Jul 19 2010

Voltar ao essencial

Publicado por Pedro Pita Barros a 9:26 em Artigos Gerais

O sector da Saúde tem voltado a receber atenção mediática, centrada em grande medida nos aspectos de financeiros. Surgem notícias de dívidas dos hospitais, medidas destinadas a conter um acelerar do crescimento da despesa em medicamentos, seja as medidas internas para ajudar ao esforço de contenção orçamental.

A justificação favorita dos últimos tempos para qualquer proposta, venha de onde vier, é sempre a contribuição para a sustentabilidade do sistema de saúde (ou do Serviço Nacional de Saúde, consoante as versões), suponho que sustentabilidade financeira na maior parte das afirmações.

Embora os aspectos de capacidade económica para suportar os cuidados de saúde sejam de facto importantes, e a procura de maior eficiência deva ser permanente, por vezes há vantagem em recuar um passo e procurar um outro olhar.

Por muito relevantes que os aspectos económicos e financeiros sejam, não são mais do que instrumentos. O objectivo do Serviço Nacional de Saúde, e do sistema de saúde em geral, não é financiar-se, é garantir a saúde da população, quer evitando a doença, preferencialmente, quer assegurando o acesso a cuidados de saúde quando eles são necessários.

Pensar em termos do objectivo a alcançar é algo que é urgente não esquecer, pois tem implicações para a discussão dos dias actuais. A principal característica da presente situação económica do país, e em particular do sector público, é a falta de recursos. Em geral, nunca é possível atingir todos os objectivos desejados ao mesmo tempo, os recursos existentes serão sempre poucos para tudo o que se quisesse fazer.

Só que em contextos de uma ainda maior escassez de recursos, torna-se mais visível a necessidade de fazer escolhas, de estabelecer prioridades, em termos dos objectivos pretendidos. Não pensar nessas escolhas significa que as restrições, traduzidas em menor acesso a cuidados de saúde, serão definidas de forma aleatória na população. O natural será começarem a surgir dentro de pouco tempo notícias de aumentos de listas de espera, para consultas ou até para cirurgias, aqui e ali, sem padrão definido.

Porém, uma definição clara de prioridades permite focalizar e guiar a acção. E as escolhas a fazer deverão ser claras, e criarão insatisfação nalguns grupos, mas nem por isso deixam de ser necessárias. Um exemplo simples, notícias recentes apontam para dificuldades no funcionamento de equipamentos no IPO de Lisboa, sentidas pelo menos no último ano. Nesse mesmo espaço de tempo, o Governo decidiu criar mais isenções de comparticipações de medicamentos, gerando aí despesa adicional (e da qual desconheço uma quantificação séria dos efeitos).

Havendo disponibilidade para suportar maior despesa (seja 20 ou 50 milhões de euros), a decisão foi entre melhor acesso a cuidados no IPO e melhor acesso a medicamentos. Ganhou, implícita ou explicitamente, esta segunda opção. Temos a certeza de que reflectiu os objectivos de melhoria de saúde da população?

Qualquer que seja a resposta, este exemplo mostra apenas que vão existir opções, duras, a serem tomadas nos próximos tempos. Para guiar a escolha entre essas opções, é necessário voltar ao essencial. Pensar em termos do melhor que se pode fazer em termos de saúde da população, com os recursos disponíveis. Processos de decisão ao sabor de outros ventos, terão custos, não apenas financeiros, que mais cedo ou mais tarde serão sentidos pela população.

(publicado pelo diario economico a 17.07.2010)

4 Comentários para “Voltar ao essencial”

  1. ricardo saramagoa 19 Jul 2010 as 16:23

    Não fazer nada, deixar correr a coisa, ir escondendo a dívida, e proclamar o amor ao “Estado social” parece ser muito de esquerda, e ainda vai dando votos.
    Reconhecer o problema, fazer opções, gerir custos e proveitos, é ultra liberalismo, economicismo e mesquinhez de direita ,e ainda não dá votos.
    Perante este dilema a nossa classe política espera um milagre e, se ele não se verificar, pode sempre dizer que a culpa é das políticas neoliberais e de direita, o que não querendo dizer nada parece acalmar os média e a opinião publicada.
    Quanto à populaça… eles que se limitem ao seu papel de votar e pagar calma e disciplinadamente como até aqui.
    Pelo sim pelo não e “não vá o diabo tecê-las”, aumentem-se os ordenados e compre–se mais equipamento para as polícias.

  2. fvroxoa 19 Jul 2010 as 17:01

    Caro Pedro
    Sobre o sector da saúde, a sua análise e gestão pragmática das diferentes industrias e negócios que lá coexistem, só se pode invocar aquela velha máxima pela positiva:”NÃO pode ser de morte”.Tem que ressuscitar em permanência.
    Os grandes números pouco jogam.Porquê?
    Os pequenos números são demasiados pequenos para preocuparem o dia a dia.Justificam-se pela rotina mas pouco se põem em causa.Porquê?
    O SNS é um Bem Público.Tem de ser sistematicamente avaliado.
    É um BEM para as classes baixa, média baixa e alguma da média.
    Excelente para as classes média alta e alta em casos de Alta Emergência e sempre como complemento quase grátis de outros sistemas pessoais ou colectivos.
    Mas tens razão no teu post: o problema não é fundamentalmente de natureza económica e financeira.É mais complexo.
    É de simples razoabilidade, transparência e de “back to basics (o teu voltar ao essencial que eu não podia repetir.O comentário não teria o mesmo impacto.

    Nota pessoal:Vivi nos últimos tempos a prova de que o SNS mesmo sem instalações modernas,equipamentos aos kilos, etc funciona.
    Uma equipa multidisciplinar de neurocirurgia e de Cuidados intensivos do Hospital do Capuchos dedicada, cuidou da minha mãe de uma forma fantástica durante 3 meses.Recuperou-a para uma vida qb, mas consciente (82 anos).
    E, todas aquelas pessoas da equipa, trabalhando com poucas condições e maioritariamente para pacientes de poucos recursos, deram-me uma lição de Health Care Management melhor do que muito do que tenho lido ultimamante.
    O que funciona mal e visivelmente naquele hospital é o caos do transito e a falta de regras simples de organização “patient oriented”.Como referi no meu pos Sns3oHouse6.
    E talvez muitas outras coisas que são do domínio da gestão dos detalhes.Em que claramente às vezes parece que estamos pior.
    FVR

  3. anunesa 20 Jul 2010 as 14:29

    Caro Fvroxo

    Infelizmente não posso corroborar a conclusão da sua nota pessoal.
    Há um ano o meu pai de 75 anos teve de recorrer aos serviços do Hospital de Stª Maria e depois de andar para lá ao abandono, definhando de dia para dia,o SNS só funcionou quando exigi a sua transferencia imediata para um hospital particular. Nesse dia, os médicos que nunca apareciam ou estavam sempre indisponíveis deram á costa num ápice.
    È que por acaso, sou amigo de infância do Director do referido hospital privado e eles … por sinal trabalhavam lá em acumulação. O respeitinho pelo patrão no sector privado ainda é muito bonito.
    Fiquei a pensar para mim o que será das centenas ou milhares de desgraçados que não conhecem ninguém e se encontram nas mãos do SNS.
    Parece-me absolutamente imoral que numa área tão séria como a saúde se permita acumulações de trabalho médico em part-time.
    Corroboro por outro lado a sua avaliação sobre a muito má organização e gestão dos meios (eventualmente escassos) disponiveis.

  4. fvroxoa 20 Jul 2010 as 19:38

    Caro ANunes
    A sua experiência e perspectiva é muito válida e pragmática.
    Eu achei que tive sorte em encontrar gente boa e, mesmo com dificuldades, lá iam sendo simpáticas e profissionalmente disponíveis.
    Estavam a trabalhar num ambiente de SO e, como tal, mais cuidado que uma enfermaria normal.
    A Hotelaria é quase sempre fraca.
    Mas os médicos e enfermeiros são, muitas vezes,os mesmos dos grandes hospitais privados e clinicas especializadas…
    O tema da Organização é terrível, neste nosso SNS.
    Não há liderança clara e em todos os lados reina muito Nacional Porreirismo.
    Santa Maria deu um grande salto com a anterior Administração.Mas está longe de ser um modelo como deveria ser.
    O desafio para o próximo futuro e estando nós, em média, atrasados face ao top internacional em muitas áreas, é fazer mais com menos e ter dos profissionais da saúde mais moderação nalgumas questões, mesmo tendo muitas vezes razão.
    Cumprimentos saudáveis
    FVRoxo