Mai 23 2010

Portugal e as Crises

   De acordo com o discurso do Governo, os problemas que o País enfrenta, e que  recentemente passaram a ser reconhecidos como graves, devem-se exclusivamente a causas externas, com origem no modelo anglo-saxónico: crise financeira internacional, provocada pelo “sub-prime”, seguida da crise económica dela resultante e mais recentemente crise do euro, decorrente de movimentos especulativos provocados pelas agências de “rating”. Porém, um mínimo de bom-senso e até de inteligência deve levar a interrogar-mo-nos sobre a existência de condicionalismos internos que conduzam a um agravamento das repercussões desses factores exógenos no caso português, tal como um número crescente de vozes vem afirmando.

Com efeito, é hoje largamente reconhecido que Portugal enfrenta dois sérios problemas estruturais, cuja solução (ou não) irá condicionar a sua viabilidade e desenvolvimento futuros: competitividade e finanças públicas. Em resumo, ou passamos a ser inovadores, competitivos e exportamos, ou temos de passar a viver de acordo com a riqueza produzida. O modo de vida baseado nos défices e a crédito terminou, independentemente dos juízos de valor que façamos sobre o comportamento dos outros!

   Neste contexto, vale apena reflectir sobre os resultados constantes do “Global Competitiveness Report 2009-2010″, recentemente publicado pelo World Economic Forum. No que respeita ao Índice de Competitividade Global, num total de 133 países, Portugal surge em 43º lugar, ou seja no início do 2º quartil. Mais elucidativo, porém, é constatar que dos 110 indicadores em que se baseia o índice, Portugal é considerado como tendo uma “desvantagem competitiva” na maioria deles (59 casos) e que estes se concentram em pilares para o desenvolvimento (15 indicadores relacionados com o funcionamento das instituições e estabilidade macroeconómica) ou condicionadores da eficiência da economia (30 Indicadores respeitantes ao funcionamento dos mercados do trabalho, dos bens, financeiro e à sofisticação empresarial).

   Em contrapartida, vale a pena referir que é no pilar das infraestruturas que a nossa posição é melhor: apenas no que respeita à qualidade das estruturas portuárias e de transporte aéreo a situação é mais fraca (45ª e 49ª posição respectivamente) o que pode ser comparado com a eficiência do nosso mercado de trabalho (103ª posição) ou com o desempenho macroeconómico, a nível da dívida pública ou do nível de poupança nacional(no último quartil).

   Igualmente elucidativos são os resulados do inquérito aos “factores mais problemáticos à concretização dos negócios”. Nos dois primeiros lugares “ex aequo” surgem a “ineficiência da burocracia governamental” e as “regulações restritivas do trabalho”, seguidas do “acesso ao financiamento” , “força de trabalho inadequadamente treinada” e as regulações sobre impostos, taxas e instabilidade das  políticas.

   Deste modo e com base no Relatório resulta uma vez mais clara a natureza dos problemas estruturais que o País enfrenta e de cuja solução depende o ultrapassar da “nossa crise”. Estamos interessados em resolvê-los, ou pretendemos continuar a projectar nos outros as nossas incapacidades? É óbvio que o mundo muda todas as semanas. Mas nós, conseguiremos mudar para sobreviver no futuro?

2 Comentários para “Portugal e as Crises”

  1. fvroxoa 24 Mai 2010 as 15:25

    Caro José Girão
    Excelente e objectiva análise do “Global Competitiveness Report 2009-2010″.
    Quanto à sua segunda questão, a minha resposta é clara e clarifiquei-a nos últimos 50 anos de vida.Temos um problemas estrutural de fundo: uma elite com evidente características da doença bipolar.E um povo com uma saúde de ferro.Mas que está a enferrujar.
    Vamos ter de conseguir mudar para cumprir o “fim da história”.
    Mas não vamos ser mais nós a liderar essa mudança como idealizámos desde os longínquos anos 60 e 70, porque o mundo está a mudar segundo a segundo.E as nossas elites só mudam o discurso semana a semana.Não a acção no tempo.
    FVRoxo

  2. Nuno Vaz da Silvaa 25 Mai 2010 as 17:28

    Senhor Professor, parabens pela análise!
    Com tantas pessoas a reflectirem sobre os problemas da conjuntura, tenho notado duas grandes falhas na sociedade (inclusive nas elites):
    1. Muitos falam dos problemas e poucos das soluções;
    2. Muitos olham para o passado e o presente, mas poucos vêem para além da ponta do nariz (como dizia o meu saudoso avô);

    Ou seja, é fácil falar do que existe e apresentar culpados mas é dificil conseguir colocar o dedo nas feridas da sociedade, bem como definir uma estratégia de médio prazo.
    Como tenho um artigo para publicar sobre esta temática não me vou alongar. Ainda assim tive muito gosto em ler o seu artigo por ter uma abordagem mais vasta do que a exclusivamente financeira (que é usual encontrarmos disseminada por todo e qualquer lado) e a sua reflexão para os verdadeiros problemas estruturais do país que não se solucionarão com um “simples” aumento de impostos.