trade-offs” frequentemente pouco transparentes. É desta opacidade da política actual que os media retiram a sua importância crescente. A informação torna-se um “player” directo no mercado da decisão política, desvirtuando a sua função mais nobre. Por outro lado, os media intervêm dando cor ao cinzentismo das ideias dos políticos. Estes últimos, coniventes neste processo, substituem a paixão das ideias pelo espectáculo do Estado. Voyeurismo social, escândalos financeiros e sexuais, encenações de toda a ordem, como inaugurações repetidas da mesma coisa, fazem parte do espectáculo. Os políticos não dispensam os jornalistas e as câmaras, rodeiam-se de gabinetes de informação, de consultores de imagem, recorrem às empresas de comunicação e encomendam sondagens. É a confirmação das palavras de Talleyrand: “La parole a été donnée à l’homme pour dissimuler sa pensée”. Uma coisa são os “negócios de Estado”, outra coisa são os frequentemente irrelevantes Planos de Acção, resoluções ou iniciativas várias cuja importância se limita à “embalagem” que deles fazem os media.

O Estado-espectáculo é promovido igualmente pelas “elites”, permitindo-lhes entrar mais facilmente no jogo do poder.

Mas quem são as elites? O imaginário político actual considera como elites não especificamente a velha aristocracia ou os intelectuais, mas antes todos aqueles que não compreendem o peso das dificuldades quotidianas, porque a elas conseguem escapar: são geralmente os “colunáveis”, aqueles que surgem frequentemente nos écrans de televisão opinando sobre tudo e sobre nada. São a câmara de ressonância dos “media”. É esta osmose entre políticos, “media” e elites que ajuda a fragilizar a vivência das instituições políticas. É frequentemente responsável pela instabilidade de governos e pela não realização de projectos ou programas que são imediatamente destruídos mal são anunciados, não se esperando que sejam sufragados pelo voto popular. Cria-se assim o mito da “sociedade bloqueada” alimentado precisamente por aqueles que vivem fora do tempo (as elites): “o amanhã” é-lhes indiferente. Desacreditar os políticos faz parte do jogo. E para isso os media servem na perfeição, sob a capa do dever de informar.

Não é tolerável que o dever de informar se confunda com devassa permanente da vida privada das figuras públicas, servida à “la carte” em função dos interesses do momento.

A protecção das fontes não pode ser cobertura para rumores organizados, muitas vezes promovidos por concorrentes económicos ou por adversários políticos.

A sociedade e os “media” carregam uma pesada responsabilidade na degradação actual da vida pública, acabando por minar o próprio clima de confiança indispensável ao desenvolvimento. A independência da informação não pode ser refém daqueles não desejam o bom e regular funcionamento do Estado de direito.

Mas essa independência é dramaticamente necessária à sobrevivência da democracia na defesa daquilo que é verdadeiramente essencial: a defesa dos direitos e liberdades fundamentais e a credibilidade das instituições democráticas. Poderíamos citar múltiplos exemplos ao acaso, em diferentes épocas, em que a imprensa desempenhou um papel fundamental na defesa dos princípios e dos valores democráticos: os caso Dreyfus ou Watergate são apenas dois desses exemplos.

Infelizmente ainda hoje subsiste com abundância o espírito da Gazeta do Palma Cavalão do romance dos Maias. É inaceitável que os membros do governo ou os políticos legitimamente eleitos sejam objecto de classificação pública arbitrária nas colunas dos jornais ou nas televisões.

A qualidade da nossa democracia e a estabilidade política indispensável ao desenvolvimento requerem uma maior autodisciplina da própria comunicação social, mas exige-se também da parte dos políticos e das instituições um comportamento menos subsidiário da comunicação social para promoção da sua própria imagem.

O vaivém de jornalistas entre empresas de comunicação social e os gabinetes ministeriais, a negociação de títulos e de exclusivos, a atribuição de publicidade do Estado, os subsídios directos ou indirectos e os financiamentos de instituições de crédito públicas, são causas de uma relação não saudável entre o poder político e os “media”. A sua prática deveria ser objecto de um exercício público regular de “accountability”. Como também deveriam ser tornados públicas obrigatoriamente as diferentes componentes do relacionamento entre o sector empresarial privado, em geral, e os órgãos de comunicação, quer através da respectiva estrutura accionista, quer através de donativos ou contratos de publicidade ou de benesses aos próprios jornalistas.

A política não voltará a ser uma actividade de serviço, como deve ser na sua própria essência, enquanto não cessar de ser uma actividade de espectáculo.

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