Mai 03 2010

O sexo dos anjos por 110 mil milhões de €

O apoio da União Europeia (UE) à Grécia é uma excelente péssima notícia.

- É excelente para o projecto europeu, por criar a expectativa de uma efectiva capacidade de criar e preservar a união monetária a despeito das suas insuficiências (zona monetária não óptima) num período sem paralelo de instabilidade, especulação global e risco de derrocada; espera-se agora a acalmia dos mercados financeiros, salvaguardando o euro e o mercado interno (mas esperemos pelo evoluir da situação nas várias frentes, dos custos da dívida às bolsas).

- É excelente para a Grécia, que escapa, no imediato, à bancarrota (cessão de pagamentos).

- É excelente para Portugal, porque as barbas que tinha de molho estão para já salvas (muito havendo para aparar se as quisermos competitivas no mercado mundial das barbas).

- Mas é péssima para a Grécia, pois as medidas a que está obrigada são assustadoras e as consequências sociais do remédio podem matar o doente (aumenta 2% o IVA, suprime-se 13/14º mês para função pública e pensões, congelam-se três anos os salários da função pública, aumenta a idade média da reforma, etc.).

- É péssima para Portugal, no caso do não arrepiarmos caminho, de imediato, sem tergiversar.

- E é péssima para a Europa, se a UE não mudar de vida e construir novos alicerces para a sua união monetária.

Em suma, trata-se, para Grécia, Portugal e Europa, do fim do princípio (do dinheiro fácil, do endividamento sem fim à vista, da estagnação sem consequências); e isso sucede, paradoxalmente, com um anúncio de disponibilidade de 110 mil milhões de € (para salvar a Grécia).

As condições de sucesso – e o caminho do recomeço –, em cada caso, são claras:

- A Grécia terá de tomar o remédio prescrito, até ao seu amargo e doloroso fim.

- A UE deve agora atravessar a ponte, em direcção a um lado de lá mais integrado e coeso, mais solidário e viável. Como tantas vezes referido, trata-se de aprofundar a dimensão política da União (não confundir com união política), de estabelecer regras mais claras, quiçá obrigatórias, de disciplina financeira para os seus membros, de criar mecanismos de regulação e supervisão prudencial eficazes, de reforçar a transparência dos mercados financeiros e do sector bancário na sua relação com as pessoas, de promover a instituição de novos instrumentos de cooperação supranacional, como seriam o Fundo Monetário Europeu ou a emergência de novas agências de notação.

- Portugal não pode tergiversar. Mas o que fazem os nossos representantes (governo, partidos, deputados), depois de uns dias de aparente coesão sobre o essencial? Pois, simplesmente, tergiversam, como bem demonstra a extraodinária discussão sobre as obras públicas. Faz lembrar a velha história do sexo dos anjos: os nossos políticos deviam lembrar-se que os teólogos cristãos, morto o Imperador e conquistada a velha Constantinopla, nunca chegaram a conhecer, de facto, o sexo dos anjos…

3 Comentários para “O sexo dos anjos por 110 mil milhões de €”

  1. Manuel Brása 03 Mai 2010 as 16:23

    Causa debet praecedere effectum…
    -
    Essas obras majestosas
    da nossa modernidade
    são criações portentosas
    da nossa insanidade.
    -
    Esta cegueira emblemática
    destes anos tão entristecidos
    concentra-se numa temática
    de elefantes embranquecidos.
    -
    Deste país deslumbrado
    com a entrada de milhões
    fica um fado quebrado
    pelo pesar dos mexilhões.
    -
    As semelhanças são evidentes
    nos nossos problemas seculares,
    repetem-se razões decadentes
    de políticas irregulares.
    -
    No meio dessa nulidade
    do acaso da governação
    brota a infeliz vaidade
    da nossa secular inacção.

  2. ricardo saramagoa 03 Mai 2010 as 21:33

    Sem querer contariar a opinião expressa, diria antes que:
    É uma optima notícia para a Grécia, se esta cumprir aquilo que acordou e dentro de alguns anos puder retomar algum crescimento económico sustentável.
    Tenho dúvidas se a reestruturação da dívida e o ajustamento estrutural voluntário não seriam mais eficientes e mais justos.
    É uma péssima notícia para Portugal, pois temo que encorajados pelo precedente, mais uma vez os nossos governantes continuem a ver na despesa pública a forma de garantir a sua permanência no poder, na espectativa de que quando as coisas “derem para o torto”, lá virá a assistência europeia.
    É uma péssima notícia para a Europa, porque ao invés de serem respeitados os tratados, não temos um sistema definido e o projecto da moeda única fica sob suspeita doravante.
    Penso que aumentou a probabilidade desta situação se repetir, e cada novo caso dará uma machadada mais funda no euro e na suposta solidariedade europeia.

  3. fvroxoa 04 Mai 2010 as 6:31

    Enquanto a Europa ainda está em fase de Prós e Contras, “nós e os outros” já estamos em fase de Pós e Contas…
    Já nem se discute a coerência e consistência, em nome da glória da Obra que há-de eternizar o Nome.Levantam-se Pós de Obra sem fazer Contas (numa lógica de Valores) à Obra.E faz-se mais um ou outro programa televisivo para ilustrar a pseudovontade e o amor ao “povo”
    O sexo dos anjos afinal continua a excitar algumas mentes…
    Daí ao PECado, vai um passo.
    Como se viu e verá.
    Ou vários passos na direcção da filosofia da acção pela acção.E pouco mais.
    Oxalá esteja enganado.
    Caro Paulo Sande, a história da Europa e a prospectiva do seu futuro integrado, não é entusiasmante nesta fase.A nossa tão pouco.
    Mas um futuro segmentado “com geometria variável” em função dos “paralelos e meridianos” financeiros, começa a ser novamente evidente, quem sabe se não mesmo”renovado” por essa grande “obra/estaleiro” que tem sido o Euro.
    O problema desta Obra/estaleiro é que está a dar um edifico que não se vende.Está a ficar devoluto.E alguns já o querem fazer implodir.
    Não se pode é perder a dimensão politica da União.Porque a Económica e Financeira pode esperar.
    Concordo totalmente, por isso com a sua perspectiva simples e de sabedoria …”os nossos políticos deviam lembrar-se que os teólogos cristãos, morto o Imperador e conquistada a velha Constantinopla, nunca chegaram a conhecer, de facto, o sexo dos anjos…”.
    FVRoxo