Jan 27 2009
EPPUR SI MUOVE (2)
Aconselho a leitura do seguinte artigo de opinião do Finantial Times de hoje:
http://www.ft.com/cms/s/0/336a2a4a-ebc8-11dd-8838-0000779fd2ac.html?nclick_check=1
Deixo só dois excertos, apesar de aconselhar a leitura na íntegra:
“Behind this is the broader issue of loss of competitiveness on Europe’s southern fringe. Unable to devalue their currency, weaker economies can only restore competitiveness by cutting jobs and real wages”
…
“Arch-federalists, such as Jean-Claude Juncker, the prime minister of Luxembourg, are floating the idea of the “mutualisation” of national debts within the eurozone. This would involve the wider euro area assuming the debts of the weaker nations. But, naturally, they would want something in return for this remarkable act of generosity. That something would be that weakling economies would submit to direction from the central authorities of the EU”.
Eu gostaria de agradecer de imediato ao V.B. o tempo, a paciência e o cuidado que pôs nas respostas aos meus dois comentários. Fiquei endividado. Sinto-me obrigado por tanto a escrever este terceiro.
Partilho o desejo de trocar impressões sobre o tratamento a dar a estas duas «crises cruzadas». Sou igualmente sensível à necessidade de minimizar custos e de prevenir a eclosão de instabilidade social. E no meu entendimento, o V.B. busca uma cura séria para a crise «nacional». Que parte do princípio de que a outra crise, a «internacional», está ao menos em vias de se resolver.
Queria deixar desde já um alerta grande. A crise «internacional» está muito longe da resolução. E há hoje um excesso de propostas sérias de curas «nacionais» que não promovem o que entendo ser urgente: a concertação das políticas «nacionais». Foi a dificuldade em conseguir a concertação internacional em 1931 que trouxe a segunda vaga do «tsunami» financeiro que começou em 1929. (Para muitos, ironicamente, já denunciado na «bolha» imobiliária da Florida que «rebentou» em 1925.) É por isso que a minha busca duma cura para a crise «nacional» necessita de partir do princípio de que a crise «internacional» deixou de se agravar.
Eu também não conseguia perceber o que me separava do diagnóstico do V.B., que entendo ser rigoroso. E por isso não compreendia por que tinha dificuldade em aceitar a cura. Também sustento que «o funcionamento da economia não é justo nem injusto». É o que é. Sem mais. Fui por isso ver o que é o funcionamento da economia «nacional».
São trabalhadores que «ganham miseravelmente», «com a produtividade que temos», mas cujo «nível de vida (colectivo) que temos» não vai ser possível sustentar ao nível dos «congéneres europeus ocidentais e americanos, com cuja produtividade a nossa economia não consegue competir». Vai por tanto ter que ser deslocado para o nível de vida dos «asiáticos e leste-europeus, com cuja produção as nossas exportações competem».
Eu também não entendia o que me separava do V.B. Agora, já sei. É o «funcionamento da economia».
É que no funcionamento da «minha» economia nacional, há uma economia dual. Há trabalhadores que ganham miseravelmente, e há trabalhadores que têm «um» nível de vida (que não é «colectivo», porque é «corporativo», ou «urbano») que é comparado com o dos congéneres europeus ocidentais e americanos. Na «minha» economia nacional não há «colectivo». Não há desigualdade harmoniosa.
É por esta razão que quando gostaria de ver «uma convergência das principais forças políticas para, em conjunto com as principais forças sociais, se empenharem na elaboração de um Consenso Político-Social», lembro-me da primeira «secessio plebis». Lembro-me do patrício sábio que foi enviado ao Aventino para contar a fábula sobre a greve dos membros do corpo humano, contra o estômago que pouco fazia e tudo comia. E lembro-me do «consenso» que criou o primeiro «tribuno da plebe», que criou o primeiro poder de «veto», e que incluiu o perdão das dívidas de alguns plebeus.
Tal como o V.B., gostaria de poder ver um Consenso antes de chegar o estrago social. Mas para isso há que primeiro aliviar o «conflito das ordens». Que onde há tanta desigualdade social, não é justo ou injusto. É o que é. Porque é um conflito que vive para além das eventuais e das difíceis convergências .
Obrigado.
Caro F.
Desculpe, mas, quanto à dualidade, não vá por aí porque não chega ao destino. Primeiro, porque todas as economias são duais e com diversos níveis de transição entre os dois extremos. Depois, porque se quiser começar a “abrir” a economia, pode sempre argumentar que quer desagregar mais um grau, o problema torna-se intratável e v. vai achar que o argumento falha pela falta de tratamento desse nível que fica a faltar…
O meu argumento desenvolve-se ao nível macroeconómico e, com este espaço e este tempo de análise, tenho que usar o máximo de agregação. Que, no fundo, é o relevante para o problema em apreço.
Aliás, do exemplo que refere - “Há trabalhadores que ganham miseravelmente, e há trabalhadores que têm «um» nível de vida (que não é «colectivo», porque é «corporativo», ou «urbano») que é comparado com o dos congéneres europeus ocidentais e americanos” - em que sector é que trabalham, sobretudo, estes segundos trabalhadores: no transaccionável ou no não transaccionável? É que este sector é o que tem tido as margens e o mercado) protegidos e por isso tem conseguido atrair os melhores recursos, nomeadamente humanos e pagar-lhes os preços europeus ou americanos. Mas não vende no mercado internacional… E onde é que estão, sobretudo, os primeiros trabalhadores? E não é por, neste sector, poder apresentar 2 ou 3 empresas, que sejam “topo de gama” em qualquer parte do mundo, com 100 ou 200 trabalhadores “do melhor que há”, que altera a essência do problema, porque “não tem acumulação de quantidade suficiente para mudar a qualidade” do sector…
O problema, macroeconómico, é simples: exportamos 30% do PIB e importamos 40%, porque só produzimos 40% do que “procuramos”. Vivendo assim há 10 anos acumulámos a maor dívida externa da nossa história, que ninguém sabe muito bem como vai ser paga. Como se sai disto? Teoricamente, aumentando a oferta e/ou reduzindo a procura. E como é que lá chega? Do lado da oferta, aumentando competitividade, seja por aumento da produtividade - o que leva muito tempo, que é o que mais desperdiçámos - seja por redução dos custos - que é onde actua a desvalorização (ou o seu sucedãneo). Do lado da procura, é mais fácil - via Orçamento - embora, nas circunstâncias actuais, seja complicado por causa da crise internacional.
Quanto a esta, a crise internacional, estou de acordo com o que diz, mas esse não era o meu ponto e por isso não o desenvolvi, mas agradeço-lhe o contributo.
O meu comentário anterior trouxe pouco ao V.B. na sua busca dum dito «Consenso Político-Social». Trouxe «reclamações». Duas. Que a concertação europeia (e menos ainda a internacional) das políticas económicas nacionais ainda não foi conseguida. Mas vamos «reclamar» que foi. E que a vida portuguesa ainda não tem a profundeza de felicidade que é a garantia da paz social. Mas vamos «reclamar» que tem.
É neste contexto que se enfrenta aqui a perspectiva de transformar Portugal no «Mississipi» dos EUE (os Estados Unidos da Europa) do Senhor Jüncker. Com tantas línguas diferentes que dificultam a nossa mobilidade. Sem um Tesoureiro-Maior em Bruxelas para ajudar em tempos de crise. Vale-nos a certeza de que já não são só os países endividados e os pelintras que estão a ser afectados. São todos. E por isso se está a criar o incentivo para uma actuação central cuja dimensão só pode aumentar. Mas vamos «reclamar» que tal incentivo não existe.
Penso que é neste contexto que o V.B. se questiona sobre o que fazer ao «caloteiro». A cura é pois «clássica».
Ou se perdoa parte da dívida. É a variante do que fez Labão, que prometeu a mão da filha Raquel, a bela, em troca de sete anos de trabalho sem soldo e só com pão. (Lembrando sempre que Jacob não era caloteiro.)
Ou se manda penhorar os seus bens. É a variante do que fez a malvada Jezabel, ao mandar apedrejar Nabot de Jezrael por causa da vinha que tinha junto ao palácio de Acab, rei da Samaria, e que não queria dar ao rei. (Lembrando ainda que Nabot morreu.)
Ou se negoceia um prazo novo e mais longo. É o que faz o banqueiro moderno, na sua preocupação com o «efeito Basileia».
Ou então… acredita-se que nunca há milagres. Mas que é o diagnóstico que está errado.
Que toda esta crise mais não é do que um desencontro temporário entre a procura e a oferta de activos financeiros. Motivado pelas poucas alternativas que estão a ser oferecidas às poupanças que se acumularam nos últimos vinte anos por esse Mundo fora. E que logo que atinjam o preço adequado, vão voltar a ser «devorados».
Há levantamentos para uns, que são revoluções para outros. Há ajustamentos para uns, que são milagres para outros.
Obrigado.
VB,
Sem querer abusar da sua paciência, também me senti incentivado por ela a escrever umas notas no meu caderno de apontamentos (http://aliastu.blogspot.com) e a transcrevê-las aqui.
DUAS ENTRADAS PARA O INFERNO E UMA SAÍDA PARA O CÉU DAS MOSCAS
Vítor Bento volta, em artigo colocado no blog da Sedes, a alertar para o beco sem saída onde se meteu a economia portuguesa e a lamentar-se, qual Galileo Galilei no meio da indiferença geral, que esteja a pregar para penedos. Depois de repetir as evidências, Vítor Bento conclui que, agora, só temos “três saídas: 1) redução concertada dos salários e/ou aumento do horário de trabalho (o sucedâneo de uma desvalorização que não podemos fazer), reganhando competitividade e reduzindo a despesa interna; 2) um massivo desemprego, à medida que as actividades não competitivas vão fechando (e obtendo com isso a redução da despesa interna, embora eventualmente para além do que seria necessário) e até que o aparelho produtivo se reestruture ou parte da população emigre; e 3) um milagre.”
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Em recomentário, Vítor Bento acrescenta: “Nas actuais circunstâncias, em que há mais dúvidas que certezas e em que, como diz o MF, nos temos que guiar pelas estrelas e por vezes o céu está nublado, o que eu gostaria de ver era uma convergência da principais forças políticas para, em conjunto com as principais forças sociais, se empenharem na elaboração de um Consenso Político-Social que, dentro de todas as restrições e se perder de vista o médio prazo, permitisse responder à(s) crise(s), minimizando os impactos negativos e os custos sociais.Em lugar desta gritaria de todos contra todos.”
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Os textos de Vítor Bento são de uma clareza extrema, e a sua disponibilidade para o contraditório notável. Vale a pena ler, e pensar, os textos, e os comentários, e reler aqueles que publicou em Julho do ano passado, e que comentei aqui .
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Contrariamente, porém, ao que lamenta Vítor Bento não penso que seja na oposição endémica entre o optimismo reinante e o pessimismo responsável que reside o bloqueamento do consenso suficiente necessário à adopção das medidas que a situação impõe, ainda que concorde inteiramente com o diagnóstico e lamente também que o consenso para a ultrapassagem do imbróglio não se sobreponha ao berreiro.
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Porque, convenhamos, independentemente da apreciação da inevitabilidade das saídas (ou das entradas forçadas) que Vítor Bento afinal resume a uma (reduções salariais) já que quem se fia em milagres o mais certo é levar um tombo, e o desemprego não é uma saída mas uma calamidade que dispensa consenso, se é imperioso consensualizar uma medida tão drástica (reduções salariais) é também fundamental que esse consenso se prossiga com o consenso de outras medidas (outras saídas) sem as quais ficaremos na mesma difícil posição mas num patamar mais baixo. Dito de outro modo, uma operação de desvalorização dos salários, sendo equivalente a uma operação de desvalorização da moeda sem anestesia, se não for acompanhada de outras intervenções conduz o doente, muito rapidamente, a uma situação de recaída.
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Ora tem sido a falta de discussão de propostas alternativas claras que tem conduzido a política em Portugal para um diálogo de surdos entre o governo e a oposição, num jogo táctico que nos tem conduzido a este empate pirrónico para a queda.
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Para além do governo e da oposição temos a “sociedade civil” (temos a Sedes), temos o PR.
Do PR esperava mais. Nos tempos que correm precisa-se do PR uma intervenção mais incisiva e mobilizadora traduzida em indicações concretas. Da “sociedade civil” uma participação mais comprometida e mais afirmativa pela positiva. Estar contra o TGV e outras megalomanias não chega, até porque quem não tem dinheiro não tem megalomanias. É preciso, sobretudo, dizer às pessoas o que podem esperar depois de lhe serem reduzidos os salários. O que elas menos esperam, obviamente, é que lhes digam que vão ter menos ordenado mas irão chegar ao Porto em menos meia hora ou a Madrid em três horas.
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Como a carga é enorme a sua remoção impõe a intervenção de alavancas em múltiplos pontos de apoio. Galileo disse um dia que se lhe dessem um ponto de apoio e uma alavanca mudaria o mundo. Não mudou. Só um ponto de apoio não chega.
Agradeço correcção do último período:
Leia-se por favor:
“Como a carga é enorme a sua remoção impõe a intervenção de alavancas em múltiplos pontos de apoio. Arquimedes disse um dia que se lhe dessem um ponto de apoio e uma alavanca deslocaria o mundo. Não deslocou. E, provadamente, para mudá-lo um só ponto de apoio não chega.”
em lugar do que lá está.
Obrigado.
Exmo. Dr Vítor Bento
Li com atenção os comentários seus e dos participantes do blog, bem assim como os artigos aos links que indicou.
A sua análise parece-me à prova de bala, podemos prerorar sobre o que devíamos ter feito, exercita o intelecto. No contexto económico e internacional em que nos encontramos, a solução para o nosso problema está reduzida a, apenas, três alternativas: saímos do euro, diminuimos os salários, ou aceitamos uma existência subordinada, ainda que encapotada, através de uma operação de mutualização da nossa dívida.
Como confessou e constatou na prática, este Portugal, (como sucedeu noutras épocas históricas), convive mal com a realidade e com os factos e decisões difíceis. VB desceu no plano inclinado da ave agoirenta, encontra-se no patamar de quem teve razão, mas vai “subir” ao pedestral de profeta da desgraça, co responsabilizado pelo que de mal acontece. O estado de negação existe em toda a União, apenas com a diferença que, quanto mais ricos, mais fácil se torna alimentar esse estado. Os probres não podem ter luxos.
A proposta da mutualização, que devíamos começar já a estudar, é estratégicamente proposta por um pequeno (rico) mas, formalmente, neutro: Juncker, Luxemburgo. Mas convêm à ortodoxia do centro da europa e, pelas suas consequências, favorece a hegemonia alemã.
Vamos por partes: é a ecassez de liquidez que originou o aumento dos spreads das dívidas soberanas. Estamos no mesmo espaço monetário, mas a credibilidade, que antes não tinha (tanta) importância, passou a ser um elemento essencial. O mesmo se está a passar com a banca, mesmo com o aval do Estado, existem bancos mais bancos que outros, porque se destrinça a qualidade do balanço e da gestão. ( O BES colocou toda a oferta e a CGD não, facto que não interessa, sequer, realçar).
Os quatro doentes do Sul da Europa são iguais no risco, mas diferentes nas consequências da aplicação do remédio proposto: a unidade e as idiosincresias de Portugal e da Grécia pode (vai) fazer com que este último equacione sair do euro, ou arranjar uma solução ao estilo dinamarquês, ao passo que nós vamos alegremente para a mutalização, uma parte importante do período do constitucionalismo monárquico foi passado sob umas finanças públicas “mutualizadas” em especial pelos bancos ingleses, mas não só.
Itália e Espanha fia um pouco (muito) mais fino. Países jovens e pouco consolidados, podemos assistir a um separatismo de facto, mas não de jure ao estilo belga. Explique aos Lombardos, Piemonteses, Catalães e Bascos, que têm de pagar mais caro (ainda vá) e não obter todo o crédito que necessitam (completamente inadmissível e politicamente suicidário), porque os napolitanos, extremenhos, canários ou sardos são uns irresponsáveis, chulos, e outros mimos que deve imaginar. Podemos estar a um regresso às origens.
Não me admiraria que Lacaixa obtivesse um spread menor, ou o mesmo spread, mas, importante detalhe, conseguindo colocar toda a emissão e que outros não o consiguam; depois é fácil peneirar a concessão de crédito sem que seja uma descriminação, ostensiva. A mutualização nem sequer é complicada, basta negociar em Bruxelas, neste caso a autonomia Lombarda ou Catalã, um plano orçamental e cumprir as regras.
O que falta para este cenário se verificar:
a) Que a crise separe o trigo do joio, isto é a boa banca da má banca.
b) Que a rarefacção da liquidez, mais do que os spreads elevados, surtam os seus efeitos, que estão mais ou menos elencados acima.
c) Que exista um ouvinte atento, seja em Bruxelas, seja em Berlim, seja mesmo em Paris, e tomar em consideração os agravos dos bem comportados.
Quando acho que este cenário pode suceder: no prazo de ano/ano e meio.
Neste contexto, as palavras do PR no fim do ano podem até ser consideradas temerárias e muito optimistas.
Cumprimentos
Adriano Volframista
Agradeço a todos os estimulantes comentários que fizeram a estes dois artigos. Tenho pena que este debate não tenha lugar de uma forma, e num lugar, mais eficazes.
Espero que todos tenham compreendido que não tinha em vista nestes dois artigos tratar TODO o problema económico português ou, sequer, apresentar um consistente Programa de Estabilização e Recuperação da Economia Portuguesa.
Quis apenas sensibiizar as pessoas interessadas nestas matérias (e pelo futuro do País) que andam pela blogoesfera, para uma parte importante do problema e que gostaria de voltar a apresentar recorrendo a uma analogia facilmente entendível pelos não economistas.
O País entrou no hospital com uma imparável hemorragia (défice externo). Esta hemorragia tem sido tratada, basicamente, ligando a uma máquina de transfusões automáticas (financiamento externo) que lhe vão mantendo o fluxo de sangue, assumindo que o stock deste é inesgotável. Deixando de lado, por enquanto, o problema do custo das transfusões e de como é que se vão pagar, estamos agora confrontados com outro problema.
Aconteceu um enorme terramoto e o hospital ficou de repente cheio de doentes a precisar de sangue e o fluxo de dadores de repente quase estancou. Há agora o receio generalizado se vai haver sangue para todos os doentes, pelo que, ou paramos a hemorragia, ou o doente pode vir a ficar exangue. A preocupação tratada ano post era apenas estancar a hemorragia, deixando o resto em aberto.
Já agora, a solução que parece ter reunido mais consenso - ajustamento “à bruta”, pelo desemprego - é o equivalente a amputar partes do corpo, ou desligar órgãos… Eu sei que o exemplo é cru e chocante - não me levem a mal por isso - mas às vezes é preciso chocar para fazer pensar…
VB
De acordo apenas acho que é mais semelhante às casas de fumo de ópio que existiam na China no final do sec XIX e início do XX.
Os clientes que puderem, porque têm dinheiro e crédito junto do fornecedor, conseguem a sua dose ainda que mais cara.
Os outros, mesmo que desejem comprar mais caro, porque o fornecedor não acredita na sua capacidade, apenas vão conseguir uma parte.
Estes, como se diz na gíria, vão “ressacar”. Acho pior que amputação, porque nesta, ficamos sem os membros, na outra, eles continuam. A Grécia, acho, já está a “ressacar”. O problema em Portugal é que, quando estivermos em “ressaca”, o poder político e os poderes fácticos, vão tentar fatiar e iludir, as origens e os responsáveis, mas como se passa na história do Capuchinho,acho que a população, no fundo, no fundo quer ser enganada.
Cumprimentos
Adriano Volframista
VB foi um dos (poucos) economistas portugueses que sempre teve a coragem de chamar a atenção para os desequilíbrios da economia e para as dificuldades do ajustamento enquanto muitos outros preferiram seguir o conselho da ave nos versos de TS Elliot:
“Vai, vai, vai, disse a ave: o género humano
Não pode suportar muita realidade.”
Gostaria de deixar uma nota de esperança, na medida em que o relevante são os custos unitários tenho esperança que, como disse o Presidente da República, ainda haja um caminho estreito que seria a combinação de uma política orçamental neutral (no sentido de deixar funcionar os estabilizadores automáticos), de uma política de congelar os salários nominais por forma a que a inflação e o aumento da produtividade no sector dos bens transaccionáveis permitissem o reequilibrio com um mínimo de trauma social. Sinceramente não sei se será suficiente, mas face às alternativas parece-me que é uma estratégia que valeria a pena tentar.
Os artigos para além destes dois últimos que o V.B. aqui dedicou à questão do endividamento externo português, são muito importantes e são úteis. Não partilho o consenso do ajustamento «à bruta». Porque, usando a parábola do terramoto, entendo que depois de estancar as hemorragias haveria sangue suficiente para todos.
Mas fiquei com pena que não tivesse entendido o meu propósito. É que estou disponível para subscrever o «Consenso» que o V.B. busca, se me fôr garantida à partida a verba para «enterrar os mortos». Que são os operários dos sectores de produção de bens transaccionáveis. Que não são os académicos das universidades públicas, os professores, os médicos, os advogados, os colaboradores das empresas públicas, os funcionários das administrações do Estado, os deputados da Nação, os membros do Governo.
Não fui convincente. Tudo porque usei a palavra maldita: «dualidade». Fiquei logo atirado para aquele monte de «compressas usadas», a «El Trimestre Economico» dos anos Sessenta. Quem me dera saber pensar como Raoul Prebisch, Fernando Henrique Cardoso, ou Celso Furtado… Teria persuadido melhor.
Obrigado.
Caros jopms e F,
Eu tinha dado por encerrada a minha participação nesta troca de comentários, porque havia esgotado o que tinha a dizer sobre o assunto e não queria entrar em loop argumentativo. Mas a simpatia dos vossos últimos comentários, acompanhada pelo que me pareceu ser um sinal de frustração por não sentirem ter sido compreendidos, leva-me a voltar ao assunto para não deixar mal-entendidos.
O assunto que levantei neste dois posts tem obviamente muitas ramificações que, se a todas quisermos atender, acabamos por perder o controlo da discussão. Este meio não é propício a longas e complexas dissertações, pelo que temos que optar entre simplificar para conseguir captar a atenção ou ser perfeccionista e ficarmos a escrever só para nós. Por isso, segui o método que os economistas normalmente seguem que é concentrar num aspecto do problema e remeter o resto para o “ceteris paribus” ou algo equivalente. É claro que as variáveis que tratarmos no modelo simplificado hão-de ter interacções com as que ficam de fora - afectando-as e sendo por elas afectadas em retorno - e isso altera os pressupostos que “estabilizámos” para nosso conforto. Mas, ainda assim, é a melhor alternativa para que cérebros limitados como o meu consigam lidar com problemas muito complexos.
Voltando ao ponto que queria fazer. Os vossos contributos foram úteis e estimulantes e o que se manteve como (aparente?) divergência decorre sobretudo de não ser possível neste meio explorar todas as ramificações do tema. Estou certo de que se estivéssemos a conversar por umas horas a discussão levaria a caminhos mais claros. Mas não estou certo de que aqui conseguíssemos ir mais longe do que fomos.
É importante é que se perceba que temos um problema grave entre mãos e que não vai ser possível sair dele sem custos significativos. O que é verdadeiramente grave é que há muita gente que ainda não percebeu - ou não quer perceber - isso. E isso é grave porque, tomando uma outra parábola da área da Saúde, se um doente tem um comportamente que lhe agrava uma doença grave, não é possível tratá-lo se ele não parar o comportamento. E ele não aceitará fazê-lo se não perceber que lhe faz mal…
Mais uma vez, obrigado pela atenção e envolvimento que dedicaram aos posts.
Estimado VB
Gostaria de chamar a sua atenção para o aumento significativo da produtividade em Espanha em 2009, já que a redução do PIB foi mais do que compensada por um aumento do desemprego. Isto vai de encontro ao que indicou como possíveis saídas da crise.
Mais pormenores em http://www.kambaia.blogspot.com, onde mostro um gráfico da UBS com um comparativo da produtividade em Espanha face a outros países europeus.