Jul 22 2009

O FACTOR SEDES

Publicado por VB a 14:36 em Artigos Gerais

Agradeço ao Paulo Sande as imerecidas palavras do post que generosamente me dedicou e a todos os que se associaram com comentários de felicitações.

Considero uma honra a nomeação de que fui alvo, quer porque respeito muito as instituições do Estado, quer pela admiração e respeito pessoal que tenho por quem a fez e que foi meu director no primeiro emprego que tive como economista (apesar de já trabalhar desde os 17 anos). E estou convencido, embora não tenha nenhum elemento de prova objectiva, de que o factor SEDES (como lhe chamou o Paulo) pesou na escolha. Afinal foi na SEDES, e através da SEDES, que a minha intervenção cívica se tornou mais activa e mais notada. E, sendo assim, haverá nesta escolha, pelo menos implicitamente, muito mérito reconhecido à SEDES. Eu, pelo menos, assim penso. Faz parte das minha convicções fundamentais o entendimento de que o homem é um ser ontologicamente social e que, como tal, as suas pertenças fazem parte determinante daquilo que é, e de como é.

Considero que a SEDES é uma instituição fundamental para a vida cívica portuguesa. E gostaria que este juízo não se viesse a confinar apenas ao seu passado. É dever de todos nós, associados, e de todos os que lhe reconhecem essa importância, assegurar a sua continuidade e a sua vitalidade. Apesar de os partidos serem, indiscutivelmente, o pilar fundamental de uma democracia representativa, nenhuma democracia conseguiu assegurar o desenvolvimento harmonioso de uma sociedade, sem estar apoiada numa sociedade civil activa e pujante.

Assumo esta responsabilidade como mais um serviço cívico e, nesse sentido, é uma extensão do que sempre tenho feito na SEDES. Não tenho, mas não tenho mesmo, ambições políticas. Já as tive e também já tive a oportunidade de as concretizar. Os tempos de ambas não coincidiram e as trajectórias divergiram. As primeiras acabaram e as segundas perderam, por isso, o objecto. Penso hoje que os lugares políticos – e os do Governo mais que todos – serão melhor servidos, pela sua natureza, se forem desempenhados por políticos e não por técnicos. Assim como penso que a recíproca também é verdadeira e deveria ser muito mais respeitada, a bem de todos nós. Quando servi o Estado, como alto dirigente da Administração Pública, trabalhei com um governo do PSD e com outro do PS. Com ambos me dei bem e em ambos estabeleci amizades, e respeitos recíprocos, que perduram (excepto num caso porque, infelizmente, o Destino levou cedo de mais quem ainda muito poderia ter dado). E a receita para esse resultado foi o respeito recíproco pelo campo de acção de cada um: sempre me foi reconhecida a liberdade de dirigir os meus serviços técnicos como achava mais apropriado, e eu, não só nunca interferi nas escolhas politicas, que não eram da minha competência, como pus o meu zelo na execução dessas escolhas, desde que devidamente legitimadas e conformadas com o Direito.

E quando reconheço erros na actuação desses governos, e mesmo dos seus protagonistas particulares com quem trabalhei, nunca isso interfere no respeito e amizade que por eles continuo a nutrir. Aliás, sobre esta matéria gostaria de referir uma coisa que me parece importante em termos da governação do País. Tenho sido muito critico da gestão das finanças públicas em Portugal e considero mesmo que este é um grave problema crónico da nossa governação. Conheço (ou conheci) praticamente todos os Ministros das Finanças dos governos constitucionais e a todos tenho por pessoas de bem e que procuraram fazer o melhor que puderam ou souberam. No entanto e salvo ocasionais episódios de moderação – mais por imposição externa do que por escolha interna – a gestão das finanças públicas tem prosseguido um caminho geral de descontrolo. Porque o problema não está nas pessoas, está nas instituições. Só reformando estas, no sentido de limitar o potencial de estragos que cada um pode cometer, se poderá controlar o problema.

Tendo esclarecido a questão das ambições políticas, posso todos tranquilizar de que algumas elucubrações conspirativas, ainda que bem intencionadas, que vi num ou noutro blog, não têm qualquer sentido e não passam de interessantes exercícios da imaginação.

Continuarei civicamente activo, mas desalinhado como sempre fui (apesar dos denodados esforços para me catalogarem). Aliás, o único apelo que sinto para me manter civicamente activo, é porque tenho uma filha e sinto a responsabilidade de lhe legar um mundo onde ela disponha da liberdade necessária para fazer as suas escolhas. E isso pressupõe, entre outras coisas, uma economia sã e sem evitáveis constrangimentos.

Por fim, não posso deixar de confessar que me entristeceu muito do que sobre esta escolha vi escrito a meu respeito em alguns blogs e comentários (apesar de politicamente circunscritos). Não tanto por mim – que já me habituei a criar carapaça pessoal contra estas coisas – mas pela comunidade que somos e pela pobreza de espírito cívico que isso representa. E que só serve para confirmar uma tese que de há muito sustento (já lhe chamei a “lei VB”) e que se aplica a todos os campos (desde a comunicação à economia): sem regras e sem árbitros, a livre competição conduz ao contínuo rebaixamento do padrão ético do jogo.

É a vida.

Um comentário até agora

Um comentário para “O FACTOR SEDES”

  1. BMonteiroa 22 Jul 2009 as 18:36

    Duas sugestões:
    Promover no CE um dia por ano, para análise da marcha da Sociedade, Estado e Governo em exercício.
    Alargar esse dia, a uma ou duas dezenas de dirigentes do mundo do trabalho/empresarial, para participarem nessa acção – auscultação do mundo real, com a visão de quem está por fora das ocupações e rotinas da administração do Estado, com a inerente disponibilidade mental e visão do exterior.
    Não será a constituição de um Conselho Estratégico Nacional, conforme proposto há muito pelo general Loureiro dos Santos, mas talvez ajudasse.