Mai 25 2010

A SOCIEDADE do (des)CONHECIMENTO e da (des)CONFIANÇA

Uma boa maioria de “pensadores europeus” está hoje muito assustada, mesmo aterrorizada, com o que se está a passar e pode vir a passar na Europa e, no caso dos “nossos pensadores” logo (ou antes) com o que se  está  e estará a passar em Portugal. No seu cantinho os seres normais estão simplesmente sem saber o que vai acontecer.Rezam nalguns casos.

Para aqueles, no horizonte não há mais lugar para ” arcoiris depois  de uma grande  trovoada” e só já   imaginam ” erupções continuas de vulcões largando nuvens negras” que vão a obrigar cada um de nós  a ficar no seu cantinho e a olhar o céu.

Para os segundos o sol ainda nasce todos os dias e a lua tem dias em que se vê brilhante e mentirosa  porque mudando de letra: ora C ora D ora O. E vão sobrevivendo.

Curiosamente em Portugal neste tipo quadro analítico, o ” pequeno couto privado da visão apocalíptica de Ernani Lopes” ou a “zona sísmica”  de Medina Carreira, tornaram-se uma grande “ coutada tsunamica de videntes sobre a total desgraça da Europa e o quase desaparecimento de Portugal no “capim do seu período pós descolonização e  no prado do seu período  pós euro”. A única mensagem  no horizonte, parece ser The End.

O filme  do futuro parecia ter um enredo quase só “financeiro” mas as novas questões  socioeconómica,mudaram o guião: uma multidão de pobres e remediados  de mão estendida e a ” definhar pelos cantos”. Conflitos sociais em crescendo e “decadência” lenta. Neste filme o que o realismo não deverá é confundir-se com  “extremo pessimismo”. E os pensadores guionistas devem inspirar mais confiança no guião.Até porque são “realizadores com Oscares ganhos. Ou então o filme não passar disso mesmo, um filme.Agora em 3D e ecran global.

Um filme diferente e em língua portuguesa, parecem ter os Brasileiros em rodagem. Já estão numa nova produção do seu “milagre económico” e sendo optimistas por natureza, só já pensam na vitória no Campeonato do Mundo, no próximo carnaval e no Rio de Janeiro Olímpico.E reduziram a pobreza.

O que neste momento está acontecer por outros lados é diferente. E face ao passado assenta num simples facto: agora   tudo se sabe. Mas muito se desinforma: ou se especula tecnocraticamente, ou se debatem na praça pública e superficialmente soluções que ninguém quer implementar para não quebrar equilíbrios oportunistas.

Mesmo vivendo nós na Sociedade da Informação o que parece estar a nascer é uma Sociedade da (des)Informação e do (des)Conhecimento. Liderada por 2 tipos de “chefes”: os especuladores e os analistas. Ao contrário do que se previra, parece que, com quilos de informação disponíveis, tudo se desconhece ou não se encontra, mesmo estando registado. E muito menos se prevê. Especula-se e analisa-se.

A tecnologia já não chega inclusive para dar esperança e  transbordam por todos os lados as soluções para gerir os pormenores que deviam fazer as pessoas ter uma melhor qualidade de vida, serem mais conhecedores dos desafios do futuro e, sobretudo serem mais convictos dos  valores e princípios. Para assim melhor  resistirmos à vaga de hipermodernidade em que se caiu no Ocidente e que se caracteriza por uma cultura de excesso. Do sempre mais. Do culto efémero como referiu Gilles Lipovetsky.

O mercado, o indivíduo e os avanços técnico-científicos  intensificaram-se a partir dos anos 50 e desde os anos 80, com a escalada da globalização, passaram a interferir directamente nos comportamentos sociais. Não era bem evidente que isso iria acontecer?

O que temos hoje é a fragilidade do indivíduo, perante a avalanche da tecnologia e da Informação. E a fragilidade da Economia perante a avalanche do Conhecimento. Que afinal se está a revelar afinal do (des)Conhecimento para uma maioria desiludida e do Conhecimento requintado para uma minoria pensante.

Parecem faltar os Saberes e a Sabedoria em ambos os segmentos.

Deixo, finalmente a minha visão de uma solução estratégica (logo não rentável…), para além do que já é visivel mas desconhecido nos mercados.

Acredito vivamente numa nova geração (temporariamente pessimista) que cresce hoje  com muitos e grandes desafios, apesar das facilidades que lhe proporcionámos na Europa do pós primeira crise do petróleo e, no caso português, do pós  anos 80 com o  inicio das ilusões  da “Europa connosco”. E do Euro com eles.

Temos hoje  mais licenciados, mestres, doutores, como já tivemos muitos “furriéis e aspirantes” no tempo da guerra colonial e “técnicos profissionais” no tempo pré Veiga Simão na era Marcelista. Não temos hoje  é tanto espírito de sacrifício e humildade,  como seria normal acontecer. O número de “espertos” por metro quadrado em Portugal (e na restante Europa dos “animais de malhada, vulgo PIIGS”), cresceu  e  o número de gente com “boa qualidade de vida” na Europa explodiu. Há que depurar a sociedade,com mecanismos de seriedade mais do que de tecnocracia. Enquanto  a América do Norte continua a ser “militarmente poderosa” e a China, “economicamente” atinge o que estava à vista desarmada se sabia que  iria atingir, a Europa deverá fazer mais exercício e emagrecer a aposta ilusória no Conhecimento e na Confiança Tecnocrática Bruxelas centered. Não resultou. Há que negociar novas mudanças. E não embarcar num Projecto Europa Pá.

Resta-nos, na Europa e a nós por cá a aposta na humildade, serenidade, trabalho inteligente e no Optimismo de língua portuguesa. E inspirar confiança para além do que dizemos ou escrevemos. E substituir uma geração acomodada por novos com coragem e sem “telhados de vidro”.

O Povo não é Parvo.Mesmo quando desconhece muita coisa e desconfia de muitas outras.

FVRoxo

7 Comentários para “A SOCIEDADE do (des)CONHECIMENTO e da (des)CONFIANÇA”

  1. Rafael Zeferinoa 26 Mai 2010 as 12:03

    Caro francisco velez roxo
    Considera que as pessoas deste país são capazes de mudar?Considera que alguém vai deixar de ter privilégios que por vezes até são desconhecidos mas que são bons?Como vê a hipótese da europa mudar?não estaremos mais uma vez a ser só contabilistas e a não fazer política a sério com pessoas sérias em portugal?
    Este blog deixa-me muita ansiedade quando o leio, mas esta sua cronica positiva parece por os temas certos.assim haja vontade.obrigado.
    RZ

  2. Fvroxoa 26 Mai 2010 as 17:31

    Caro Rafael Zeferino
    Vou directo ao assunto:as suas questões.
    1-Considero que as pessoas deste País vão ter de mudar as suas habituais atitudes.
    2-Sobre os privilégios penso que não há inventário nacional fiável, mas há pessoas que só os largam forçados…Falta muita transparência no caso Portugues, sobre este tema.
    3-A Europa, ou melhor, as Europas vão mudar.Mesmo para os Ricos.Menos consumo e mais desporto e leitura de bons livros electrónicos em bons e-readers. E mais solidariedade entre quem trabalha e mais condenação para os preguiçosos.
    4-Quanto ao tema da gestão contabilistica considero que é muito importante tanto nas empresas como no Estado.Já quanto à politica séria com pesoas sérias também se devia fazer uma boa contabilidade no “razão geral” (instrumento de registo contabilistico).Para saber se Deve e Haver e há ou não há.
    5-Este Blog é sério mas como tem muitos macro economistas, às vezes é “pessimista”.Mas posso garantir-lhe que não é um blog de “simples conversas de café”.
    Obrigado pelo seu comentário.
    FVRoxo

  3. crisa 26 Mai 2010 as 18:55

    Caro FVRoxo, tenho algumas discordâncias em relação ao seu artigo. Da sua leitura extrai-se alguma desconfiança em relação à sociadade da informação e do conhecimento, talvez ela não tenha cumprido aquilo que alguns lhe previam, mas a informação e o conhecimento são os pilares em que assentará uma sociedade que se quer moderna e cosmopolita, no sentido mais nobre dos termos. Ora o que acontece é que a informação e o conhecimento não chegam a todos, e há também aqueles que tendo acesso preveligiado à informação, a utilizam em benefício próprio e em prejuízo do bem comum (ver O Poder dos Numeros, de Filipe Rocha da Silva). Voçê refere que em Portugal já temos muitos licenciados; verdade, mas não em número suficiente, nem para as áreas e necessidades do país e das empresas. Verdade também que o excesso de informação pode ser problemátco, podendo até gerar hesitação e indecisão perante a avalanche de opções e de cenários, e aí a tecnologia poderá ser importante ao ajudar-nos a filtrar e a distinguir o essencial do acessório. A este propósito, uma investigação feita recentemente comprovou que, com demasiada informação, é possível estabelecer correlações que não existem ou não têm expressão concreta na realidade, mais, disse ainda que em sistemas suficientemente complexos não é possível estabelecer com rigôr previsões a mais de um mês(!) - ora aqui está uma óptima desculpa para o m. das finanças. A ciência da informação, na sua vertente do estudo da complexidade, também aqui pode ajudar ao definir o que é computável e com que custos, mas mesmo para os problemas que não tenham solução - ou, em linguagem informática, que pertençem à classe não polinomial -, novos paradigmas podem surgir (p. ex. computação quântica e nanotecnologia) que alargem o horizonte do possível e novas fronteiras de inovação e desenvolvimento se definam. A informação, e o conhecimento dela resultante, são pois essenciais e estravazam toda a natureza, desde os organismos biológicos (genética + evolução) até às leis físicas universais, resta-nos assim tirar o melhor proveito das suas virtudes e oportunidades, e aí projectos como a Wikipédia ou a web semântica (Web 2.0), podem fazer mais do que todos os magalhães a processar em paralelo.

  4. Fvroxoa 26 Mai 2010 as 22:14

    Caro CRIS
    Agradeço o seu claro e objectivo comentário.
    Sou e serei sempre um grande e ferveroso adepto da Sociedade da Informação.
    Desde a primeira hora em Portugal (do tempo do livro verde da Sociedade da informação) entusiasta e seguidor atento das “novidades” que permitem a melhoria da vida dos povos e das Sociedades no seu todo.
    Estou mesmo plenamente convicto que este será o século da tecnologia pela qualidade de vida em especial em tudo quanto tem de ver com a qualidade e equilibrio do que se passa à superficie do nosso Planeta, na Atmosfera e para além dela.
    Biotecnologia e nanotecnologia, cloud computing, intelligent health systems, sao exemplos de grandes avanços em marcha e expectáveis de grandes realizações em próximo futuro.
    Só que estamos muito longe da constituição de verdadeiras redes de Knowledge Management usefull para um grande número de pessoas.E estamos é cada vez mais dependentes de “especialistas altamente especializados”.
    A actual crise financeira evidenciou bem que poucos controlavam muito.Para no final ninguem controlar a Ganância de uns quantos.
    ClicK a click se foi construindo e desfez uma Sociedade que, no Ocidente, se aproximou de uma período de “revolução” depois de anos de grande evolução.E daqui nasceu a actual desconfiança.
    E a paralisação dos modelos de negócio que ainda estã activos.
    Partilho do seu ponto de vista e as suas achegas e, no blog http://portugal-si.blogspot.com/ tenho procurado ter sobre os temas SICSS (Sociedade da Informação, do Conhecimento, dos Saberes e Sabedoria) uma intervenção positiva mas crítica realtivamente à forma como, em Portugal mas não só, não estamos a melhorar a nossa competitividade, depois de muitos milhões de investimentos em infraestruturas e pessoas, que não são postas, como deviam e com entusiasmo, ao serviço do progresso consistente.
    FVRoxo

  5. crisa 26 Mai 2010 as 23:02

    Caro FVRoxo, agradeço a sua resposta e permita-me que destaque algumas observações nela contidas que me parecem determinantes.

    “A actual crise financeira evidenciou bem que poucos controlavam muito.” Precisamente. Pensemos na caso das ag. de rating; estas têm acesso a informação, que depois de analisada e filtrada, resulta nos ditos rating de activos financeiros. Mas com que critérios, e baseada em que dados, e quais os sistemas onde é processada, têm bugs? Não se sabe ao certo, é uma caixa-negra de onde sai um génio de lamparina que nos diz como podemos ficar mais ricos ou mais pobres (ou o risco associado, para o efeito), as ag. de rating são uma espécie de oráculo moderno da fortuna alheia com a sua casta de sacerdotizas financeiras. Penso que os reguladores deveriam defenir critérios claros e standardizados e, tal como nas sondagens, as ag. rating deveriam refeir as fontes e pressupostos de análise, para que a desconfiança não se torne no elo fraco de mercado explorado por especuladores e por todos quantos buscam fraquezas no sistema.

    “ClicK a click se foi construindo e desfez uma Sociedade”. Sabe-se hoje que um dos factores que poderão ter desencadeado a crise foi a introdução nos mercados financeiros das cotações em tempo real e de sistemas tão complexos gerados pelos ‘quants’ - assim denominados os especialistas que converteram (ou pelo menos tentaram) em modelos matemáticos o comportamento dos mercados - que geraram um emaranhado multi-dependente de activos que não permitiram blindar a crise do sub-prime ao sector imobiliário em gau superlativo da tradicional diversificação do risco.

    Conclusão: a informação é o verdadeiro meta-activo da sociedade contemporânea, da qual dependem todos os outros, até o dinheiro actualmente mais não é do que informação que circula pelos circuitos fechados de redes inter-bancárias e de offshores; como diz o Prof. Carvalho Rodrigues: ‘é preciso convocar a alma’. Ou se acredita ou não se acredta…

  6. ricardo saramagoa 27 Mai 2010 as 10:51

    É preciso não confundir informação, no sentido de quantidade de dados, e conhecimento.
    A informaçaõ só tem utilidade se for trabalhada pelo conhecimento, caso contrário alimenta muitos dos erros e discussões estéreis a que assistimos no nosso tempo.
    Vou dar um exemplo:
    Quando eu tenho o resultado das análises que o meu médico me manda fazer, eu disponho da informação, mas para tirar conclusões desta informação preciso do conhecimento do meu médico.
    Mesmo no sistema educativo, esta confusão entre informação e conhecimento é corrente (o caso dos magalhães é paradigmático)e a escola deveria concentrar-se no conhecimento, sem o qual a informação não tem qualquer utilidade.
    A facilidade de acesso à informação dos nossos tempos tem muito de ilusório e tenho sérias reservas sobre o seu efeito quando acompanhada de muita ignorância.

  7. crisa 31 Mai 2010 as 19:56

    Caro Ricardo Saramago, à distinção que voçê refere entre informação e conhecimento eu adiciono uma terceira, entre informação e dados. E é somente aí que a tecnologia interfere - pelo menos até ao advento da Inteligência Artificial - ao transformar dados em bruto em informação organizada e estruturada de acordo com o contexto relevante de análise. O conhecimento, que podemos defenir genéricamente pelo conjunto de correlações e padrões relevantes (isto é, com expressão concreta na realidade) da informação, só pode ser alcançado por quem entenda o domínio do problema, um ser sapiente e consciente, o que não é o caso de uma máquina, seja ela o magalhães ou o deep blue, que não percebia peva de xadrez, limitando-se a seguir mecanicamente as instruções da sua monstruosa base de dados. Quando voçê vai ao médico, este representa o conhecimento do domínio, o ‘print’ dos exames a informação, e os seus sinais vitais analógicos, antes de captados pela máquina, são os dados. É do intercâmbio e simbiose entre estes vários componentes que emerge a sociedade do conhecimento; podemos dizer que nos encontramos na fase 2.0 - dispômos das ferramentas que captam e filtram os dados e os transformam em informação, recorrendo a semânticas e ontologias próprias, a fase 3.0 será o advento da IA e de sistemas autônomos capazes de tomar decisões de forma independente e de extrair novos conceitos - conhecimento - da informação disponível. Será o admirável mundo novo.