Abr 11 2010
O Interior do futuro
Os custos da interioridade em Portugal são muitos.E cada vez mais caros.Hoje e no futuro (prevemos).
Porque as Populações estão a envelhecer e os novos que resistem penduram-se em empregos nas “autarquias” e nas empresas municipais “à espreita de um lugar no Quadro”. Custam caro aos pais e à Sociedade. Porque pouco produzem.E ás vezes muito consomem numa atitude “novoriquista e de imitação citadina”
Alguns ainda não perceberam que “os quadros” agora já não podem ter molduras. E que as cunhas vão voltar a ter de servir para ajudar a partir lenha. Em lenha que poucos já cortam.
Nasci no interior do País numa das zonas mais bonitas do Alto Alentejo.O distrito de Portalegre
Ali tenho acompanhado gerações de familiares de amigos a quem procuro manter vivo o ânimo para o futuro.
De alguns (poucos) que, pela sua seriedade e rigor ainda continuam a trabalhar nas suas empresas e a acreditar que é possível ter Esperança , há sempre um queixume final : “ninguém quer fazer nada”.
Olhando as estatísticas disponíveis e mais actuais, o distrito de Portalegre é uma verdadeira “antevisão amargurada” do Interior do futuro: verde na Primavera, cinzento no Inverno. Bonito para passear. Mas feio para viver e crescer. Sem Esperança. Só com sobrevivência no horizonte.
A formação profissional é um mito.Novas oportunidades não dão oportunidades por que não as há por lá.
Porque a formação profissional não orientada para mudança de atitudes e novas competências do “Saber fazer”. Mais do mesmo, em resumo.
Como é então possível antever e fazer mudar alguma coisa neste estado de coisas?
Lá aparece a Regionalização de tempos a tempos na Agenda Política.Com o contexto PEC sobre os ombros, os ânimos parecem ter esfriado.Mas o que me preocupa é ver esfriar a vontade de mudar o futuro.Não o de fazer a Regionalização.
Se fizermos a viagem de Vila Real a Bragança pela via mais interior (IP2 aos bocadinhos) o cansaço final será naturalmente grande.
Mas a tristeza de ver como é que um belo Interior pode morrer lentamente por culpa dos Homens, será muito maior.
As cidades e vilas estão normalmente mais cuidadas. As estradas mais bem asfaltadas e sinalizadas. Os restaurantes e “tascas” cada vez mais cheias (aos fins de semana) de citadinos do litoral.
Os autarcas fazem festas e festarolas e os governadores civis governam o horizonte quase sem paisagem humana.
Beja, Évora e Portalegre seguem rumos cada vez mais a olhar para Espanha à espera de bom vento ou bom investimento. O Alqueva, cheio este ano, cria a ilusão que “agora é que é”, à volta da linha de regolfo.
Mas nem Beja levanta voo, nem Évora sabe nadar.E Portalegre só já limpa os tapetes de outro tempo e arruma a cortiça que sobra.
Mas o comércio modernizou-se por lá: todas estas cidades têm boas zonas comerciais.Enquanto o comércio de rua e as feiras morrem.
Os investimentos nestes três distritos foram muitos: que resultou deles para além de sites e das novas estradas, piscinas, pavilhões gimnodesportivos, campos de futebol bem atapetados, rotundas grotescamente decoradas e zonas industriais sem ocupação que se veja?
Salva-se o fluviário em Mora.E alguns museus por todos os lados como o de Elvas. E a Rede de Cuidados Integrados nas Misericórdias. Entre vários outros símbolos de passagens dos líderes dos governos, ministros ou secretários de estado,normalmente sob a forma de “placas comemorativas”.
Em resumo, o “barco está bem pintado, mas não navega”.E as novas gerações não vêm a hora de vir para a “grande cidade”. Como eu vim para estudar e onde voltei sempre inclusive como empresário nos anos 80.
Castelo Branco, Guarda e Bragança pouco diferentes são do que se passa nos três “colegas distritais” do Sul. Marcados por uma maior capacidade de resistência ao frio, com mais pequenos “pedaços de terra” para resistir aos apelos dos bancos de jardim, os Beirões do Interior e os Transmontanos são mais duros mas, só as comunidades de imigrantes regressados permitiu algum alento renovador da vida social e económica.Também olham para Espanha mas com menos esperanças porque não têm o Alqueva.
E a Cova da Beira e a Serra da Estrela têm algum encanto social e económico.O Douro algum deleite no olhar.
A série de programas de António Barreto e Joana Pontes “Portugal um Retrato Social” , foi esclarecedora pela imagem” do que se passa no Interior do País.
No 3º programa dessa série “Mudar de vida: O fim da sociedade rural”, disse: “A sociedade contemporânea, urbana, era ainda há pouco tempo rural. Mudou muito depressa. Muitos portugueses emigraram, a maior parte saiu das aldeias e foi viver para as cidades e para o litoral. O campo está despovoado. As cidades cresceram. As estradas aproximaram as regiões. Nas áreas metropolitanas, organizou-se uma nova vida quotidiana. Há mais conforto dentro das casas, mas as condições de vida nas cidades são difíceis”.
Pergunto: e no futuro do Interior “António” será que haverá alguma diferença nas condições de vida face às condições de vida difíceis das cidades, no fim do que se está a e vai passar nos próximos anos? Gostaria de acreditar que sim.Ainda acredito que sim.
Mas não vejo muito sacrifício solidário para além da conversa.E isso é que me leva a perguntar : haverá futuro para o Interior do futuro?
FVRoxo
2 Comentários para “O Interior do futuro”
Meu Caro FVRoxo:
Haverá futuro para o Interior do futuro? Você “Ainda acredita que sim”. Eu acredito (ou pelo menos temo) que não. Isto porque, como o seu quadro impressionista bem retrata, “a orientação profissional não é orientada para a mudança”, muito poucos querem fazer alguma coisa, só placas comemorativas não chega, e “novas oportunidades” não criam, necassariamente, novas realidades.
Em resumo, “o barco está bem pintado, mas não navega”. E não navega, porque para isso precisa de condições de navigabilidade e de um rumo! Nem um nem outro me parecem existir , para já. Para quando o debate e a assumpção de uma visão para o País e correspondente estratégia? Não chega falar da vocação turística do Pais, das potencialidades da plataforma marítima, ou de quaisquer outras. É preciso saber como concretizá-las e o empenhamento nesse desígnio! Mas concordo em que é preciso fazer um esforço para “manter vivo o ânimo para o futuro”.
Caro José Girão
Obrigado pelo seu simples e objectivo comentário.
Num País tão pequeno (ainda que muito heterogéneo na paisagem, na economia e nas pessoas) nada pode ser “impossível de fazer”.
Desde que se queira.
Como diz e concordo inteiramente, “É preciso saber como concretizá-las e o empenhamento nesse desígnio “.
Badajoz à vista” prova que, aqui ao lado, e num grande País de Regiões, muita coisa foi feita.E está à vista o conseguido.Mesmo com problemas complexos.
Trabalhei na década de 60 nos Serviços Hidráulicos Portugueses entre Trás os Montes e o Baixo Alentejo como topógrafo.
O regadio que estava feito em Espanha tomou a dianteira relativamente a Portugal.E eu até ganhei ajudas de custo para ir ver o que se fazia lá.
Passaram estes anos todos e só agora é que o Alqueva encheu e ainda não se sabe o que vai dar no esvaziamento produtivo.
E as barragens do Norte só agora é que vão avançar.
Afinal qual foi a diferença que provocou a realidade ainda hoje existente?planeamento, programação e execução.
Doing!Doing!
Eles matam o toiro.
Nós apenas o pegamos de caras.
E fica quase sempre alguém maltratado.
Eles comem os bifes rapidamente.
Nós temos de esperar a decisão do dono dos toiros.
A “incompetência e iliteracia de desenvolvimento económico pelo lado do “doing em pleno século XXI” que grassa em muitas CCDRs e outras estruturas de apoio à iniciativa privada no quadro do QREN, por exemplo, não deixam antever grandes mudanças.
Os 50 kms a partir da costa portuguesa para o interior são, neste momento, uma grande área tampão, razoavelmente tratada,antes de se entrar em Espanha para chegar rapidamente a Madrid ou Sevilha.
Évora é bonita;Campo Maior um oásis industrial; Castelo Branco e Covilhã dois bons sítios indefinidos entre agricultura, indústria e serviços.E o resto é a “velocidade da deslocação nas novas estradas”.
Falta atitude, competência e vontade.
Sobra bairrismo pouco fértil e sobre poder de autarcas orientados para “gastar”.
Na Coudelaria de Alter do Chão foram investidos 20 milhões de Euros em obras.Estado e mais Estado.Cavalos a correr e Portugueses a pagar.Em nome da Obra.
Agora não há dinheiro para sequer pintar um edifico emblemático que está no centro do complexo e que poderia ser um centro de conferencias de elevado potencial até em interacção com a Espanha fronteiriça.
Não há rumo como bem refere.
Há desarrumo!!! como dá jeito à guerrilha partidária e ao desperdício do tipo “Portugal é quase só meu e dos meus amigos”.
FVRoxo