Já lá vão 20 anos

por João Ferreira Amaral

Foi de facto há vinte anos que aderimos à União Europeia, então CEE. Mas parece mais, ou seja, parece que já pertencemos há séculos à União. Isto só pode significar uma coisa : é que o País mudou e mudou profundamente. Para melhor, sem dúvida, pelo menos até há poucos anos atrás.

Hoje, já muita gente teme que Portugal não tenha futuro dentro da União. Claro que esta questão é importante e está longe de poder ser respondida, tanto mais não seja porque o próprio futuro da Europa é muito, muito incerto. Mas uma coisa – essa sim – é certa: as dificuldades que hoje atravessamos e os receios sobre o futuro são em grande parte culpa nossa. Ou seja, quando entrámos na então CEE, achámos que a adesão nos dispensava de definir uma estratégia para o País, quando, na realidade, a própria adesão tornava imperiosa a definição dessa estratégia.

A opção que desastradamente tomámos foi o de sermos bons alunos e assim nos mantermos. Na realidade, fomos alunos menos que medíocres. Sem pensamento nem estudo. O que é queremos ser dentro da União? Qual a atitude que deveríamos ter tomado perante o alargamento, em vez da subserviência babosa e reles que adoptámos quando a questão se pôs? Quais os instrumentos de política económica que deveríamos ter guardado? Qual a orientação dos investimentos em capital físico e capital humano que deveríamos privilegiar? Quais os mercados e os aliados fora da Europa em que deveríamos apostar? Qual a orientação das privatizações que deveria ter sido escolhida de forma a manter nacionais os sectores estratégicos? E por aí fora.

Nenhuma dessas questões foi ou está a ser respondida. Mais do que qualquer outra coisa, o nosso percurso das relações com a União constitui um fresco dramático da incompetência com que, em Portugal se trataram, a nível político, os assuntos comunitários. Constatar esse facto é importante para podermos mudar.

Creio que ainda vamos a tempo, mas é necessário, de uma vez por todas, que deixemos o amadorismo e o complexo corcunda e subserviente face à União. É tempo de definirmos autonomamente aquilo que deve ser o nosso futuro na Europa, dentro da União, sem dúvida, mas não subordinados à União

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