Jan 24 2009

Debate-Investir no Estrangeiro?

Publicado por Henrique Neto a 17:08 em Artigos Gerais

A EDP investiu mais de mil milhões de euros na energia eólica dos Estados Unidos. Será um bom investimentos para a
empresa? e para a economia Portuguesa?
Participe neste debate
De: Antonio Cardoso [mailto:moutinhocardoso@gmail.com]
Enviada: quinta-feira, 22 de Janeiro de 2009 8:22
Para: adm@iberomoldes.pt
Assunto: Irresponsabilidade dos comentários ontem na SIC

Exmo. Senhor
Até tinha por si simpatia pelos seus artigos e comentários, mas ontem francamente, quando não se sabe não se comenta. As suas declarações sobre os investimentos da EDP nos USA e no Brasil raiaram a mediocridade daqueles que não querem sair da cêpa torta deste Portugal pequenino. Por outro lado a EDP nunca investiu 16.000 milhões de euros no Brasil. Os investimentos no Brasil são altamente rentáveis ao contrário da Portugal Telecom.
Francamente não descarregue os seus problemas naquilo que Portugal pode ter orgulho de ombrear com os melhores.
Faça sim comentários sobre a Industria automóvel que está falida e não investe em tecnologias limpas e arrastará consigo os fornecedores de acessórios.
Olhe para si e não semeie tempestades.

com os meus melhores cumprimentos,

António Moutinho Cardoso

Atenção: António Moutinho Cardoso

Apesar do tom, agradeço o seu mail, porque me permite demonstrar que não tem razão.

Primeiro, esclarecer o que foi dito por mim:

1-Não critiquei o investimento da EDP no Brasil, mas sim nos Estados Unidos. Critiquei foi a campanha que foi feita pelo Governo de António Guterres para o investimento no Brasil das empresas portuguesas e não especificamente da EDP. O que aliás disse na época, porque se tratou de um enorme desperdício dos recursos nacionais. O investimento no estrangeiro só pode ser rentável quando conduz a fluxos comerciais, senão é um mero investimento financeiro.

2-Dezasseis milhares de milhões de euros, disse, foi o investimento das empresas portuguesas no Brasil na referida época e disse que ninguém fala do retorno desse investimento, para que o País conhecesse os resultados dessa campanha. Relativamente ao investimento da EDP nos Estados Unidos falei de um a dois milhares de milhões de dólares.

Agora falando do investimento da EDP nos Estados Unidos trata-se de um erro de enormes proporções e dentro de cinco a dez anos isso será claro. Aliás há cerca de dez ou doze anos publiquei nos jornais um texto em que dizia que a EDP estava a fazer um erro de enormes proporções ao investir nas telecomunicações em vez de fazer um consórcio – com a CP, Brisa e outros- para o transporte de informação até a casa dos clientes em fibra óptica. Tratava-se de uma REN para as telecomunicações. O então Presidente da EDP, o Dr. Sanchez, convidou-me para almoçar onde não o consegui convencer do erro. Há dias fui visitado pelo actual Presidente da OMNI que me confirmou o erro feito, o dinheiro perdido e que hoje a vantagem competitiva é a fibra óptica que chega a casa dos clientes. Por isso aconselharia a estar menos convencido da sua verdade.

Entretanto, porque parece ser defensor do ambiente, explique-me o seguinte:

- Porque é que durante 30 anos a EDP não construiu barragens?

- O que pode justificar, do ponto de vista ambiental e do interesse nacional, fazer um investimento de tal monta em energia eólica nos Estados Unidos? Para compensar as convicções do Presidente Bush?

- O que pode justificar que um País sem recursos e com tão grande necessidade de investimento, nacional e internacional, tenha uma empresa criada e mantida com o dinheiro dos portugueses, vá investir nos Estados Unidos?

- Porque é que a EDP não produz tecnologia em vez de comprar tecnologia? O que é isso de ombrear com os melhores? Como tem a obrigação de saber, qualquer estúpido, desde que tenha dinheiro, pode investir e comprar uma empresa produtora de energia eólica nos Estados Unidos. É isso que não é mediocridade?

-Porque é que o actual Presidente da EDP acabou com a produção de painéis solares quando foi Presidente da Galp?

- Porque é que a EDP não produz energia solar? Ou não promove o seu uso?

-Porque é que a EDP, não utiliza a energia eólica para bombar o retorno da água nas barragens?

- Finalmente, qual foi o retorno do investimento da EDP no Brasil? E o que acontecerá quando, depois da maioria dos investimento na produção de energia hídrica no Brasil estiver concluído, o governo brasileiro definir preços administrativos não rentáveis?

Em resumo, acho bem que defenda o seu ponto de vista, mas se possível, respeite o ponto de vista dos outros, principalmente quando os outros têm razão, hoje como no passado. A propósito, sabe que o investimento da EDP nos Estados Unidos, não contribui para o PIB nacional? E que não contribui para reduzir o desemprego em Portugal? E que não reduz a nossa importação de energia?

Cumprimentos

Henrique Neto

4 comentários até agora

4 Comentários para “Debate-Investir no Estrangeiro?”

  1. causavossaa 24 Jan 2009 as 22:32

    H.N.

    Em dez, nota dez!

    Não tendo dados para saber se o investimento tem um retorno justificável, há algo que sei. Precisamos de empresas de bens transacionáveis e se a Edp, tem como limite lucros a derivar para o infinito, não seria mais patriótico diminuir o preço da energia eléctrica em Portugal, verdadeiro estrangulamento ao desenvolvimento de empresas nacionais?

    É que eu fechei uma empresa, não por ineficiência energética, mas pelo custo excessivo da factura energética!

    Custos burocráticos altos, custos energéticos altos, custos de transporte altos, afinal há alguém que queira um Portugal auto sustentado e de bens transaccionáveis?

    Depois há quem chore sobre o leite derramado da não sustentabilidade!

  2. António Moutinho Cardosoa 26 Jan 2009 as 23:56

    Em primeiro lugar a EDP é uma empresa privada cotada em bolsa, na qual o Estado participa, mas tem uma administração profissional mandatada pelos accionistas. O dinheiro que é investido é dos accionistas. Eles é que assumem riscos.
    E a EDP tenta investir naquilo que é mais rentável, sustentável, e benéfico para todas as partes interessadas, accionistas, trabalhadores, clientes e fornecedores, Bancos e outros. No passado cometeu erros que foram corrigidos, nomeadamente nas telecomunicações. Mas não é isso que agora está em causa, isso pertence ao passado, é do futuro que se trata, trata-se da sobrevivência da Empresa para bem de nós todos Portugueses.
    O Mundo mudou, entramos num novo paradigma, e temos de de nos adaptar à nova realidade. E aí é de se tirar o chapéu aos novos Visionários como António Mexia, que se anteciparam às novas tendências mundiais, as Energias Renováveis. Isto a sobrevivência da raça humana e inverter o processo de destruição do Mundo em que vivemos.
    Existem muitos críticos em relação às energias eólicas, mas vou contar uma pequena história, em relação uma empresa de refrigerantes que um dia ardeu, a Gruta da Lomba. Tendo o filho ido acordar o pai, exclamou ao pai a fábrica ardeu, e o pai tranquilo perguntou ao filho, o poço ardeu?. E eu pergunto o vento vai acabar? Mas a torneira do gás pode fechar, vide o recente caso da Ucrânia.
    Claro que questiona Henrique Neto porque não se investe em Portugal e estamos a dar emprego na América. Só que primeiro temos que reflectir porque isso acontece.
    Durante vários anos certos políticos tudo fizeram para prejudicar a EDP em relação à concorrência espanhola para tornar a empresa vulnerável a uma OPA. Um deles até passou de ministro para Administrador da Iberdrola. E a empresa queria crescer e não a deixavam por causa do monopólio em que se encontrava. Por isso teve que procurar novos mercados e tornar-se uma verdadeira empresa multinacional. Se ela não cresce-se acabaria por se tornar numa Hidrocantábrico ou uma Electrica do Viesgo, alvo fácil para empresas estrangeiras. E o que seria de nós se o centro de decisão muda-se para Madrid ou Roma ou Paris? Dá alegria ver o know-how da Empresa a dar cartas e gestores portugueses à frente da Horizon como Marins da Costa e Pita de Abreu na Energias do Brasil. Não nos dá alegria ver Mourinho a treinar equipas no estrangeiro com sucesso?
    Já vou longo, mas não quero deixar de referir que foi há 13 anos e não trinta que a empresa deixou de investir na energia hídrica por decisão de António Guterres, vide Foz-Côa, e por mais críticas que se possam fazer ao actual Governo temos de tirar o chapéu e concordar com a actual política energética,
    nomeadamente o plano de barragens. Bem haja António Sócrates.
    P. S. A EDP está a fazer um investimento avultado na Barragem do Baixo-Sabor que neste momento está parada, por decisão do Tribunal desde 30 de Dezembro e que essa decisão está a custar à empresa milhares de euros diários.

  3. António Moutinho Cardosoa 27 Jan 2009 as 0:14

    Resposta a H. N.
    A Quimonda Portugal era uma empresa de sucesso, tecnologicamente o mais avançada que podemos encontrar, com 600 engenheiros em 2000 trabalhadores que produzia bens transacionáveis e responsável por 5% das exportações nacionais. E porque faliu? Porque vendia para apenas um cliente, e o centro de decisão encontrava-se em Dresden.
    Na tormenta que vivemos empresas que estão em vários mercados e diversificam as suas fontes de rendimentos, podem passar melhor sem se afundarem.

  4. causavossaa 27 Jan 2009 as 9:35

    Caro AC

    Não questiono o investimento em renováveis nem tão pouco a diversificação dos mercados. É sinal de uma estratégia moderna e avisada. Nem tudo está podre e é negativo no reino da Dinamarca! Questiono sim o modelo que fez de monopólios públicos, monopólios privados, mais a mais nestes tipo de sectores de que depende toda a nossa fileira industrial e mesmo de serviços.

    É bom que a EDP crie massa crítica, se “multinacionalize”, mas também é bom que não canibalize todos os demais, na ânsia sem limite de remunerar accionistas e gestão. O interesse de todo os demais e do País assim o exige, principalmente em ambiente de monopólio. Aliás porque é que se limita a venda de energia à rede na microgeração?

    No mundo paritário e concorrencial a energia pode e deve ser um factor de desenvolvimento equilibrado e não um factor de perturbação, desequilíbrio e diminuição do crescimento.