Abr 26 2010
O lado luminoso da tragédia grega
(publicado dia 24 de Abril no Público)
E se, de repente, da crise grega emergisse a luz europeia?
Deixem-me recordar: nos anos 60, a Europa viveu uma crise que ameaçou o jovem Mercado Comum; seguiu-se o reforço da integração e o papel decisivo do Tribunal de Justiça. Nos anos 70, a implosão do sistema financeiro internacional e o 1º choque petrolífero ameaçaram a CEE; seguiu-se a criação do Sistema Monetário Europeu e a eleição dos deputados europeus. Nos anos 80, o eurocepticismo de Margaret Thatcher e a crise agrícola instalaram a euroestagnação; seguiu-se a criação do mercado interno. Nos anos 90, os confrontos nos Balcãs e a guerra no Iraque ameaçaram a coesão política europeia; seguiu-se o aprofundamento da política europeia de defesa.
A cada crise europeia tem-se sucedido sempre um claro reforço do processo de integração. Irá isso acontecer de novo?
A crise económica global aumentou a pressão sobre a união monetária europeia, nas suas indiscutíveis debilidades. Não se trata de uma novidade: ainda antes da criação do euro muito se discutiram as possíveis consequências dos choques assimétricos sobre economias desiguais. Na prática, tudo dependia do seu grau de integração real e da coordenação das políticas orçamentais.
Descodificando o “economês”: alguns países da zona euro, como Portugal, mas também Espanha e Grécia, basearam a sua economia em bens que não podem ser transaccionados no mercado internacional; é o caso do imobiliário, serviços de saúde, distribuições de água e gás, refeições nos restaurantes. Outros, como a Alemanha, concentraram-se nos transaccionáveis, que podem ser objecto de troca no mercado internacional e incorporam em geral valor acrescentado. Resultado: os primeiros devem dinheiro aos segundos. Para poder pagar a dívida e os respectivos juros, endividaram-se cada vez mais junto dos mercados. Pouco competitivos, não criaram suficiente riqueza, e permanecem presos no ciclo infernal do endividamento que gera mais endividamento. A situação tornou-se insustentável e os “emprestadores” (os mercados) hesitam; “vendem” mais caro os empréstimos (juros mais altos) e ameaçam até dizer Não, o que significaria inevitavelmente a “falência” para aqueles países, incapazes de pagar a dívida.
Mas a crise tem também virtudes: ao revelar a insânia deste modelo económico, salienta a importância de enfrentar o endividamento, reforçar a regulação e a supervisão prudencial e criar mecanismos de solidariedade que não sejam “ad hoc”. E a Comissão ousou até dar o primeiro passo para um “governo económico” europeu, ao propor a coordenação prévia das políticas orçamentais. Está em risco o euro? Sim, mas os custos políticos e económicos não tornam fácil a desagregação. Pode a Grécia (ou Portugal) ser forçada a sair, temporariamente ou não? Pode, mas também não parece provável, dados os custos económicos e políticos (e a ordem não é arbitrária).
O mais certo é da crise resultar um reforço da integração e da zona euro. Coordenação económica. Uma Europa mais unida. Economias saudáveis e consolidadas. Ou não; mas, nesse caso, a História não será branda com os decisores que, ao longo das últimas décadas, conduziram os países europeus para um beco cuja única saída é um outro ainda mais sujo e triste. Alguém tem de ser responsável. Ou talvez não…
2 Comentários para “O lado luminoso da tragédia grega”
Desde que os Cientistas do Centro Europeu de Pesquisa Nuclear (Cern) conseguiram em 30/03/2010 reproduzir, em pequena escala, o fenômeno do Big Bang que deu origem ao universo há 13,7 bilhões de anos, que me sinto mais esperançado que haja um lado mais luminoso nas nossa vidas actuais.a partir deste tipo de experiências e esperança na descoberta do principio de tudo(?).
Talvez, seguindo a opinião dos físicos do projecto, o feito obtido venha a permitir que se examine a natureza da matéria e a origem das estrelas e dos planetas.E, quem sabe, por tabela,a natureza e a origem das dificuldades em fazer a Europa funcionar… já que o seu Big Bang tarda em chegar ou em se concluir.Depende dos pontos de vista.
Um Optimismo Responsável como o de Paulo Sande é sempre Bem Vindo.
Sobretudo quando a Tragédia Portuguesa destes dias, mais parece uma triste imitação do spot publicitário de uma marca de cafés expresso, em que se discute à porta do céu:a máquina ou a vida!!!E a sorte foi ter optado por destruir um piano.E continuar a viver.
Quem nos dera que pudéssemos optar por, mesmo destruindo mais uns pianos europeus, fazer com que a Europa continue à porta do Céu…
FVRoxo
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Caro Paulo Sande:
Basicamente estou de acordo com as premissas da sua argumentação e até gostaria de subscrever a tese, independentemente de não considerar que melhor coordenção económica chegue para reforçar a integração europeia e a zona euro.
É que tal como é sabido e muitos vêm pondo em relevo, desde o início, união monetária sem união política é, na prática, um símbolo de impossibilidade. O que nós também sabemos é que a grande maioria dos líderes europeus ( discontando mesmo os anti-europeus) e gande parte da população, se vêm opondo a esse passo essêncial. Por razões nacionalistas, populistas e outras, tem-se negado e vindo a adiar essa discussão essencial, tanto mais que, como sempre se soube, a UE não é uma “Zona Monetária Óptima”. A situação presente não é credível, os mercados sabem-no e deles tiram partido: manipulando-os, se preferir-mos o termo.
Façamos , então votos para que desta crise comece e possa emergir alguma luz!