Abr 28 2010

Tempo de coruja ou tempo de falcão?

Portugal não pode esperar mais. Portugal esperou de mais. E no tempo de decidir, de agir, de resolver, não há mais tempo para tergiversar: é agora ou nunca. E tudo, ou quase tudo, está nas mãos de quem decide.

 

Sem hipocrisias, repito: tudo ou quase está nas mãos de quem decide, dos políticos, dos governantes, dos detentores do mando que lhes foi outorgado pelo povo; e pouco cabe aos cidadãos fazer, excepto talvez sofrer, apertar o cinto, aceitar participar no colectivo esforço em prol de todos, o que equivale a dizer em prol de si mesmos. Mas para isso, a classe política, as elites – os decisores, os partidos políticos, os deputados – têm de dar o exemplo e esquecer por um momento (para sempre seria o ideal) as quezílias de curto prazo, mesquinhas e trauliteiras. E esquecer o ganho pessoal, a preservação do poder a qualquer custo, as prebendas e proventos mais ou menos legítimos.  

 

Quem manda no país, quem mandou no país, quem no país mandará, tem de entender que a cumplicidade dos portugueses para o esforço de voltar a navegar com o vento depende de algumas condições essenciais:

 

  1. Que haja um verdadeiro discurso de coesão nacional, sem disputas sobre o acessório, e no qual prepondere o essencial, já quase só a sobrevivência como país soberano;
  2. Que haja verdade nas palavras, consequência nos actos, coragem na assumpção de dúvidas – sim, de dúvidas, o que há de mais humano? –, realismo nas propostas e convicção na acção;
  3. Que, finalmente, comecem por dar o exemplo.

 

Só assim o esforço de salvação nacional surtirá efeito, só assim a contestação social cederá à solidariedade nacional. Só assim os portugueses aceitarão todos os sacrifícios.

 

Restará então a reflexão sobre as causas, sobre a incapacidade de ler os sinais e de agir correctamente, ao longo de décadas. Quantas vezes assistimos ao espectáculo triste, se não fosse preocupante, de ver os detentores do poder afastar com um golpe de mão desdenhoso as objecções e dúvidas de quem se atrevesse a questionar os rumos da governação e da causa pública? Quanto vezes alertou a SEDES para o descaminho, apresentando soluções?  E a par dela, tanta gente boa, de publicistas a cidadãos de todos os bordos, pelos jornais, nas associações da sociedade civil, na blogosfera? Terá o poder, por atavismo ou maldição oculta, de continuar a exercer-se no aconchego enganador de torres de marfim, longe da realidade, cego à vida sobre que legisla, imune ao pulsar das coisas e pessoas concretas que supostamente representa?

 

Entendamo-nos: a situação actual, dos mercados, da eurolândia, da Grécia e de Portugal, é em grande parte responsabilidade da especulação (que busca o lucro rápido), de agências de notação que ninguém escrutina, do facto de Angela Merkel estar refém de eleições próximas, da inconsistência de uma zona monetária imperfeita. Mas é sobretudo da nossa responsabilidade: o país, as famílias, os indivíduos, todos nos endividámos além da conta, como se não houvesse amanhã e as dívidas não tivessem de se pagar. E contudo, de novo sem hipocrisias, a responsabilidade maior é dos detentores do poder, de quem exerceu cargos públicos e tomou as decisões que moldaram o nosso modelo económico e não resolveram os tremendos (e diagnosticadissimos) problemas do país, como a inoperância do sistema educativo ou a falência da justiça.

 

Não tenhamos medo das palavras - se não agora, di-lo-emos quanto? E espero que esses responsáveis assumam essa responsabilidade, não para o exercício de penitências inúteis e descabidas, mas para que no futuro se dispensem reflexões como esta. Seria um excelente sinal. Escreveu Camões, há quase quatro séculos e meio, que um fraco rei faz fraca a forte gente. Numa República, reis seremos todos, ainda que uns mais do que outros, mesmo se temporariamente e como mandatários para o exercício do poder.

 

O tempo é pois de Política e de Coragem. De, parafraseando o Príncipe Perfeito, agirmos como falcões e não nos limitarmos a cogitar como corujas. É tempo de pairar sobre os despojos de um passado recente medíocre e decepcionante. Tempo de políticos e decisores corajosos e consequentes, humildes e decentes. Tempo de Falcão.

 

Por favor…

8 Comentários para “Tempo de coruja ou tempo de falcão?”

  1. Teresa Fernandesa 28 Abr 2010 as 11:13

    Concordo com a análise e visão deste artigo. De facto, todos sabemos que pouco mudou nos últimos 3 meses nos fundamentos da economia Portuguesa que justifiquem a redução em dois níveis do rating da S&P sobre Portugal. No entanto, a envolvente (Alemanha, a avidez da especulação, etc.) está a contribuir para a formulação de expectativas futuras negativas e para este cenário de crise.

    E neste cenário, exige-se, como refere, comunicação de crise, disciplina extrema e que cada agente assume o seu contributo. Pelos vistos, o Bank of America Merrill Lynch e a UE já intervieram hoje tentando evitar a turbulência, o que já evitou perdas maiores da Bolsa Portuguesa.

    Espera-se que o Governo Português e os demais actores políticos saibam agir “como falcões e não nos limitarmos a cogitar como corujas”, como refere.

  2. ricardo saramagoa 28 Abr 2010 as 12:44

    Quando o sábio aponta para a lua, o imbecil olha para o dedo!

  3. Nuno Vaz da Silvaa 28 Abr 2010 as 14:16

    Concordo e subscrevo mas não deixo de efectuar um reparo. Posso parecer adepto da teoria da conspiração mas Portugal está actualmente refém dos mercados e com o futuro pendente de decisões das Maçonarias ou da Opus Dei. Há muito que a politica mais parece um instrumento para que certas organizações sociais coloquem os seus membros. O país necessita da acção de todos mas o cidadão comum não subscreve esta politica. Para além de politicos e decisores corajosos, consequentes, humildes e decentes (como defende), necessitamos de politicos que respeitem o interesse público, que consigam ser isentos a facções, familias ou empresas.
    Portugal já esteve mais longe de algo parecido com o 25 de Abril. Há muitas pessoas desesperadas e que irão ficar ainda pior com as politicas que se perspectivam.

    E enquanto não tivermos politicos que conheçam a realidade e que digam a verdade, muito dificilmente conseguiremos mobilizar a sociedade para catapultar Portugal para um Futuro melhor.

    Partilho da visão de 1917 de Almada Negreiros no seu Ultimatum Futurista (que utilizei na minha tese de mestrado com muita convicção):

    ” Eu não pertenço a nenhuma das gerações revolucionárias. Eu pertenço a uma geração construtiva.
    (…)
    Eu sou aquele que se espanta da própria personalidade e creio-me portanto, como português, com o direito de exigir uma pátria que me mereça. Isto quer dizer: eu sou português e quero portanto que Portugal seja a minha pátria.Eu não tenho culpa nenhuma de ser português, mas sinto a força para não ter, como vós outros, a cobardia de deixar apodrecer a pátria.”

    Ainda não baixei os braços nem rumei ao estrangeiro para que me reconheçam algum valor (como fazem diariamente muitos colegas e amigos) mas a verdade é que o cidadão comum pouco pode fazer para melhorar o país: O Estado não ouve o cidadão comum (porque se pensa superior), os partidos não têm espaço para quem tem valores e ideias novas, os sindicatos estão partidarizados, as associações civicas são palcos de protagonismo e no dia a dia mais não se pode fazer do que dar algum conforto aos desesperados e dar esperança aos abandonados.

    Poucos ligam ao que digo e escrevo mas, apesar disso, ainda não me resignei. Basta imaginar qual seria o sentimento dos nossos antepassados se nos vissem a afundar alegremente na cauda da Europa (ou no corno de África)…

    Portugal merece melhor!
    Custa perceber onde foi parar o país de Vasco da Gama e Afonso de Albuquerque. Onde foi parar o ideal republicano e a ambição de sermos Portugal!
    As crianças de hoje devem ter uma dificuldade enorme em aprender que fomos um dia um império, uma potencia económica e que estivemos na vanguarda do conhecimento (nomeadamente maritimo).

    Nem tudo está mal mas será que alguém com competências politicas tem interesse em avaliar onde estamos e para onde queremos ir?
    Qual a estratégia do país? E qual a táctica para sairmos deste poço?
    O problema não é esta crise! O verdadeiro problema é o monstro da Administração Pública, da corrupção, do compadrio, das associações mais ou menos secretas, é o comportamento de rebanho que ofusca a visão de quem tem ideiais e valores.
    Precisamos de um Portugal pró-meritocracia e que saiba valorizar a competência nacional. Precisamos que deiam espaço aos mais novos e a quem nunca teve oportunidade de ajudar este país! Precisamos de ambição, esperança e talento no discurso mas principalmente nas acções!
    Não se iludam, o Estado está podre e à mercê da especulação por culpa própria! Mas cada hora que passa sem alterar as politicas, serão muitos anos perdidos na construção de um novo Portugal para os nossos filhos!

  4. fvroxoa 28 Abr 2010 as 15:23

    Há ainda os tempos novos de seres imaginários 3D que só se vêem nos filmes.
    E como somos relativamente bons a “gerir catástrofes” talvez alguma da Classe Dirigente passe demasiado tempo com óculos especiais em salas de cinema a pensar que as Corujas e os Falcões vão reencarnar nos Pássaros da Fortuna que foram “fabricados” como resultado do Plano Tecnológico e no Quadro da Agenda de Lisboa.
    Está à vista, para além da crise de 2008, da especulação,do mundo que construímos e dos Talentos que alimentamos a “stock Options”, o que deu uma Década de “agora é que é”.E muitosd alertraram para isto e “foram corridos ou vaiados”.Ostracizados mesmo.
    É tempo de acção, de gestão dos pormenores na vida de um Povo sem dinheiro nem ânimo.Mas ainda vivo.
    Já que da gestão da Estratégia e das Políticas macro necessárias, é simples confirmar que hoje já não se utilizam apenas “interruptores” mas sobretudo “reóstatos” para as ajustar, na Europa em que estamos e no mundo de que não nos podemos e devemos excluir.
    O problema é como é que se gere a Multidão a quem se prometeu o Céu, quando as Elites nem sequer falaram verdade com os Anjinhos (muitos) que estiveram à porta do Céu a aplaudir.
    Poupar em tudo, ser sério na acção, frontal na decisão, moderado no prometer e realista no envolvimento dos que não sabem nada de Economia nem de Finanças mas são “inteligentes”, é o que se exige.

    A ave que vi no ecran 3D era do tipo CRUFalcão (com 4 asas).
    Dava-nos jeito ter uma assim.Que para nós, fosse esperta como a coruja e implacável como o Falcão.
    Alimentada por Políticos e Decisores com P e D em duplicado.
    FVRoxo

  5. José António Girãoa 28 Abr 2010 as 15:59

    Caro Paule Sande:

    Mais uma vez estou de acordo com muito do que defende. Mas será que chega? Creio que não!

    Embora reconhecendo que teremos que coniderar dois tempos distintos para a acção - o imediato e o médio prazo - também temos de reconhecer que a “salvação nacional” não depende só de apelos, “votos pios” e declarações de intenções em momentos de crise, mas fundamentalmente de decisões concretas e políticas em que os cidadãos se revejam. Em democracia, tal resulta de um sistema institucional eficaz, alicerçado num Estado forte, porque resultante dum sistema político que assegura representatividade efectiva e não meramente formal.
    Há que reconhecer que este não é actualmente o caso em Portugal e que daí decorrem grande parte dos problemas com que nos confrotamos. Creio mesmo que este deveria ser um aspecto prioritário da revisão constitucional, de que se começa a falar.

    Cumprimentos.

  6. Paulo Sandea 29 Abr 2010 as 11:49

    Caros amigos
    Diz o António Girão: a salvação nacional depende de decisões concretas;
    O Francisco Roxo: exige-se poupar em tudo, ser sério na acção, frontal na decisão, moderado no prometer;
    O Nuno Vaz da Silva: o verdadeiro problema é o comportamento de rebanho que ofusca a visão de quem tem ideais e valores;
    A Teresa Fernande: exige-se, neste cenário, disciplina extrema e que cada agente assuma o seu contributo.
    Há em todos os vossos comentários um eixo comum: a necessidade de rigor, de alterar comportamentos, numa palavra, de sermos sérios como povo, e de exigirmos dos que nos governam que sejam sérios como nós!
    Sobra uma interrogação: como convencer quem ainda olha para o dedo e não vê a lua??? (Ricardo Saramago dixit). Poderá a SEDES, este blog, outras organizações da sociedade civil, ter uma palavra a dizer? Ajudar a mudar comportamentos e a consciencializar quem precisa de ser consciencializado? Essa ainda é a minha esperança
    Um abraço

  7. anunesa 05 Mai 2010 as 8:57

    Não! Não! Não!
    Não acredito, não aceito!
    A Pátria não “está podre”.
    Está apenas agrilhoada, cativa nas masmorras do tempo, subjugada pelo Estado providência, sem vidência nem decência.
    Liberte-se a sociedade civil, soltem-se as visões jovens e criadoras, reduza-se o peso de um Estado estéril na economia e, sonho dos sonhos, ainda veremos um novo Portugal erecto, de olho postos para além da Lua.
    Ele está aí, só tem de encontrar o caminho para a liberdade.
    Todos nós, a “forte gente”.

  8. JOSÉa 08 Mai 2010 as 11:39

    O PAÍS ESTÁ SUBJUGADO A UM BANDO DE LOUCOS COMANDADO POR UM CORRUPTO LOUCO.
    SÓ O PRESIDENTE DA REPÚBLICA PODE TRAVAR ESTA LOUCURA ANTES QUE SEJA TARDE DEMAIS.
    ESTAMOS TODOS NAS SUAS MÃOS E SE AS SUAS MÃOS NADA FIZEREM, SERÁ O POVO A TOMAR AS RÉDIAS DO PODER, O QUE SERIA UMA TRAGÉDIA. PARA EVITAR ISTO, SÓ O PRESIDENTE DA REPÚBLICA, PODE SALVAR A NOSSA PÁTRIA DESTE BANDO DE LOUCOS QUE TOMOU CONTA DO PAÍS PARA SE SERVIR DELE E DE TODOS NÓS. NÃO SOMOS NENHUM REBANHO DE CABRAS QUE SEGUEM O PASTOR NEM QUE SEJA PARA A MORTE. TEMOS INTELIGÊNCIA, NÃO PODEMOS FICAR INDIFERENTES E A VER APODRECER A NOSSA PÁTRIA.