Intervenção – “Fazer Cultura Em Portugal” (Lino Tavares Dias)

Tema geral: Fazer cultura em Portugal.

Tema da sessão: Globalização, Identidade e Lugar

Texto de apoio à intervenção de Lino Tavares Dias

Em todos os dicionários a palavra Arqueólogo, significa “pessoa que estuda as coisas da antiguidade”. É como arqueólogo que tenho o gosto de estar aqui para, a partir de um sítio milenar, de um lugar no território em que trabalho, ajudar (modestamente) a refletir sobre identidade, globalização e contemporaneidade.

Perceber como o território foi conformado ao longo de milénios e perceber como devemos continuar a construir património, é um enorme desafio em 2012. Como arqueólogo sou muito sensível ao facto de não sabermos o suficiente acerca de nós e, talvez de uma forma demasiadamente académica, sou muito defensor de que é necessário refletir antes de agir.

Neste sentido, embora aparentemente possa parecer um contra senso, partindo do arqueólogo, defendo que é um desafio ter sempre presente a pergunta: Para que servem estas coisas a que chamamos lugares patrimoniais e, no meu caso, sítios arqueológicos?

Um sítio arqueológico é um espaço, um lugar em que o homem, em tempos, construiu, em que o homem deixou a sua marca.

Como referiu Jorge de Alarcão1, “Quem se não passeou, sozinho consigo, numa praia deserta, e não encontrou, andando à frente dos seus passos, o rasto de outros passos?

1 A Dimensão Antropológica da Arqueologia, Biblos,1983

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Esses passos são o homem, o outro, presente na sua ausência.”

Mas um sítio arqueológico é mais do que uma mera marca do homem. É a marca assumida como ruína exumada por metodologia arqueológica, com registo científico.

Aparentemente, para a situação de ruína não há remédio.

Como escreveu Adriano Moreira2

“as coisas envelhecem. Com vida ou sem ela… Nascem e morrem árvores. Nascem e morrem bichos. Nasce e morre gente. Parece tudo um descontentamento. Está acabada uma árvore. Levou anos. Cresceu perfeita. Mas não para ficar. Voltará à terra. Para nascer outra. E mais outra. Enquanto morre uma. E mais uma… Nasce a esperança que é sempre um menino. Para morrer a deceção que é um homem.”

E temos que reconhecer que este ciclo continua indefinidamente. De facto chegam a este mundo as plantas, os bichos, os meninos, e não servem. São necessários outros que vão fazer coisas não muito diferentes. Crescemos e envelhecemos. E finalmente somos despedidos.

Em contrapartida, as ideias nunca morrem. Para bem ou para mal, é assim. Os homens passam. Frustrados ou contentes. Num caso e noutro, com razão ou sem ela. Mas as ideias duram. Independentes dos semeadores. Caminhando fortes a criar adeptos. Por vezes levam séculos de clandestinidade. Ou de silenciosa clausura.

2 A Tentativa (2009,107)

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Compete-nos, com prudência e ponderação, recolher e identificar os vestígios destas sementeiras milenares e interpretar os contributos de cada uma delas para a autenticidade contemporânea.

Há mais de trinta anos coordeno (sempre no âmbito da tutela da cultura) uma equipa de investigação que escava uma cidade romana a 50 quilómetros do Porto, em Marco de Canaveses.

Vou usar este lugar como referência, como exemplo prático nesta reflexão.

Desde os anos 80 instalou-se na aldeia de Freixo uma pequena equipa de investigação. Compraram-se terrenos arqueológicos. Classificaram-se 50 hectares como monumento nacional. Construiu-se um laboratório. Formaram se operários e técnicos. Promoveu-se a empregabilidade local. Incentivou-se o intercâmbio internacional e a transdisciplinaridade.

Em Fevereiro de 2012 podemos dizer que TONGOBRIGA, assim se chamava a cidade que tem vindo a ser exumada, foi construída na periferia do Império romano no final do século I e início do século II d. C., há pouco mais de 1900 anos.

Foi uma das cidades que integraram o último alargamento do Império, em simultâneo com o norte da Inglaterra, o norte da Hungria, a Mauritânia e o sul da Líbia, o médio oriente, a Capadócia. Tongobriga, apesar de ocupar cerca de 50 hectares, aparentemente não deixara “marca evidente”. Só as escavações arqueológicas sistemáticas que realizamos permitiram perceber a sua pujança como conformadora do território de administração romana.

A investigação desenvolvida, além de exumar algumas ruínas desta cidade, permite-nos interpretá-la como estrutura geoestratégica da política romana, também como centralidade e foco de cidadania.

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Sobre os povos do Noroeste da Ibéria “Estrabão, geógrafo grego ao serviço do imperador Augusto, no séc. I”, escreveu: “Dos que habitam junto do rio Douro, vivem à maneira dos Lacedemónios, untam-se duas vezes ao dia e tomam banho de vapor que fazem com pedras ao lume.” Estrabão faz aqui comparação com os Lacedemónios, tribos gregas de Esparta que ele bem conhecia, demonstrando uma perspetiva etnológica geograficamente alargada.

Noutro ponto escreve:

” Os povos montanheses que habitam o lado setentrional da Ibéria, como os Calaicos, os Astures e os Cântabros, têm rudeza e selvagismo, que resulta não só dos seus costumes guerreiros, mas também do seu afastamento. Sendo longos os caminhos por terra e por mar para chegar até eles, não tendo relações com outros, não têm sensibilidade e humanidade. Porém, agora sofrem menos deste mal, em virtude da paz e presença dos romanos.”

Esta é uma noção de periferia que é apontada ou interpretada a partir do centro de então, a partir de Roma. Numa interpretação atual perante o que conhecemos do sítio, esta noção de periferia do seculo I depois de Cristo foi assumida como um desafio. Na periferia aparentemente tudo está mais longe, tudo é mais difícil de atingir.

Apesar de periférico, o território em que hoje vivemos sofreu profundas alterações que o integraram no “mercado comum” de então, vulgarmente conhecido por “império romano”. Foram alterações que perspetivaram novas políticas económicas, agrícolas e florestais, mas também sociais e culturais. Os vários povos que, com as suas idiossincrasias, até então habitavam nos oppida situados em pontos altos (acima dos 400m), continuaram a viver sobre o território.

Nós, hoje, para separar estes povos dos romanos limitamo-nos ao prefixo pré-. 5

Dizemos romanos e pré-romanos.

Como escreveu um estudioso da palavra, Álvaro Gomes3,“ Em Tongobriga, falamos de restos pré-romanos (sinto ou pressinto o caráter dolente e melancólico daquele prefixo pré-!), porque, sendo romana a deusa subsistência, o resto é apenas o rasto de substratos. A cultura autóctone cede a uma outra, contaminante, dominante e, frequentemente e por definição, eliminante.”

Os últimos resultados da investigação apontam para o facto de TONGOBRIGA, como cidade, ter tido uma vida efémera de apenas algumas centenas de anos. O mesmo terá acontecido às várias cidades romanas construídas na bacia do Douro, norte da Meseta, desde Numância (perto de Sória até á Foz), onde em apenas algumas décadas no final do século I d.C. e no início do século II, foi feito um investimento concentrado em arquitetura e urbanismo público. Cidades como Clunia (perto de Aranda), Tiermes (perto de Burgo de Osma), Petavonium (a norte de Zamora), Aquae Flaviae (Chaves) são exemplos desse investimento em urbanismo e arquitetura.

Em simultâneo, foi instalado um novo sistema administrativo suportado em civitates, cada uma delas funcionando como capital de um territorium.

Tongobriga, como capital de civitas, integrava-se na Província Tarraconense, cuja capital era a cidade de Tarraco, atual Tarragona, situada no litoral Mediterrânico.

O territorium de Tongobriga agregaria, total ou parcialmente, o correspondente a oito dos atuais municípios: Amarante, Baião, Marco, Penafiel, Paredes, Mondim, Mesão Frio, Lousada.

Tinha como vizinhos os territórios na margem esquerda do Douro, já na Lusitânia, outra Província, cuja capital era Mérida.

3 O nome da pedra (2010)

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Como já apontei, estas cidades mostram uma leitura estratégica do final do século I e do início do séc. II, comprovada no noroeste peninsular, assumido como espaço político e económico onde não só salientamos a construção de cidades mas também a criação de estruturas rurais com tipologias formais que procuraram responder às novas exigências de produção para mercados mais alargados.

Identificamos uma revolução na paisagem com corte de carvalhais e castanheiros e o uso de terrenos a cotas mais baixas, entre os 250 e os 200 metros de altitude.

Longe de mim fazer o elogio idealizante de Roma e do seu império, mas continuamos a surpreender-nos com a perspicácia estratégica com que abordaram o mundo de então. Os feitos da expansão e da dominação estão englobados numa realidade histórica que ultrapassa Roma em todos os sentidos, tanto do ponto de vista das infraestruturas, como das relações económicas e sociais que são a armadura deste imenso império, assim como dos feitos da civilização que, e por muito tempo, modelaram a vida, os costumes, as crenças e os gestos quotidianos de um enorme espaço histórico. Roma “fabricou” cidadãos um pouco por toda a parte, em tempos diversos e lugares distintos, desde a Panónia (norte da Hungria) ao Atlântico, desde o norte de África ao norte da Europa, desde o leste da Turquia à muralha de Adriano (Inglaterra). Assumiu uma “bricolage cultural” que, se por um lado permitiu atribuir administrativamente direito de cidadania romana/latina4 aos povos que se iam ”integrando” no espaço do Império (assumido como espaço Schengen)5 por outro lado, essa “bricolage cultural” acabou por conferir identidades quase autonómicas.

Por exemplo, do nome da cidade podemos depreender afirmação identitária.

4 Vespasiano concedeu o Ius Latii, em torno de 73. A partir deste momento, todos os hispanos foram considerados cidadãos romanos de pleno direito

5 Espaço Schengen foi institucionalizado em escala europeia pelo tratado de Amsterdam, firmado em 2 de Outubro de 1997.

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TONGO, um deus desconhecido no panteão romano, aqui valorizado a par de cultos a Júpiter, a Fortuna e a Cibele, deuses do panteão clássico aqui existentes. Mas essa “bricolage cultural” era suportada num urbanismo e numa arquitetura pública globalizante. Por exemplo, o urbanismo de Tongobriga foi desenhado com o princípio de ortogonalidade suportado no actus quadratus, medida de 35,52×35,52 m, correspondendo em todo o império ao trabalho de lavra de uma junta de bois entre o nascer do sol e o meio-dia, usada pela autoridade imperial também como medida fiscal e como área de “loteamento” para construção urbana. Também os projetos de arquitetura dos edifícios das termas e do fórum6, assumiram como módulo o passus, medida do sistema imperial correspondente a 148 cm. Proporcionaram e construíram os edifícios, as salas, os corredores e as piscinas sempre com esta medida e seus múltiplos. Também os estuques decorados das termas de Tongobriga usaram moldes semelhantes a alguns de Pompeia.

Apesar da “bricolage cultural” que tenho referido, a proposta global acompanhou a “invenção” da CIVITAS, quer como estrutura urbana, quer como organismo político e administrativo que governou territórios onde uma capital, poderoso núcleo de romanização, enquadrava o desenvolvimento que garantia a produção agrícola e artesanal intensiva de um territorium, capaz de dinamizar a economia e a circulação de produtos, suportada nas redes de estradas e vias fluviais. A expansão romana foi um fenómeno não só de urbanização, mas também de colonização e de desenvolvimento agrário, onde as aristocracias políticas locais e regionais foram verdadeiras máquinas implementadoras. Sobre os povos aculturados é interessante ler o que Agostinho da Silva escreveu em 1927, para uma conferência realizada na Faculdade de Engenharia do Porto7. Nesse texto, que titulou “nativismo romano” reflete sobre o que o romano sentia pelos povos que aculturou. Agostinho da Silva defendeu que o romano não

6 Fórum área de cerca de 10.000m2 : 139m comprimento x 68,5m largura. 7 O Nativismo Romano, Estudos sobre Cultura Clássica (2002, 207-24) 8

sentia ódio pelos homens do norte e pelos orientais. Por estes sentia desprezo. Diferente era o que pensava dos gregos. Por estes tinha ódio, helenofobia. Relativamente ao grego o romano sentia-se inferior na paz, embora fosse invencível na guerra. Acrescentava que o romano considerava-se viril, conquistador do Mundo, militar duro à fadiga e tenaz nas suas empresas e, em contrapartida, considerava o grego efeminado e voluptuoso, apaixonado da beleza corporal. Acusava o grego de ser hipócrita. No entanto, escreveu Agostinho da Silva, o que mais encolerizava os romanos, que assumiam a tenacidade como virtude, não era o facto dos gregos serem hipócritas, mas a incapacidade de serem tão hipócritas quanto eles”. Esta ideia muito afirmada por Agostinho da Silva estava suportada na interpretação dos clássicos, e por isso continua a ser expressa, por exemplo numa obra publicada em 1999 em Paris, em que o autor ALAIN CHAUVAUT escreve que “existiam duas variantes de bárbaros: um oriental libertino e estroina, outro ocidental e grosseiro.8 Mas, apesar de todas estes contributos para um “pensamento global”, mesmo para quem, como eu, ao longo de décadas, estuda um lugar e o território, é impossível compreender a expansão romana e o próprio Império sem perceber o papel determinante que tiveram duas “ferramentas” que foram a língua e a moeda. A língua em que deixaram os testemunhos escritos nas pedras. A moeda que recheia a estratigrafia dos solos arqueológicos e que nos permite propor cronologia para a construção antiga e para a sua ruína. O Latim, que na origem não era mais do que uma das línguas do Lácio, tornou se romana e globalizante. A noção de latinidade ainda hoje é um conceito histórico complexo, cuja componente necessária é a generalização do latim como língua de 8 Opinions Romaines Face aux Barbares au IV siècle aprés J.C. (1998,10) 9 comunicação no Império, mas que não pode reduzir-se a esta aculturação linguística; a noção de latinidade compreende o conjunto da civilização da antiguidade romana e da sua herança. A latinidade é o resultado de um processo histórico de longa duração. A capacidade “construtiva” da conquista romana agiu sobre as camadas mais profundas da sociedade urbana e rural que usavam a língua e a moeda do mercado comum de então. E foi por esta razão que a civilização romana atingiu, também, a zona mais conservadora e menos permeável às influências – a das crenças, do quotidiano, das mentalidades, marcando durante muito tempo os costumes e as práticas, as festas e os gestos usuais, a visão do mundo e a visão do sagrado. Em TONGOBRIGA a escavação arqueológica permitiu-nos identificar, já no início do século XXI, vestígios e ruínas da basílica paleocristã do século VI, sob a atual igreja paroquial. Estes achados permitem-nos evidenciar que também aqui o período de queda do Império foi simultâneo com a emergência da cristianização, tanto mais que a pouca documentação existente confirma TONGOBRIGA como paróquia da primeira diocese do Porto9. Constatamos que também na periferia atlântica, a partir do momento em que no séc. IV o Império Romano se cristianizou, o Cristianismo romanizou-se abundantemente”. No mundo académico é hoje universalmente aceite que, mesmo com a queda formal do Império romano, no século V d.C., quando a moeda deixou de ser “única”, no mesmo sentido que atualmente é usado para o Euro, passando a sobreviver só em mercados locais, a língua comum continuou a ser o latim e foi assumido como língua materna de grande parte das províncias romanas, apesar das invasões dos bárbaros que traziam outras línguas. 9 DAVID, PIERRE (1947) Études historiques sur la Galice et le Portugal du VIeme au XIIeme 10 Como afirmei há pouco, as ideias nunca morrem e, por isso podem ser reanalisadas e apresentadas de distintas formas. Vem isto a propósito da ideia, do conceito que cada um de nós tem de “bárbaro”. Por exemplo, para as gerações que tiveram a escolaridade entre os anos 50 e 70 do século XX, foi-nos transmitida a noção de bárbaros como grupos tribais germanos que, vindos das terras do norte, invadiram as terras civilizadas do império romano, trazendo-lhe a idade das trevas. Afirmava-se a antítese entre civilização e barbárie. Contudo, entre alguns historiadores que mais recentemente têm aprofundado a investigação sobre a Antiguidade Tardia, tem havido mudança na linguagem utilizada para descrever o período pós-romano10. Todos sabemos que algumas mudanças de perspetiva dos estudiosos podem ser moldadas, pelo menos em parte, por desenvolvimentos mais latos na sociedade moderna. Por tudo isto, julgamos que é muito oportuno, também desafiante, fazer algumas leituras contemporâneas que o estudo dos lugares e dos sítios, pode propiciar. Todos sabemos que existe inevitavelmente uma estreita relação entre a forma como vemos o nosso mundo e a forma como interpretamos o passado. Retomemos, como exemplo, o conceito que cada um de nós tem de bárbaro: A imagem dos povos germânicos do século V e da sua ocupação do Império do Ocidente, a que várias gerações aprenderam a chamar “bárbaros” mudou drasticamente no final do século XX, tal como se alteraram as ideias sobre os alemães modernos e o seu papel na nova Europa. 10 WARD-PERKINS (2006) A Queda de Roma e o Fim da Civilização 11 Nas novas correntes, o Império romano não é assassinado por invasores germânicos mas, pelo contrário, romanos e germânicos transportaram juntos muito do que era romano para o novo mundo medieval romano-germânico. Com a defesa desta perspetiva a Europa latina e a Europa germânica assumem uma parceria e ficam em paz. Não temos dúvidas de que existe por certo uma ligação entre as atuais interpretações dos invasores germânicos como principalmente pacíficos e o sucesso notável (e merecido) que a Alemanha moderna alcançou na construção de uma identidade nova e positiva no seio da Europa, depois dos anos desastrosos do nazismo. Todos sabemos que nos últimos anos, a propósito da “constituição europeia” muito se falou das origens da Europa, repartindo-se opiniões sobre a influência greco-romana (como apontou George Steiner, A Ideia de Europa,2005) e sobre a dimensão do papel de Clóvis na conformação da Europa. (“nova europa” como denomina D. Manuel Clemente)11 Clóvis, um poderoso guerreiro bárbaro, depois rei Franco que se converteu ao catolicismo e foi batizado em 496. Para comemorar 1500 anos deste batismo foi feita em 1996 uma exposição organizada12 em conjunto por franceses e alemães, e teve como título “ Les Francs, Précurseurs de L’Europe”, salientando uma interpretação da história que mantém o passado romano, mas que viabiliza uma Europa pós-romana dominada pelos Francos. 11Sobre a “nova europa”: D. Manuel Clemente (1810-1910-2010, DATAS E DESAFIOS, 167, Assírio & Alvim, 2009) faz alusão a este período quando escreve que “Há pontificados culturalmente marcantes, nos dois milénios passados. Gregório Magno,…, na transição do séc. VI para o VII, foi um deles, por ter compreendido o tempo que lhe coube e relançado a evangelização da (nova) Europa, nos reinos que substituíram o Império do Ocidente, da Península Ibérica às Ilhas Britânicas, ligando tudo à Roma que sobrava, unicamente a papal.” 12 Realizada em MAINZ, cidade perto de Franckfurt, capital do Estado da Renânia-Palatinato. Foi cidade romana no séc. I, MOGUNTIACUM, base de legiões, situada na margem esquerda do rio Reno 12 Com esta interpretação, o centro da União Europeia atual, o triângulo Estrasburgo – Frankfurt – Bruxelas coincide com o centro do império franco dos séculos VIII e IX. Em contrapartida, uma união europeia suportada na latinidade evidenciaria Roma, Atenas e Istambul. Já em 1991 fora realizada uma exposição em Veneza sob o título “la prima europa” em que era salientada a cultura celta como primeiro suporte ao território europeu. Estes são meros exemplos de reajustamento histórico aplicado à conformação milenar do homem europeu e à sua identidade. E nesta perspetiva alargada que importância podem ter na atualidade os sítios como Tongobriga para que, enquanto cidadãos, lhes prestemos atenção? Julgo que é importante para a vida de todos nós, cidadãos, conhecer e perceber os nossos fatores identitários, o nosso ADN, entendido na perspetiva do desenvolvimento milenar dos territórios e das regiões. Quotidianamente levantam-se-nos questões muito diversificadas, como por exemplo: • Como analisamos a conformação do Território em 2012 e quais são os fatores identitários estratégicos? • Qual a dimensão do papel da engenharia e da arquitetura (a romana e a atual) na construção do território, na expansão técnica, cultural e da identidade? • Assumindo-se o “elemento identitário” como aglutinador, como referencial, perguntamos: Que fatores identitários podem ser estratégicos para uma região, para a sua cultura identitária e para a economia regional no séc. XXI? 13 • Que poder têm as periferias regionais e que contributos podem dar, pelas suas especificidades, para o aperfeiçoamento das administrações? • Qual o papel da língua e da latinidade? • A conformação do Homem europeu deve mais a Jerusalém, a Atenas, a Roma ou é euro-bárbara? O reconhecimento de lugares como Tongobriga ajuda a responder a estas questões, na medida em entendemos esta paisagem cultural como fruto da História, da Geografia e reflexo da ação do Homem e da natureza e das suas inter-relações. Quando estamos perante valores evidentes, valores peculiares, é mais fácil perceber que um lugar, um sítio como Tongobriga é não só fator identitário como também estratégico, tanto mais que o fator concorrência é muito reduzido. Pensando na realidade que temos e no desafio do milénio, nós que trabalhamos nas áreas da investigação, do ensino e da cultura, sentimos que, como disse em 1998 o neurocirurgião João Lobo Antunes13, “há uma doença cívica crónica que é a incapacidade de conhecer ou reconhecer contributos anteriores, ou de os articular numa lógica de aperfeiçoamento evolutivo. É muito nossa, esta ânsia de reinventar a roda, e de reclamar a paternidade exclusiva de cada ideia ou solução prática”. Há que reconhecer que esta doença cívica pode variar ao longo das fases da vida, assumidas como “esperança na infância, vontade e determinação na idade das brincadeiras, perícia no tempo da escola, fidelidade na juventude, 13 Liberdade é só Liberdade, in Portugal o Euro e a Globalização, documento sedes, 2001, 37 14 amor na idade adulta, preocupação com os outros na maturidade, sabedoria na velhice”14. Mas, independentemente da fase de vida em que, à data, nos integremos, julgo que só poderemos ter algum sucesso se for suportado num “esforço de uma educação rigorosa, mas a todos aberta, que resulta de um labor persistente, mas acessível sem exclusão, que respeita a herança cultural da sua terra, que não renega o racionalismo sustentado pela investigação e pelo conhecimento científico, que procura parâmetros objetivos de julgamento” Apesar de estarmos num tempo em que regressou o antigo dito popular que apregoava que “no poupar é que está o ganho”, julgo que não adiantamos nada em pouparmos ideias, em economizarmos nas ideias. Se existirem e forem boas, certamente que um dia, mais cedo ou mais tarde, serão usadas. Vinte e três anos depois do muro de Berlim cair, reprogramando a noção moderna “económica e política” de centro e de periferia da Europa, o Estado Português, objeto dos desafios de posição, dos efeitos colaterais da crise mundial e das debilidades internas estruturais e de funcionamento, continua a ter fatores caracterizadores da sua construção secular. É mediterrânico por natureza e atlântico por posição, na interpretação de Orlando Ribeiro. O reforço de civismo para os novos tempos de intervenção é urgente, para que a narrativa retome, interna e externamente, a dignidade da sustentabilidade histórica do território. Defendo que lugares como Tongobriga contribuem para essa sustentabilidade. Mas quando, na administração pública, falamos de território, de paisagem cultural milenar, surge sempre a dúvida sobre o que devemos privilegiar, ou tornar prioritário. 14 ERIK ERIKSON, psicanalista autor da expressão “crise de adolescência” e “crise de identidade (1902 1994) 15 Devemos privilegiar a “organização” ou a “estratégia”? Defendo que é fundamental apostar na estratégia, pondo a organização ao seu serviço. Defendo que é fundamental apostar estrategicamente na investigação sustentada dos lugares, nos lugares, não só porque contribui para o aumento do conhecimento, mas também desafia o futuro porque promove a empregabilidade qualificada e viabiliza a fruição da nossa paisagem cultural milenar identitária e, como tal, evolutiva e viva, disponibilizando-a à economia, ao turismo, às escolas e ao quotidiano do cidadão. Disponibilizando-a com um discurso cultural melhorado pelo suporte científico e, por isso, reprodutivo, ajudando a construir património. Disponibilizando-a (a paisagem cultural) ao mundo global através dos lugares e das suas identidades reconhecidas. Em Tongobriga, neste momento, reconhecem-se pelo menos quatro europas: “La prima” – a celta “A romana” “A nova europa” – cristã do séc. VI “A de 2012” É provável que as estratigrafias do lugar ainda venham a proporcionar mais identidades. E porque os arqueólogos trabalham com estratigrafias, não posso deixar de citar um excerto15 da obra literária de João Paulo II: “A história estende sobre a luta das consciências um estrato de acontecimentos. Neste estrato vibram vitórias e derrotas. A história não as cobre, antes fá-las ressaltar” 15 Obra literária, 1993, citado em Memória e Identidade, Bertrand, 2005, 76

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