Jan 15 2009

Darwin

Assinala-se neste ano de 2009 o 150º aniversário da 1ª edição da obra fundamental de um dos maiores pensadores dos últimos 200 anos. A sua obra enfrentou grandes resistências e a sua publicação esteve proibida em vários países. Ainda hoje é contestado pelos sectores mais conservadores e mais ligados ao fundamentalismo religioso.
Este génio revolucionário foi Charles Darwin (não Karl Marx) e a obra ” On the Origin of Species by Means of Natural Selection”.
O seu contributo é maioritariamente reconhecido na área das Ciências Naturais, nomeadamente na Biologia. Mas é igualmente incontornável na área das Ciências Sociais e, cada vez mais, reconhecido como tal.
A ideia de que a competição entre os indivíduos e as espécies, visando a sobrevivência, a reprodução e a preponderância dos mais fortes (ou eficientes, ou capazes), conduz à selecção das espécies mais bem adaptadas para prosperar no ambiente dominante em cada era, é hoje o paradigma comummente aceite pelas teorias científicas na Biologia. Mas essa influência tende a alargar-se, lógica e inevitavelmente, à área das Ciências Sociais.
A espécie humana é gregária e social por natureza. E como outras espécies gregárias (abelhas, formigas, lobos, etc.) a sua natureza está indissoluvelmente ligada à sua organização social. A sua sobrevivência e expansão dependem da eficiência da sua organização social. É aqui que entra o paradigma darwinista: as sociedades mais eficientes prosperam, enriquecem, crescem em acumulação de riqueza, em número de indivíduos, em território, em duração civilizacional.
Numa visão darwinista da História, a sucessão das civilizações, dos modos de organização social e económica, não tem de estar predeterminada, como no paradigma materialista e marxista. Várias formas organizativas podem surgir em diferentes civilizações, em diferentes países, em diferentes regiões: as mais eficientes prosperam, ganham vantagem, são imitadas.
Inovações introduzidas mais ou menos aleatoriamente são experimentadas em diferentes contextos: as inovações bem sucedidas ganham raízes, são aprofundadas, divulgam-se; as outras são abandonadas e esquecidas. Soluções que não funcionam em certo ambiente, podem ser uma mais-valia noutro; modelos que são hoje impraticáveis, podem ser fundamentais no futuro.
A evolução das espécies não necessita de um “inteligent design”, de um caminho predefinido de evolução para estádios sempre superiores. Aliás, na infinidade e complexidade de factores que afectam o meio ambiente, não é possível prever “a priori” quais as mutações que serão bem sucedidas. Há apenas 100 mil anos atrás, era impossível prever que um primata com poucos pêlos, fraca musculatura, que tentava equilibrar-se em apenas 2 pernas e tinha de aguentar um crânio demasiado pesado, iria tornar-se uma das espécies mais bem sucedidas e dominantes sobre a Terra. Nessa altura, ninguém daria importância à mutação da nossa garganta que nos permite falar.
Há 1500 anos, a queda do império romano foi encarada como uma catástrofe, um retrocesso que mergulhou a Europa em 1000 anos de trevas. Mas foi do ambiente de competição entre os múltíplos reinos, e ducados, e cidades-estado, em que a Europa se dividiu, que nasceu o sistema capitalista, a civilização tecnológica, os direitos humanos, hoje globalmente dominantes.
Marx foi bem o produto da cultura judaico-cristã, da necessidade de encontrar uma ordem superior que explique os fenómenos terrenos. Darwin foi bem mais radical e revolucionário, introduzindo a aleatoriedade na base da explicação científica.
Nas últimas décadas têm surgido cada vez mais trabalhos na área das Ciências Sociais, nomeadamente da Sociologia e Economia, procurando testar hipóteses darwinistas na explicação de comportamentos sociais. Prevejo que esta tendência se vai reforçar e alargar nos próximos tempos.
150 anos depois, no Olimpo dos cientistas donde nos observa, Charles Darwin está a ver, um pouco por todo o mundo, o seu génio reconhecido. Penso que a SEDES estaria bem se não deixasse esta efeméride passar em claro.

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