Fev 21 2010
A linguagem do regime
As coisas têm de ser conversadas. É efectivamente muito grave que um líder da oposição se permita afirmar, num programa televisivo, que o seu chefe de governo tenha estado a mentir e que, ditas tais palavras, nenhuma consequência daí se siga.
Há perguntas que não dá para evitar. Não seria de esperar que uma acusação tão grave tivesse um nível de repercussão adequado ao calibre da acusação? Não seria de esperar uma exigência séria de reparação da parte do visado, nem que fosse pela sua honra, bem como uma reacção prontamente inquiridora da parte dos órgãos de soberania, a começar pela presidência da república, e, já agora, uma reacção bem mais inquieta e consternada da parte das pessoas que se interessam pelo bem público?
Por mal que as coisas tenham andado na última legislatura, confesso que não contava que entrássemos, logo no início desta nova legislatura, e após algumas correcções ao estilo de governação, na presente escalada de violência discursiva. A questão já ultrapassou largamente o âmbito do combate político regular, no quadro das instituições democráticas que pautam o regime. O que hoje começa a estar em causa é o próprio regime, tanto pela sua sustentabilidade, ameaçada por um frenesim acusatório imparável, como mesmo pela sua legitimidade – ao fim e ao cabo, que autoridade investe a posição governante sob condições tão degradadas?
Hoje em dia até a ingenuidade das crianças detecta melhor o que em pessoas com responsabilidades o ressentimento não deixa ver. Por exemplo, os meus filhos não se inibiram de gracejar com a imagem que logo fantasiaram de um Primeiro-Ministro mentiroso, quando logo pela manhãzinha, enquanto eu tratava de os conduzir às respectivas escolas, ouviram as notícias da TSF.
Poderia tratar-se de um caso isolado, mas não, na verdade, sem consternação por aí além, e no espaço de alguns dias, a mesma vertigem pela linguagem acusatória sem freio expôs-nos a mais uma acusação. Agora, são importantes órgãos da imprensa escrita a alegar que o Procurador Geral mentiu ao Parlamento em declarações sobre um despacho que ele próprio emitira. Amanhã, ou depois, ouviremos justificações da parte do visado, mas receio que já pouco importe quando nada do que se diz, por mais sério que seja, é levado a sério. E como não se tiram consequências, facilmente se prossegue a prática acusatória por outras partes, com outros alvos, suportando-se sempre em novas revelações, novas escutas, novas conversas, tidas ou presumidas. Por acaso, políticos, magistrados, comentadores, jornalistas e a quem mais a carapuça sirva têm noção do mal que, com esta lógica de escalada, se está a fazer ao regime?
À recorrência destes incidentes acusatórios inconsequentes e, por isso mesmo, imparáveis, junta-se ainda o fenómeno, decerto interessante para a sociologia política, da valorização, por razões que adivinho mas não discutirei aqui, de um novo padrão de atitudes e comportamentos na vida política que, quando trazidos de uma forma ou de outra à luz pública, expõem uma sinistra deterioração da qualidade dos novos quadros (na casa dos 30/40 anos) que vão assumindo posições no regime. Também por aí se explica a linguagem do regime – diz-me como falas e dir-te-ei como és. Mas, pergunto, será realmente compatível com o regime que escolhemos na Primavera de 74 que cheguem à posição de governantes e altos funcionários designados pelo poder político indivíduos cujo lastro linguístico lhes permite todo o tipo de lábia calaceira, com a frágil condição de não se crerem estarem sob escuta, mesmo que estejam em jogo assuntos públicos sérios, e muitos negócios com relevo para a vida pública? A questão não é apenas uma questão de forma; é, sem dúvida, também uma questão de ética – Se a ética é o cuidado que devemos às consequências, então é das palavras que devemos cuidar em primeiro lugar. Porque as palavras são para ter consequências. E é por isso que as coisas têm de ser conversadas.
3 Comentários para “A linguagem do regime”
De acordo com uma classificação das linguagens de da comunicação, já conhecia as “linguagem directa, linguagem scripto, linguagem video, linguagem informo e a linguagem multimedia.E a linguagem gestual.
A linguagem do regime não e considero-a uma excelente classsificação.Que vou adoptar como denominador comum para aquelas, na perspectiva da linguagem politicapartidária do noss regime.Mas com precaução para não ser escutado.
Certamente o resultado da fração (numerador/denominador) será um lamento a tender para infinito ou um murmurio a tender para desanimo, se virmos o futuro pelo lado negativo.
E uma gritaria a tender para a trovoada ou uma risada a tender para a chuvada de lágrimas, se virmos alguma coisa de positivo na linguagem de regime que tem de mudar.
Eles falam, falam…já dizia o Ricardo Araújo Pereira.
Felizmente que ” o que os Portugueses normais sentem, já nem às paredes confessam”.E sintetizam a sua posição em à partes do tipo ” vozes de … não chegam ao céu”.
Felizmente por isso, meu caro ABarata não há ainda perigo no meu entendimento.A linguagem ainda é só de sistema.
E de linguagem de sistemas temos nós um bom traquejo nos ultimos anos em vários aspectos da Vida Nacional.
Sistemas que nunca são abertos.
Mas que também nunca se fecham.
Vivem entreabertos à espera de um novo regime.
Tipo LuscoFusco em Primavera de Outono num contexto de mudança climática.
FVRoxo
Caro FVRoxo,
Antes de mais, obrigado pelo comentário e pela bem disposta maneira de o fazer. Pois é, mas essa coisa dos sistemas deixa-me sempre de pé atrás. Eles tendem a não tolerar nada fora do sistema e tendem a fazê-lo com sistematicidade, o que é bem desagradável. Bom, mas nem sequer pretendi ser apocalíptico. O regime não vai acabar ou, por outra, espero bem que não acabe. Acho é que vai pelas ruas da amargura e que assim é também por causa desta linguagem que por aí anda, confortavelmente instalada no regime. De resto, parece-me que estamos de acordo, ou não é assim?
Caro Andre Barata
Totalmente de acordo.O regime não vai acabar ou, por outra, esperamos bem que não acabe.
Quanto aos sistemas optei desde há muito por incrementar omeu ADN do humor, para os esquecer “sistematicamente”.Já que eles, foram da análise da teoria dos sistemas, são sistematicamente,são sempre com a mesma tactica:todos ao molho e fé no golo.