Mai 29 2010

Pobre Marketing. A quanto te obrigam…

Tem sido moda. Por tudo e por nada o “Pobre Marketing” é chamado à baila nas Organizações e na Politica. Para dar qualquer coisinha para este ou aquele peditório. Sobretudo se não houver dinheiro.

Por “dá cá aquela palha”: Marketing para a frente e para trás e toca a andar.

Quando as coisas correm bem alguns “espertos” dizem logo “foi  o marketing”. Quando correm mal desculpam-se logo “foi do marketing mal feito ou da falta dele”.

A invocação do termo Marketing, mesmo a despropósito, é cada vez mais comum no debate político mesmo agora que atravessamos uma crise e na maior parte das vezes o que se assiste é a demagogia ou elitismo balofo.

O tema/vocábulo que para muitos autores já se objectiva hoje numa quase disciplina (ciência?), é muitas vezes definido como uma “espécie de pecado original da micro economia” e uma história de vida, do tipo  “à procura do maneta na  velha série O Fugitivo”. Havia uns episódios melhores que outros, mas do maneta nem sombra

Estas apreciações são, em muitos casos injustas e até reveladoras de grande desconhecimento técnico sobre o assunto, para além do que vem em qualquer revista de “êxitos nos negócios” ou livro de aeroporto last minute.

E, então em Portugal desde há vários anos,  sobretudo no “marketing político”, tem sido um festival  o que se tem visto, com  pouco ou nada de  “marketing sério” para mais tarde recordar.

Propaganda sim. E mesmo assim por vezes mal feita.Só pequenos spots publicitários ou eventos festivaleiros se aproveitam.

Excessiva comunicação a produtos, serviços e pessoas cuja “embalagem” disfarçou temporariamente  o mau conteúdo e iludiu com preços promocionais o consumidor, foi a que chamaram “marketing”.

Pobre Marketing. A quanto te obrigam…

Para que seja fácil analisar este assunto,  faço sempre uma grande distinção entre o que é o  “Marketing da treta” e o que são  as normais actividades no mercado ( de  bens tangíveis, intangíveis, ideias, pessoas, locais, eventos, etc) numa perspectiva de  “Marketing sério”. Que é “outra coisa”. E muito importante em tempo de prosperidade e também em tempo de crise.

E para aqueles que “o” consideram a dimensão “manipuladora” da micro economia, ( mas lá vão utilizando as suas técnicas para “vender, pelo menos,  a sua  imagem pessoal), e que ” cascam no desgraçado Marketing” como se fosse Bombo em Festa,  nada como um bom estudo da realidade  que os cerca, para reconsiderarem e   não chamarem “marketing” a tudo quanto faz agitar cachecóis e bandeirinhas, inaugurações pela 2ª ou 3ª vez da mesma estrada ou centro de saúde, ou os faz  “ir atrás de uma marca ou pessoa sem saberem explicar porquê”.

Ou vender produtos, serviços e ideias  “mentindo”. Ou andando sempre a tentar ver se há jornalistas por perto.

Permita-me o Grande Pessoa que o refira,  ele que em 1935  escreveu o texto “A essência do comércio”, primeira parte de sua Teoria e Prática do Comércio, e que é um bom referencial sobre o conceito de marketing e o papel da análise de mercado nas empresas market oriented. E que utilize, aqui e agora, do no seu Mar Português, o que já muitos de nós  recitámos O mar salgado, quanto do teu sal/São lagrimas de Portugal/Por te cruzarmos, quantas maes choraram,/Quantos filhos em vão rezaram!/Quantas noivas ficaram por casar/Para que fosses nosso, o mar! para o adptar e poder clarificar porque é que considero o Marketing , no oceano de ilusões e realizações  da nossa Vida de ontem, hoje e de amanhã, um bode expiatório para muita falta de resultados ou resultados  extraordinários  efémeros  de Organizações, Pessoas, Ideias, Projectos, cá pelo Solo Pátrio. Mas não só.

Partindo então da seguinte abusiva adaptação : O marketing salgado, quanto do teu sal/São lágrimas de economia com mal/Por te utilizarmos, quantos consumidores choraram,/Quantos empresários em vão rezaram!/Quantos cidadão se enganaram a votar/Para que fosses “acusado”, o marKeting! que tem de ficar claro sobre o pobre marketing?

1-Em primeiro lugar que tal como o mar  salgado é  constituído por 96,5% de água e 3,5% de outros 75 elementos dos quais 6 (cloro, sódio, enxofre, magnésio, cálcio e potássio) são responsáveis por 99% da salinidade, também o marketing tem o contributo em percentagens muito variáveis de Economia, Psicologia, Sociologia, Estatística e é multidisciplinar por natureza e  situacional por aplicação. E às vezes até sabe demasiado a sal.

2-Em segundo lugar, sobre o que se passou nas trocas comerciais locais, regionais, internacionais, globais após os anos 60, a recente história económica encarrega-se de evidenciar que o marketing, a par da produção, finanças, pessoas e outros recursos, era um coerente conjunto de métodos e técnicas em evolução e  que, como aconteceu agora no mercado financeiro, pode falhar, mas não pode ser permanentemente excomungado. E, com o advento da chamada “Economia com forte componente digital” em 1985, num colóquio realizado pela Universidade de Harvard - “marketing in an Electronic Age” , de que se destacaram os contributos de John R. Hauser - “The Comming Revolution in marketing Theory” e de Theodore Levitt - “Paradoxical Futures Versus a New Beginning” , confirmou-se uma necessidade de repensar o marketing como disciplina, tanto a nível das práticas socio-organizativas, como de ensino e sob três ângulos fundamentais para que deixasse de ser visto como a “parte limpa e bonita das vendas”: marketing estratégico e gestão estratégica; marketing operacional e gestão da eficiência, eficácia e qualidade organizativa em função das necesidades, preferências e exigências dos seus clientes e trabalhadores; marketing na Sociedade da Informação e do Conhecimento.

3-Quando se pretendem “vender e provocar a adesão a medidas” como as que actualmente têm de ser tomadas e estão a ser implementadas por toda a Europa e América. não vale a pena fazer publicidade se “o produto confiança não existir”. Não vale a pena desculpar-nos com o contexto, porque ele já lá estava e vai estar. Não vale a pena falarmos de ” marketing” se não há um grande rigor e seriedade  de mensagem, adequada aos segmentos que se pretendem atingir e ao posicionamento overtime claro,  do que  se quer atingir.

E, sobretudo, não tentar enganar “o mercado” com manipulações que facilmente são desmontadas, mesmo que justificadas pelas “lições de Sun Tzu ou Nicolau Maquiavel” e que, muitas vezes mais não são do que adaptações de banda desenhada de autores que se assinam por “Sun Maquiavel ou Tzu Nicolau”.

4-Não utilizamos todos hoje  os estudos de mercado nas empresas e na política, a publicidade e relações públicas no apoio a causas, os modernos sistemas de contacto electrónico na construção de redes de clientes, etc? Então porque dizer mal do marketing que, se o que está em causa como em qualquer outra matéria, é sempre a  má utilização, a não adequação da promessa e oferta às preferências e exigências dos “clientes” e a incapacidade de apresentar mais utilidade e valor que os “concorrentes?E que isso é marketing.

Pobre marketing, a quanto te obrigam e quanto te ofendem, quando pelas próprias mãos, coração e cabeça, são incapazes de fazer o que tem de ser feito. Fazer bem e melhor que os outros.Gerir os pormenores das relações comerciais e negociar com ética.Inovar sem ser só em conferencias e escritos.Inovar com êxito no mercado.

Fazer com que as teorias do consumidor e do produtor sejam muito práticas na relação entre consumismo e poupança. Para que ninguém viva enganado ou possa enganar alguém.

FVRoxo

6 Comentários para “Pobre Marketing. A quanto te obrigam…”

  1. Mariela 30 Mai 2010 as 15:26

    Nem por acaso, andamos com as mesmas leituras e estilos em DIA!!!
    Para mim se eu fizer armas, também sou responsável pelo seu eventual mal uso em MASSA. E as relações públicas, o marketing são actividades cujos usos podem ser nobres de se chamarem isso, ou como de resto, apenas servirem para “contar espingardas” e fazerem o resultado a favor de uma qualquer pretensa produtividade.

    http://tempodosassassinos.blogspot.com/2006_09_01_archive.html

  2. Rafael Zeferinoa 31 Mai 2010 as 21:05

    Uma preocupação me fica sempre depois de ler os seus escritos.Está a ser irónico ou está a ser “a sério”?Aqui atacou muito o marketing político.Mas a brincar pareceu-me.E defendeu muito um marketing sério.muito a sério.
    O marketing como eu o vejo é aquilo que me faz comprar ou usar ou votar.Mas eu não abdico das minhas ideias e só compro o que quero.Uns anuncios engraçados gosto de ver.E grandes acontecimentos como o futebol também são marketing até nos futebolistas quando ganham.Mas não podemos estar sempre a dizer que a culpa é do marketing concordo.Os vendedores também são do marketing.
    Pode dar uma definição do que é o marketing para si?
    RZ

  3. fvroxoa 01 Jun 2010 as 8:22

    Caro Mariel
    Concordo discordando parcialmente:a história está cheia de bons e maus exemplos desde a economia à medicina, da filosofia à engenharia.E nós temos que viver com tudo e com a evolução.A medicina tradicional é compatível com a medicina cientifica.A aldrabice é que não pode ser aceitável como é o caso da venda de produtos milagrosos.
    Donde, o que está em causa, do meui ponto de vista, é simples: à esquerda ou há direita, ao alto ou em baixo, há uma dimensão que é a seriedade (prima da maturidade) que se arredou por força das forças produtivas em acção nos ultimos 50 anos de prosperidade.O marketing, com ética, é uma filosofia de gestão normal das empresas e que outros domínios utilizaram para bons fins (como acontece no 3º sector).E um conjunto de métodos e técnicas multidisciplinares que são por vezes menos “chocantes” e mais belas que “as financeiras”.Como agora se viu.
    Em ultima instância, armas de destruição podem sempre rebentar-nos nas mãos se não as manipularmos com cuidado.
    Obrigado pelo seu comentário.

    Caro Rafael Zeferino:
    Gosto de ser sério brincando.E brincar com coisas sérias para as ver sob ângulos positivos.E gosto de olhar o arco iris depois de uma boa trovoada.
    E ser consistente com esta visão e prática da vida.
    E agora quanto ao Marketing: conceito e aplicação.
    Marketing (o conceito) é a simples diferença entre impingir e aderir com satisfação, a comprar, consumir, continuar a consumir e recomendar seja o que for: de produtos a serviços, de ideias a pessoas, de causas a projectos de vida.
    Marketing(aplicação) é a simples diferença entre usar técnicas com base em princípios éticos para ser visto convictamente como melhor que os concorrentes.
    Uma coisa é ter necessidade.Outra preferir perante alternativas.Mas o que é importante é exigir que as promessas sejam cumpridas.E na Politica como nos produtos ou serviços há muito antimarketing natural.
    Uma coisa é sentir que algo me é útil.Outra é dar-lhe valor e sentir satisfação no seu consumo ou utilização.
    No final o que está em causa é se ficamos satisfeitos porque cumpriram as nossas exigências.E, por fim, nos “fidelizamos” à marca, ideia,pessoa ou causa.
    E mais não digo.Para não cansar.E não atraiçoar o Bom do Marketing.
    Se tiver necessidade de me contactar, para esclarecimentos adicionais o meu email é
    fvroxo@gmail.com
    Obrigado pelo seu comentário.
    FVRoxo

  4. filipe rocha da silvaa 06 Jun 2010 as 8:14

    Caro FV

    Se bem percebo o seu ponto de vista, e creio que concordo, o problema afinal reside no merkado.

  5. fvroxoa 07 Jun 2010 as 20:43

    Caro FRSilva
    O problema nunca reside no mercado. Mas no merKado.
    Na simples análise do comportamento do consumidor e do produtor há sempre explicação para os fenómenos de troca, transacção e relação.Mas é por vezes dificil de entender a lógica comparativa dos conceitos de utilidade, valor e satisfação.E aqui começa a dificuldade do marketing.
    O problema está na forma como, no merKado se passa da relação comercial à relação de Manipulação sem rigor e principios éticos.
    Ainda que no Mundo dos Negócios não haja amizades (só há factos…) não se pode confundir é Marketing com sorrisos e publicidade (actualmente quase free) e entre ruidos de vuvuzelas.
    Obrigado pelo seu comentário em que. se bem percebi a sua subtil diferença entre mercado e merkado, é fantástica.
    FVroxo

  6. JBSa 16 Jul 2010 as 0:50

    Caro FVR,

    Num mundo, como o que vivemos, caracterizado pela forte e constante mudança (curiosidade: a quantidade de informação duplica a cada 72 horas (em 2007 era a cada dois anos)), também algumas premissas habituais do marketing tem de mudar. Para não me alongar, basta referir que, apesar da explosão das redes sociais, das ferramentas (gratuitas) que a web 2.0 veio trazer, apesar do fenómeno social media, a maioria das empresas e dos seus marketeers ainda não perceberam uma coisa extremamente simples:

    Se conseguirmos fazer com que os nossos clientes nos ajudem a ajudá-los (e uma parte grande da operação passa por tornar o processo habitual de comunicação unilateral em conversação) então teremos marketing. Talvez uma empresa, ou uma uma marca, mas forte e reconhecida.

    Cumprimentos.

    JBS