Nov 01 2009

Editoriais não assinados?

Publicado por Pedro Pita Barros a 12:42 em Democracia, imprensa

O Público na sua edição apresenta no seu editorial uma nova abordagem, a de não assinar os editoriais!

“Os editoriais, a partir de hoje, deixarão de ser assinados. Os editoriais expressarão o pensamento desta direcção e deste jornal sobre o mundo que procuramos descrever, compreender e analisar página a página. Não queremos doutrinar nem vender receitas. Queremos interrogar o mundo. Daremos expressão a todos os pontos de vista, mas afirmaremos os nossos. Os editoriais serão escritos pelo novo Gabinete Editorial, composto pela direcção e mais cinco jornalistas do PÚBLICO - Teresa de Sousa, Jorge Almeida Fernandes, Margarida Santos Lopes, Ricardo Garcia e Vítor Costa. Há 20 anos, quando nascemos, foi decidido que os editoriais seriam assinados com base em duas ideias: seriam mais acutilantes e comprometeriam apenas o seu autor. Hoje sabemos que essa ideia original se tornou utópica e que um editorial compromete todo o jornal - é a cara do jornal - e não pode, por isso, ser veículo da opinião de uma só pessoa. Acreditamos, também, que é possível escrever editoriais incisivos, com pontos de vista corajosos e provocadores, que questionem e mobilizem a sociedade. Os novos editoriais do PÚBLICO, são, portanto, textos de opinião do jornal como instituição. A mesma filosofia será aplicada à secção Sobe e Desce. ” (http://www.publico.clix.pt/Media/um-novo-comeco_1407731)

não pensei detalhadamente no assunto, mas assim à primeira vista parece-me má ideia,

de quem são as posições? quem valida? há auto-censura? e quando não concordam todos, não se escreve? é por maioria que o editorial sai? resulta de uma avaliação negativa dos editoriais assinados que foram tradição do jornal (e que foram um dos motivos para ler o jornal)?

9 Comentários para “Editoriais não assinados?”

  1. Jose Matos Silvaa 02 Nov 2009 as 18:58

    O jornal “Público” decidiu agora mudar de política editorial, seguindo, e.g., o mote do “Diário de Notícias”. Esta cultura da irresponsabilidade, do jogo opaco, dará jeito a algumas pessoas e interesses, mas potencia os problemas referidos e vai contra a filosofia e prática correntes seguidas pelos órgãos de comunicação mais conceituados nos EUA, Reino Unido, França, Itália, Alemanha, entre outros países. Quem tenha tido a oportunidade de os conhecer, e olhe para este panorama, português, não pode deixar de sentir-se triste, chocado com estes estigmas de subdesenvolvimento.

  2. Pedro Lainsa 02 Nov 2009 as 23:02

    Caro Pedro,
    O mais comum nos bons jornais internacionais são editoriais não assinados. Pelo menos é assim que me lembro. Acho que isso tem várias vantagens, incluindo a de podermos formar uma opinião sobre a linha editorial do jornal, que não é definida por um só director, mas sim pelos vários responsáveis pela mesma. Na tradição anglo-saxónica, os jornais têm opinião e é bom que a expressem, para depois o leitor poder medir melhor o que lê. Essa opinião não é só a de uma pessoa. Enfim, estou para aqui a dizer generalidades que isto de jornais só percebo enquanto que leitor. Mas o Público estava a precisar de uma clarificação, acho eu. Espero, claro, é que não se governamentalize.

  3. Pedro Pita Barrosa 03 Nov 2009 as 9:11

    Caro Pedro,
    neste caso, as minhas generalidades não são melhores que as tuas, e tens razão, fui verificar que alguns dos jornais internacionais que gosto de ler não têm os editoriais assinados, não há uma regra única, I stand corrected.

    aceitemos então os editoriais não serem assinados,
    vejamos o que será o seu conteúdo, dando para já o benefício da dúvida à nova equipa do Público,

  4. Nuno Vaz da Silvaa 03 Nov 2009 as 12:32

    Fazendo o papel de “advogado do diabo”, deixo uma pergunta no ar: Conclui-se que os editoriais não assinados são má ideia mas como no estrangeiro é prática habitual, já podemos aceitar essa estratégia?

  5. Pedro Pita Barrosa 03 Nov 2009 as 13:42

    Olá Nuno,
    não é exactamente isso, é apenas reconhecer que se jornais com boa reputação têm essa prática, então existirão bons argumentos a favor e contra, não sendo evidente, sem analisar esses argumentos, se a decisão do Público é apropriada ou não.

    Ou seja, a minha preferência pessoal continua a ser de editoriais assinados, mas aceito que possa haver entendimento razoável diferente, e sem conhecer em detalhe os argumentos, e eventualmente evidência se houvesse sobre eles, o melhor é não me basear apenas nas minhas inclinações e percepções pessoais.

  6. Pedro Lainsa 04 Nov 2009 as 8:48

    Talvez se possa acrescentar que editoriais assinados são uma forma de argumento de autoridade. Um jornalista escreve um artigo de opinião, que pode ser sobre o Figo ou sobre o número de tropas estacionadas no Iraque, e essa opinão é chamada editorial, apenas porque o jornalista é o director. Os editoriais não assinados resolvem em parte isso e fazem mais. O que mais, não sei bem, mas a verdade é que se aprende a olhar para os bons exemplos, como dizes.

  7. Jose M. Silvaa 04 Nov 2009 as 17:59

    Caros Pedro Pita Barros e Pedro Lains:

    Nos EUA, existe uma cultura de responsabilidade, individual, herdada, creio, dos ingleses e alemães - a dita cultura anglo-saxónica - uma pessoa responde, individualmente, pelas suas opiniões ou posições. Esta cultura aprende-se em criança, desde os primeiros bancos da escola primária. Nos EUA, da TV (e.g., CBS, ABC, NBS, PBS) aos jornais de referência (e.g., New York Times, Washington Post, Los Angeles Times) e revistas (e.g., Times, Newsweek) os editoriais são assinados, as posições, individuais, assumidas. Não existindo cabeças colectivas, tampouco existe, neste contexto, uma responsabilidade “colectiva”. Verifico o mesmo na imprensa britânica (e.g., The Economist) e alemã. Pedia aos demais comentadores o favor de me citarem, em concreto, alguns bons jornais internacionais cujos editoriais não são assinados - será limitação minha mas, de momento, não estou a vê-los.

  8. Jose M. Silvaa 04 Nov 2009 as 22:36

    ERRATA: No meu último email, como exemplo de TV nos EUA, onde está “NBS” deveria estar “NBC”, claro. Pedia o favor de corrigir este lapso.

    Obrigado,

    JMS

  9. Pedro Lainsa 05 Nov 2009 as 9:46

    Devo confessar que fiquei um bocado arrependido do que escrevi no meu comentário anterior. As duas coisas são obviamente válidas, dependendo da qualidade e esse é que deve ser o critério principal. E tinha-me esquecido de um jornal económico português que tem os melhores editoriais assinados dos nossos dias. Como exemplos de não assinados, lembro-me, com certeza, do do FT, e acho que no NYT também o não são. E há muitos mais. Para além do Economist, claro.