Jul 21 2009

Dizer não a dinheiro “sujo”

Foi há cerca de duas semanas que as Organizações Não Governamentais de Ambiente (ONGA) portuguesas emitiram um comunicado rejeitando a utilização do Fundo EDP Biodiversidade 2009 enquanto “persistirem na mentira de que as grandes barragens constituem um benefício para a Protecção da Natureza.”. Evidentemente, a razão apontada para esta rejeição é o Programa Nacional de Barragens com Elevado Potencial Hidroeléctrico, aprovado apesar das fortes críticas destas associações. O episódio mostra um problema típico das empresas que querem vestir a camisola da sustentabilidade mas que não interiorizaram o conflito entre a sustentabilidade, nas suas múltiplas dimensões, e o seu modelo de negócio, conflito esse que numa empresa produtora de electricidade é bastante evidente. O problema é que por mais esforços que a EDP tenha feito em mudar a sua imagem, com campanhas publicitárias que apelam para a preservação do planeta e distribuição de lâmpadas com menor consumo energético, o seu negócio é vender energia. Ora o consumo de energia é precisamente uma das mais exigentes facetas da actividade humana em termos do seu peso na utilização de recursos, sobretudo em países desenvolvidos. No caso das Grandes Barragens, surgem pelo menos dois impactos ambientais contraditórios: um positivo, relacionado com a ausência de emissões de gases com efeito de estufa, e um negativo, que é a destruição total dos ecossistemas ribeirinhos (já agora, a criação de lagos artificiais que os seres humanos acham bonitos e onde podem andar passear, em barco a remos ou mota de água, não é de forma nenhuma um impacto ambiental positivo no sentido rigoroso da expressão!!!)
Em qualquer caso, apoiar ou não a construção de novas barragens é sempre um exercício complicado. Num país como Portugal, em que uma boa parte do potencial hidroeléctrico está aproveitada e onde rareiam as zonas ribeirinhas em regime natural, é natural que o valor destas em termos da biodiversidade seja considerada pelas ONGA como superior ao potencial benefício de redução de emissões. Acresce que a biodiversidade (e a preservação de espécies e ecossistemas de que é indissociável) é um dos aspectos em que Portugal menos tem progredido (ver http://www.sedes.pt/blog/?p=1277). Mais, todos sabemos que depois de um forte investimento em capacidade instalada, com infra-estruturas como barragens que têm custos fixos elevados e custos variáveis relativamente reduzidos, a estratégia rentável será sempre vender o eventual excesso de produção de energia, ainda que a um preço baixo. Isto vai exactamente no sentido contrário do desejado, especialmente se considerarmos a apropriação dos recursos naturais não só em termos imediatos mas também olhando para a trajectória. O preço da energia tem de subir para dar o sinal correcto. O PNBEPH é, claramente, um movimento na direcção errada. Não admira que o “Canal ONGA” no site da EDP esteja às moscas…
Uma observação final é que não basta perguntar o que fazem as barragens às alterações climáticas, é preciso ver também o que as alterações climáticas podem fazer às barragens…alguém fez uma análise de viabilidade destas barragens face às variações de precipitação e escoamento que estão previstas na Península Ibérica (e que podem chegar a uma descida de 50% nalgumas bacias hidrográficas)? Vai haver água para assegurar um fluxo suficiente para uma produção rentável? O caso do PNBEPH até vem destacado num recente relatório internacional da WWF sobre a utilização da água…
O que as empresas têm que perceber é que o mais certo é haver conflitos entre diferentes objectivos ambientais, e entre estes e os objectivos financeiros. Não basta gastar dinheiro em marketing, como quem atira poeira para os olhos das pessoas, para os problemas desaparecerem. A sustentabilidade é um desafio para todos nós. Ninguém disse que era fácil.

3 comentários até agora

3 Comentários para “Dizer não a dinheiro “sujo””

  1. Maria Teresa Monicaa 23 Jul 2009 as 22:34

    Catarina

    Felicito-a pelos seus post, e especialmente por este, por chamar a atenção para a importância da água, provalvelmente um bem cada vez mais escasso que poderá dar origem a guerras imprevisíveis neste momento.

    Face ao por si exposto, será que é legítimo pensar que a opção por salvar as pinturas rupestres em detrimento de uma grande barragem foi certa? Eu, apesar de circular na área da cultura, sempre pensei que a água era mais importante do que os projectos megalómanos iniciados de Manuel Carrilho quando foi ministro da Cultura, que aliás, para além da salvaguarda das pinturas, deram muito pouco fruto. Até porque a opção foi posta de forma dramática, tipo luta entre a civilização e a barbárie, pouco consentânea com uma serena e equilibrada análise da questão.

  2. José Sáa 29 Jul 2009 as 14:06

    Sou obrigado a fazer uma correcção ao texto inicial. A afirmação:

    “No caso das Grandes Barragens, surgem pelo menos dois impactos ambientais contraditórios: um positivo, relacionado com a ausência de emissões de gases com efeito de estufa”

    É efectivamente uma afirmação que, apesar de largamente difundida e utilizada, não tem fundamento cientifico. Ainda estão por estudar e avaliar as emissões de gases de efeito de estufa pela esmagadora maioria das albufeiras e lagos.

    Estudos recentes apontam alguns casos em que o efeito de estufa associado a algumas albufeiras excede o que resultaria se para se obter essa energia se recorresse à queima de combustiveis fosseis.

    Apesar de parecer estranho, é na realidade simples. A decomposição da matéria orgânica, na zona anóxica das albufeiras, gera metano, e não dióxido de carbono. O metano, como é sabido, tem um efeito de estufa muito superior ao dioxido de carbono.

    No caso das albufeiras portuguesas, nomeadamente durante a estratificação estival, existem todas as condições para uma intensa produção de metano.
    A produtividade primária elevada, associada a uma reduzida estrutura ecológica, leva a que uma grande quantidade de matéria orgânica se deposite, sob a forma de vaza, no fundo. Em presença de condições metanogenicas, esta converte-se em metano, que se liberta na forma de bolhas ou por difusão, para a atmosfera.

    Numa altura em que a necessidade de investimento publico depara com uma crassa falta de imaginação nas formas de o tornar produtivo e reprodutivo, esta seria sem duvida uma área a investigar. Poderia até surgir a possibilidade de obter energia da queima deste metano…

  3. Catarina Rosetaa 15 Ago 2009 as 17:14

    Agradeço a correcção, muitíssimo pertinente. A existência de emissões devidas à decomposição de matéria orgânica nas albufeiras, sendo muito dependente das condições climáticas e mesmo, julgo, morfológicas de cada albufeira, é uma questão que exige estudos urgentes de quantificação, especialmente no nosso contexto actual em que o PNBEPH ainda poderia talvez ser travado por um próximo governo. No entanto, como essas emissões ainda não entram nos cálculos dos totais e como a hidroeléctrica conta para os targets de “renováveis”, que o actual governo tem aumentado unilateralmente (ie. sem ser por exigência da UE), quiçá para “branquear” o dito PNBEPH…tenho pouca esperança, seja qual for o resultado das eleições. Enfim, isto é um desabafo.