Jul 28 2009

Reacções e respostas

Publicado por Ricardo Reis a 19:03 em Artigos Gerais

O meu artigo de hoje no i sobre a evolução da despesa pública em Portugal—que tem a sua génese num pequeno cálculo que fiz neste blogue há uma semana—tem gerado muitas reacções, pelo menos a avaliar pelos telefonemas que tenho recebido e pelos links que me aponta o google. Entretanto, fica aqui o link para os dados e todas a análise para quem quiser fazer as suas próprias contas: http://www.columbia.edu/~rr2572/i_despesa.zip

Se me permitem, esta semana escrevo mais cedo aqui no blogue para responder brevemente aos principais comentários que descobri. (Actualizarei estas respostas na caixa de comentários, se me enviarem outras reacções.)

1) Tem toda a razão Patinha Antão do PSD: esperaria que o crescimento imparável do Estado, independentemente de quem está no governo, e com os défices a serem corrigidos aumentando os impostos em vez de cortar as despesas, estivesse acima de quezílias partidárias.  O propósito da a comparação PS/PSD foi acabar com a ideia de que, por se eleger este ou aquele partido, se resolve a questão do crescimento do consumo público.

2) Tem razão João Tiago Silveira (aqui, aqui ou aqui) do PS quando se congratula com o sucesso do governo Sócrates a controlar o monstro, pelo menos até ao fim de 2008. Não tem razão quando acusa Manuela Ferreira Leite: o grande crescimento no consumo público vem mais tarde, durante o governo de Santana Lopes (como eu escrevi no artigo original).

3) Tem razão o Sr. Loureiro: na comparação entre PS e PSD, o facto que eu retive e que me parece mais importante foi que o Estado cresce sempre, esteja quem estiver no poder.

Actualização (29 de Julho):

4) A resposta do Dr. Miguel Frasquilho é boa, séria, e merece respeito (aqui no i). Ele olha para uma parcela das despesas, e nota que em relação a essa parcela o aumento é maior com o PS do que com o PSD. (Não tenho tempo de confirmar os cálculos, mas confio que estejam certos.) Confirma precisamente a reacção inicial da Maria Teresa Mónica e do José António Girão aqui no blogue da sedes: a diferença entre PS e PSD não está no tamanho da despesa pública ou do monstro, mas antes na sua composição.

5) A discussão entre o José Gomes André, o Jorge Assunção, e o Carlos Santos é a um nível excelente. Não tenho nada a acrescentar para além do meu agradecimento.

6) Ao Miguel Baião dos Santos aqui em baixo nos comentários: as suas sugestões são óptimas. Se tivesse mais tempo, faria muito do que sugere. Já agora, para os alunos de mestrado que lêem este blogue, este parece-me um óptimo tópico para uma (ou mesmo várias) teses. Uma ressalva no entanto: não temos assim tantos dados, pelo que se introduzimos demasiadas condicionantes, acabamos por não poder tirar conclusõs nenhumas.

Acabo aqui esta discussão, da minha parte. Outros afazeres exigem a minha atenção. Obrigado a todos os que quiseram ter uma discussão civilizada e estão tão curiosos como eu sobre estes assuntos.  Quanto aos aproveitamentos políticos—se fossem eles a impedir as reflexões sobre o país, então nunca faríamos reflexão nenhuma.

10 comentários até agora

10 Comentários para “Reacções e respostas”

  1. Paulo Ma 28 Jul 2009 as 19:21

    Já perguntei noutro comentário e volto a perguntar ao autor do estudo.

    Porquê que o cálculo é feito sem ajustar ao ciclo? E à sua volatilidade?

    E já agora, aconselho o autor a ler os trabalhos publicados sobre o assunto. Em especial este:

    http://infoeuropa.eurocid.pt/opac/XF8XXRABXAB8H6B17SKIL4C1BT8B15IBSM3SEYL56HMNC9XL6N-13500?func=service&doc_library=CIE01&doc_number=000038057&line_number=0001&service_type=MEDIA

    Obrigado.

    PS Não concordo com a sua metodologia pois não me parece normal estimar crescimentos da despesa sem ajustar ao ciclo. As razões parecem-me evidentes.

  2. Ricardo Reisa 28 Jul 2009 as 20:13

    Caro Paulo,
    Ha um ajusto ao ciclo. Veja o programa no link acima, ou leia o artigo do jornal (link acima tambem) quando falo sobre ajustar o crescimento ao estado da economia ou quando comparo PS e PSD “para além do efeito das variáveis económicas”.
    Mas ja’ agora, nao, nao e obvio para mim que seja essencial controlar o ciclo qando estamos a falar de tendencias. Mas nao vou discutir econometria neste forum.

  3. Paulo Ma 28 Jul 2009 as 20:49

    Caro Ricardo,

    Peço desculpa, mas eu não encontro nenhum ajustamento ao ciclo. E os meus cálculos são bem diferentes dos seus, usando a sua metodologia inclusivé. (Já outro comentador chamou-lhe à atenção para os seus dúbios cálculos.)

    Por outro lado, como o Ricardo não discute econometria no fórum eu também posso apreciar o seu estudo, já que se tornou público. E poderia até chamar à atenção do meu caro Ricardo para os chamados truques contabilísticos (como desviar despesa do dito consumo público para as ditas transferências) que destroem qualquer credibilidade ao seu estudo. Quer um exemplo? Transferir os custos do SNS para empresas e sair do tal consumo público, que o meu caro Ricardo calculou. Ou usar fundações de direito privado até para fugir ao controlo do TC. Está a ver como o seu estudo é fraco?

    Mas pronto. Eu não quero ser estrela pública nem dar entrevistas aos jornais. Apenas tenho gosto pelo tema e pelas coisas públicas. Mas os simplismos empiricos por vezes toldam os raciocínios. Apenas e só.

    Respeitosamente.

  4. Ricardo Reisa 28 Jul 2009 as 21:39

    Caro Paulo,
    Ajustamento ao ciclo: veja as linhas 20, 21, 34, 42, 50, 60 do programa, assim como todos os comentarios que fiz a volta dessas linhas.
    Nao discuto aqui a teoria econometrica de se se deve ajustar para o ciclo quando se estima uma tendencia. Acho que e’ um tema demasiado tecnico para este forum. E como nao sei o seu perfil e conhecimentos, nao vejo como e’ que podiamos ter essa discussao aqui.
    Quanto aos seus comentarios apreciativos a meu respeito: “seus dubios calculos”, “o seu estudo e’ fraco”, “nao quero ser estrela”, “toldam os raciocinios”; nao me parece que sejam muito educados ou de bom tom.

  5. Paulo Ma 28 Jul 2009 as 23:12

    Caro Ricardo Reis,

    Quanto ao ajustamento do ciclo, pelo que acedi, não encontrei nada que me permita aferir que ajustou ao ciclo. Mas deve ser defeito meu.

    Quanto às críticas, elas são ao seu estudo. No tal processo que é saudável de dispor aos demais a critica e escrutinio dos estudos publicados. Se os toma como pessoais o problema não é meu. Eu quando erro e me apontam os eventuais o erros, costumo ser humilde em demonstrar os meus cálculos, para que quem critica o meu trabalho possa desfazer dúvidas. Se o caro Ricardo estava à espera que eu deixasse de apontar as falhas que eu penso que tem o seu estudo e as acusa como críticas pessoais, isso é um problema que terá de resolver com o seu ego. Eu apontei apenas críticas ao seu trabalho. Podem ser injustas e até serem criticas de quem não compreende as suas metodologias mas são criticas honestas. Ao seu trabalho. Mas penso até que está a vitimizar-se perante quem aponta críticas ao seu trabalho e indirectamente ainda tem a desfaçatez de negar-se a debater só porque tem dúvidas sobre os conhecimentos de quem lhe põe as questões. E de quem duvida das suas metodologias e até resultados nos cálculos efectuados. Mas isso é problema seu, não meu.

    Peço que compreenda que não voltarei a debater consigo este assunto. Apenas registo que o amigo Ricardo publicou um artigo e considera criticas ao trabalho como criticas pessoais. Mas se tivesse tido a preocupação de ter feito o respectivo peer review antes de sentir acossado pessoalmente, provavelmente não sentiria essa mágoa pessoal.

    Mas continue a publicar os seus estudos que eu vou lendo pelos jornais.

    Cumprimentos.

  6. Miguel Baião dos Santosa 29 Jul 2009 as 8:56

    Não querendo colocar em questão a metodologia para este estudo, pois trata-se de um mero cálculo baseado em meta-teorias econométricas seleccionadas pelo autor, julgo que seria interessante, simplesmente por questões de justiça histórica, ter em conta outras variáveis. Porque não fazer um estudo comparado, introduzindo, por exemplo:

    . a variável tempo duração de cada governo;
    . o tempo de governo assumido por cada partido;
    . a introdução física do Euro em 2002;
    . o racio do consumo público/PIB antes de transferências do estado;
    . o índice de Gini no início e no fim de cada Governo.

    Possivel e inevitavelmente os resultados seriam bem diferentes e as inerentes interpretações seriam mais justas e esclarecedores para os portugueses, ao invés de se tornarem, como sucede com o presente artigo, uma arma de arremesso e de desespero político do actual governo.

    Com os meus melhores cumprimentos

  7. Vascoa 29 Jul 2009 as 9:54

    “Mas pronto. Eu não quero ser estrela pública nem dar entrevistas aos jornais.” Paulo M.

    Se isto não é um ataque pessoal, o que é então um ataque pessoal?!

  8. Pedro Condea 29 Jul 2009 as 11:38

    Penso que as questões técnicas já foram discutidas e concorde-se ou não Ricardo Reis explicou o método que utilizou.
    Também de referir que no artigo do i se notou que Ricardo Reis tinha incorporado algumas das sugestões aqui deixadas como comentários ao seu primeiro post.
    O problema é que, sendo os indicadores discutíveis, eles permitem um aproveitamento político e uma discussão sobre a sua adequação à realidade quando estamos em pleno período eleitoral.
    Por isso uma questão se coloca, Ricardo Reis foi inocente (e não o deveria ter sido) ou pretendia que este artigo tivesse impacto político? Não há qualquer problema em ter um artigo de impacto politico desde que o autor ou a publicação assim o assumam. Um bom exemplo disso é Angel Belloso, director da Actualidad Económica e que tem uma coluna de opinião semanal no i e que faz questão de dizer que a sua opinião é condicionada pelo seu posicionamento político.

  9. José Gomes Andréa 29 Jul 2009 as 23:28

    Obrigado pela referência ao meu modesto contributo (crítico, mas sobretudo “questionante”). Parabéns pelo artigo e continuação de bom trabalho.

  10. [...] Percebo que muitas pessoas queiram questionar as minhas conclusões. Há muito a discutir e a melhorar, e não foi nunca minha intenção escrever a última palavra no tópico. Fico contente por ver muitas das críticas, com oja referi noutr post. [...]