Pacotilha

por João Ferreira do Amaral

Foi anunciado que o défice das contas públicas verificado em 2006 ficou pelos 3,9% do Produto Interno Bruto e não pelos 4,6% que era o objectivo inicial do Governo.

É sem dúvida uma boa notícia, qualquer que seja a perspectiva em que nos situemos. Mas independentemente do resultado em si próprio, esta notícia assume um significado mais importante porque corresponde ao desmentido das teses dos “ultras” das reformas.

Efectivamente, do meu ponto de vista (e julgo que será o mesmo de qualquer observador desapaixonado) a actividade reformista deste governo tem sido intensa e, na maior parte das vezes, acertada. Considero mesmo que não seria razoável, em geral, exigir ritmo mais acelerado – sem prejuízo de haver um ou outro domínio mais específico onde evntualmente se poderia ter ido mais depressa.

Mas, acima de tudo, este elan reformista contrasta claramente com o que se verificou com os governos que se sucederam desde pelo menos os anos noventa, que muito pouco fizeram de útil.Porém, como sempre sucede, vozes que estiveram caladas quando o imobilismo era quase total surgem agora  como esforçadas campeãs das reformas, achando que tudo o que se tem feito é muito pouco (e, presume-se) se fossem eles a governar- embora, em geral não sejam mais que comentadores de jornal –  teriam ido com toda a certeza muito mais depressa.

O défice foi de 3,9 % e o novo objectivo para 2007 foi estabelecido nos 3,3%? “Isso é muito pouco”, dizem. “Se este governo fosse verdadeiramente reformista teríamos a economia já a crescer três por cento ao ano e um total equilíbrio  nas contas públicas… “. Muitas destas vozes asseguravam, quando se discutiu o Orçamento para 2006, que os 4,6% não eram exequíveis, mas agora vêm dizer que esse mesmo resultado é pouca coisa.

Chamo a atenção para esta atitude porque me parece que ela poderá ser perniciosa para o ritmo das próprias reformas. Porque há duas maneiras de sabotar a realização das transformações de que o País necessita. Uma é fazer que anda, sem andar. Essa foi a principal estratégia de governos passados, qualquer que tenha sido a sua a côr.

Mas há outra maneira. É a de se fingir mais exigente, e por essa exigência balofa e demagógica sabotar os esforços sérios de reforma que exigem objectivos, sem dúvida ambiciosos, mas exequíveis e, principalmente, bem programados. Radicalizar os objectivos com retórica revolucionária para abafar qualquer mudança, não é táctica nova em política, nem sequer em política económica. Por isso não há desculpa para quem, querendo seriamente o progresso do País, dê ouvidos a tais vozes.

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