Jul 31 2009

Esta vez é mesmo a última, prometo…

Publicado por Ricardo Reis a 20:59 em Artigos Gerais

Sinto-me culpado por estar a monopolizar este blogue com a minha análise do peso do Estado em Portugal. (E prometo já não colocar mais nenhum post as próximas semanas, por respeito pelas pessoas que me convidaram a escrever aqui.)

Percebo que muitas pessoas queiram questionar as minhas conclusões. Há muito a discutir e a melhorar, e não foi nunca minha intenção escrever a última palavra no tópico. Fico contente por ver muitas das críticas, com oja referi noutr post.

Mas, não posso deixar passar as suspeições que alguns levantam acerca dos métodos que eu usei. Penso que isso acontece nalguns casos porque eu errei quando pensei que estava a ser 100% claro ao pôr os programas online. Devia antes ter também explicado em palavras, como bem aponta o Professor Pedro Lains, até porque, como aconteceu no caso dele, suspeito que alguns leitores acabaram por ficar baralhados acerca dos cálculos que eu fiz.

Então, o que fiz eu:
– Peguei nos números do agregado G, aquele dos livros de introdução à economia, Y=C+I+G+NX. Ao contrário do que dizem alguns, não brinquei com os números, nem escolhi arbitrariamente esta série em vez de outra. Não. Usei a séria mais básica do consumo de recursos pelo Estado, aquela que quase todos os modelos teóricos macroeconómicos consideram.
– Tirei os dados do G e do Y daqui: http://www.bportugal.pt/publish/bolecon/be_home_p.htm. Inicialmente, estava a tirar os dados manualmente do BPStat do Banco de Portugal, mas um comentador neste blogue alertou-me para este conveniente ficheiro de Excel, e usei antes este.
– Dividi G por Y, para obter GY. Assim, tomei em conta o crescimento da economia assim como algumas flutuações no produto. Não interessa se os dados estão em preços correntes ou não; é irrelevante porque eu só olho para o rácio.
– Calculei a média aritmética simples do GY para cada um dos quatro governos. (A forma mais fácil de calcular a média é correr uma regressão com 4 “dummys”. Mas são só médias, podiam ser feitas à mão.)
– Depois achei melhor controlar dois factores, aí sim usando regressões lineares, mas sem pretensões de causalidade, só para calcular correlações parciais:
—- Primeiro, controlei para a convergência em relação à média europeia usando a diferença entre o GY em Portugal e o GY na UE. Por isso, o factor de convergência que por exemplo o Pedro Lains refere na sua comparação com a Áustria foi tomado em conta. Obviamente, da forma imperfeita que a estatística permite, mas foi tomado em conta.
—- Segundo, controlei para o ciclo, incluindo Y-Ytrend, onde Ytrend é um simples filtro HP. É exasperante ver pessoas sérias como o Pedro Lains induzidos em erro pelas duas ou três pessoas que andam a gritar pela Internet que eu não controlei para o ciclo. Eu fi-lo de duas formas! Um, dividindo por Y e, dois, através deste controlo.
– Por fim, fiz umas coisas ligeiramente mais sofisticadas para ver o que acontecia, em termos de “forecasting”, quando o défice das contas públicas sobe: se nos períodos seguintes GY desce ou não.

Foi só isto: muito simples, muito transparente. Com a excepção do último ponto, tudo pode ser feito no Excel ou (com mais paciência) numa máquina de calcular.

Por fim, três comentários metodológicos:
– Aprendi, quer dos meus professores, quer por experiência própria, que quanto mais simples a estatística, mais poderoso o resultado. Não percebo como é que se criticam os cálculos acima por serem simples: essa é uma virtude, não um defeito.
– Claro que o consumo público, e as questões em discussão, dependem de n coisas. Eu tomei em conta as três que achei mais importantes: o partido no poder, o ciclo, e a convergência em relação à UE. Quem acha que outros são importantes, que avance e repita a análise tomando-os em conta, como disse aqui.
– Toda a génese deste estudo é transparente da forma que só a Internet permite. Escrevi um artigo para o jornal i, onde na última frase apontava uma curiosidade. Expandi essa curiosidade neste blogue e recebi óptimos comentários. No dia seguinte, o editor do i pediu-me para expandir ainda mais numa coluna e fi-lo. Pus mais explicações e todos os meus cálculos noutra entrada aqui no blogue. Não há nenhum “timing” com segundas intenções nem nenhum motivo obscuro, ao contrário do que podem pensar mentes mais maquiavélicas.

8 comentários até agora

8 Comentários para “Esta vez é mesmo a última, prometo…”

  1. Maria Teresa Monicaa 31 Jul 2009 as 22:20

    Caro Ricardo Reis

    Espero que continue a escrever e muito neste blogue. Não entendo que escrever vários posts para esclarecimento de uma ideia, justificando metodologias ou explicitando objectivos, seja monopolizar, mas sim debater seriamente um tema.

    Tenho-me divertido. Não sou economista e, portanto, não percebo as discussões técnicas, mas gosto suficientemente da vida política para achar esta e outras polémicas interessantes.

    A sua candura e a tempestade levantada em fase de pré–campanha eleitoral é muito bem vinda por estas paragens, não só porque põe quem pode e deve a fazer contas, como a política deixou, neste momentoso tema, de ser apenas conversa fiada, passando o debate a ser mais interessante.

    Não posso falar por quem o convidou para este blogue, não só por não saber quem foi como não ter eu qualquer mandato, a não ser por agora tomar conta dos comentários deste blogue até o Pedro Pita Barros regressar de férias, o que deve estar para breve.

  2. Pedro Pita Barrosa 31 Jul 2009 as 22:36

    Caro Ricardo,

    Por só esporadicamente ter acesso ao correio electrónico, não tenho acompanhado completamente a discussão,
    nem me atrevo a nela participar neste momento,

    Mas não posso deixar de reforçar que é este tipo de discussão
    que devemos procurar ter, esclarecendo e clarificando posições.

    De outro modo caimos no que noutro post aqui no blog o Nuno Garoupa chamou
    de “achismo nacional”!!

    Assim, só posso pedir que tenha a paciência de continuar a escrever e a debater. Saimos, nós, os outros, mais ricos destes debates,

    Um abraço
    Pedro Pita Barros

  3. Paulo Lobatoa 31 Jul 2009 as 23:45

    Estimado Professor Ricardo Reis,

    Provavelmente não recordará o meu pedido mas, à data, parecia-me que a sua abordagem isenta levaria a este tipo de discussão. Ao ser usado como um dado em si mesmo, e não como um ponto de partida, perdeu-se a oportunidade de ter uma discussão mais séria acerca do desperdício que é o paradigma daqueles que usam os dinheiros públicos.
    Contudo, penso que a importância do seu trabalho é merecedora de toda a nossa atenção, e respeito, e o debate público será muito mais proveitoso com a sua participação.

    cumprimentos

  4. ricardo saramagoa 01 Ago 2009 as 11:24

    Caro prof. R.Reis
    Obrigado por trazer ao debate, dados objectivos e transparentes.
    Teve o mérito de fazer ressaltar a diferença entre a análise séria dos dados disponíveis e a discussão enviesada pelas ideias feitas.
    A polémica só veio por a nu que muitas das ideias e opiniões que circulam não resistem ao teste dos dados.
    Obrigado pelo seu trabalho.

  5. Paulo Ma 01 Ago 2009 as 14:00

    Eu tinha dito a mim mesmo e num comentário que não voltaria a comentar os seus artigos. Porque julgo que Vc. é incapaz de aceitar críticas, tem um ego demasiado grande para o bom senso patenteado e parece vitimizar-se fácilmente. Pode considerar um ataque pessoal, que para mim vai dar ao mesmo.

    Só não acho que o seu ego seja o suficiente para se lamentar de ser um incompreendido, que depois andam aí uns maldosos que só o querem denegrir. Como se infere aqui: “É exasperante ver pessoas sérias como o Pedro Lains induzidos em erro pelas duas ou três pessoas que andam a gritar pela Internet que eu não controlei para o ciclo.”

    Ora, eu fui um (se é que houve outros, pois isso não sei, porque não tenho a veleidade de saber tudo o que se escreve na net, ao contrário de si) que apontei para os falhanços na sua análise, a começar por não ajustar ao ciclo os dados em bruto. Vc. pensa que ajustou ao ciclo e até, pasme-se a sua presunção, diz a dada altura: “Usei a séria mais básica do consumo de recursos pelo Estado, aquela que quase todos os modelos teóricos macroeconómicos consideram.” Ora, V. Excia tem obrigação de conhecer os vários modelos e, que eu saiba, nenhum usa a “sua” metodologia, regressões lineares sobre derivadas de dados brutos. Os seus métodos até são tão arcaicos e pouco apropriados, que o Blachard já teorizou o suficiente para mostrar que as suas tentativas de medir o crescimento do chamado “monstro estatal” são, digamos, para ser bem educado, ingénuas.

    À parte o problema do seu estudo, que eu considero apenas um ensaio opinativo para influenciar os eleitores, eu apenas considero que V. Excia. deveria ser mais modesto e reconhecer nas críticas, modestos contributos para compreender o problema. E não fazer como, como o faz, igorando os comentários ou tratando os comentadores como meros ignorantes. Para por fim, queixar-se de ser um incompreendido, e que alguém anda a espalhar pela internet críticas erradas ou injustas.

    Ora, eu apenas comentei aqui e noutro lado. E desisti aqui porque ficou patente a mim que V. Excia não domina a matéria como devia. Mas como eu não tenho a veleidade de mostrar que sei mais que os demais, até porque sou mesmo ignorante, acredite, desisiti, por manifesta incapacidade sua de encaixar com as críticas. E apenas fiz mais uma crítica, noutro lado, porque achei pertinente, está aqui : http://jamais.blogs.sapo.pt/22710.html#comentarios .

    Na minha visão do problema, V. Excia. é incapaz de encaixar críticas.Talvez por ter um ego insluflado pela sua brilhante, mas ainda curta, carreira académica. Talvez epípetos como os dos jornais, onde V. Excia. escreve, lhe tenha subido á cabeça. Como este, do DE: “A nova estrela da economia nacional, Ricardo Reis, de 27 anos, fala sobre o momento económico (…)”

    Lamento escrever assim, sabe? Porque eu li essa entrevista, e de achar que tem para ali muitas respostas erradas ou demasiado assertivas, se quiser, e de grande parte das suas ideias eu as perfilhar sobre os mercados em Portugal. E sabe porquê que poderia ser mauzinho e dizer-lhe que, apesar de toda a paternáfila teórica demonstrada na sua entrevista, Vc. errou no diagnóstico? Porque todos nós, quando julgamos saber muito e conhecer muito sobre os fenómenos económicos, tendemos a ser demasiado assertivos, apesar de sermos jovens, com a crença que sabemos tudo ou muito.

    Agora, eu reconheço que V. Excia. tem qualidades. Mas não lhe reconheço ainda mérito para se julgar acima das críticas e, sobretudo, que sabe tudo sobre tudo. Com o tempo, e estou a ser paternalista, porque já passei pelo mesmo, embora não com o ego do tamanho do seu, o caro Ricardo vai aprender a ler as críticas com mais calma e poder de encaixe. E nessa altura vai valorizar, não tanto o que sabe, mas o que não sabe. Porque, o que não sabemos, é que nos baliza para novos estudos e investigações.

    Continue a escrever mas aprenda a ser humilde. V. Excia. é novo demais para se julgar um supra-sumo. E já agora, não pense que os índigenas são tão ignorantes como possam aparentar.

    Cumprimentos.

  6. Pedro Lainsa 01 Ago 2009 as 21:54

    Caro Ricardo,
    O seu artigo foi uma lufada de ar fresco. Muita gente andará cansada de afirmações não fundamentadas sobre a economia portuguesa e talvez também por isso o seu trabalho tenha tido o impacto que teve. Não há nada como fazer algumas contas e tem havido um défice delas nas discussões que nos rodeiam. Muitas das dúvidas que tenho levantado seriam melhor resolvidas com alguns cálculos mas, infelizmente, já não tenho muita facilidade para os fazer, seguindo os melhores métodos. Por isso é para mim fundamental que vão aparecendo economistas a fazer exercícios sobre Portugal como o que fez.
    É bom mudar de ideias perante resultados novos. É aliás um dos maiores prazeres intelectuais. Mas ainda preciso de algo mais para mudar de ideias sobre o tema que abordou, pois há qualquer coisa nas suas contas que me parece menos acertado. Se estivéssemos ao vivo faria uma ou duas perguntas, mas aqui não dá muito jeito. Todos sabemos que as contas não resolvem tudo mas a verdade é que elevam a discussão para níveis mais interessantes, passando-se da discussão de generalidades para discussões mais concretas. Por isso, parabéns.

  7. Ana Maria Evansa 03 Ago 2009 as 22:13

    Caro Ricardo,

    Um agradecimento:

    Obrigada pelo tempo que dedicaste a estudar esta questão. Aquilo que nos parece simples implicou muitas horas de trabalho.

    Obrigada pela seriedade e transparência com que trataste um assunto que é importante e interessa a todos.

    Obrigada por teres explicado, ponto por ponto, todos os passos que deste para obteres os resultados.
    E, sim, neste âmbito, concordo que a tua missão está cumprida:

    Qualquer estudo científico está sujeito a testes e discussão metodológica. Simplesmente, a partir do momento em que apontas todas as fontes empíricas, a metodologia de referência usada, as fórmulas daí retiradas e o encadeamento do raciocínio, apenas se poderão considerar como científicas e isentas as respostas que façam exactamente o mesmo, i.e. que identifiquem exactamente, passo por passo e com toda a informação empírica, metodológica e etapas de raciocínio, de forma clara e transparente, porque e como divergem nos seus resultados. E isso, sim, requer muitas horas de trabalho, uma grande dose de imparcialidade e humildade, a preocupação única e exclusiva com a tarefa que nos propomos executar e não com questões políticas ou pessoais.

    Por tudo isto e pela oportunidade que me deste de aprender, muito obrigada.
    Ana

  8. Nuno Vaz da Silvaa 06 Ago 2009 as 16:07

    Dado que faltavam algumas palavras no meu comentário anterior, caso possível e de forma a que o texto tenha sentido, agradecia a publicação deste e a eliminação do anterior.

    Caro Professor Ricardo Reis:
    Gostei bastante de ver a sua análise mas permita-me que deixe neste blog duas outras reflexões.
    Tenho verificado um decréscimo das análises por parte de alguns analistas “residentes” neste blog. Não sei se tal se deve ao periodo de férias ou a algum eventual afastamento propositado da análise pública que pode ser comprometedora no espaço temporal que antecede as eleições. De qualquer forma, espero que estejamos dentro da primeira hipótese porque, mais do que nunca, é necessário que este tipo de análises possa ter reflexo na vida politica em Portugal.
    A outra reflexão, diz respeito à eventual criação de um think tank, desafio importantissimo lançado neste blog pelo Senhor Prof. José Girão e que não devia cair em esquecimento por ser um assunto demasiado importante.
    Podemos continuar a fazer as nossas análises e os nossos comentários mas parece-me imprescindível criar um centro idóneo, competente, extra-partidário e extra-lobbies para credibilizar as conclusões e, até, poder orientar os nossos governantes a seguirem estratégias sustentáveis e eficazes ( sem manipulações de dados, conforme a familia politica em que se encontrem no momento ou conforme o estatuto que gozem: de poder ou de oposição).
    Claro que alguns docentes universitários e certos gabinetes de estudo serão afectados no seu “statos quo” porque terão “concorrência” de peso nas suas análises mas, parece-me que isso será um mal menor que deve ser “sacrificado” em prol do interesse público e do progresso do país.