Jul 20 2009

VOODOO ECONOMICS

Publicado por VB a 18:09 em Artigos Gerais

Quando, na disputa presidencial americana de 1980, Reagan se propôs (entre outras coisas) aumentar as receitas fiscais através da redução das taxas de imposto, (baseando-se na então célebre “curva de Laffer”), George Bush (pai), seu principal opositor nas primárias republicana, qualificou tal proposta de voodoo economics, epíteto que ficou célebre. Só para registo, Reagan elevou a dívida pública dos EUA de 700 biliões de dólares para 3 triliões (numeração americana) e tornou o país de credor internacional em devedor internacional.

Malacomparado” (como dizem os meus conterrâneos), lembrei-me deste episódio a propósito de uma página que o Diário Económico hoje dedica à RAVE e à “divulgação” dos seus projectos do TGV e da associada Terceira Travessia do Tejo (TTT). Mesmo descontando o propósito do exercício, o conteúdo da “divulgação” tem informações interessantes.

Assim e quanto à TTT, fica-se a saber que “‘o projecto não apresenta rentabilidade financeira’ por si só, quer na componente rodoviária, quer na ferroviária, gerando um prejuízo previsível de mil milhões de euros”. No entanto – surprise! – este prejuízo financeiro é transformado numa “taxa interna de rentabilidade económica (TIRE) de 20.47% [!!] e um valor actualizado líquido económico (VALE) de 9.8 mil milhões de euros”. Como?! Ahah, “pelos benefícios obtidos com a redução do tempo médio de viagem das travessias sobre o Tejo, pela redução dos custos operacionais dos carros que dessa forma se consegue e pelo impacto positivo em termos ambientais”. E mais: com “O aumento de produtividade [?!], a criação de mais 3.800 empregos na fase de construção e de 163 na fase de operação, assim como o facto de potenciar o transporte ferroviário de mercadorias”.

Ou seja, as componentes objectivas do projecto dão um prejuízo financeiro de mil milhões de euros, mas as componentes da mais pura e arbitrária subjectividade dão um benefício “económico” de 11 mil milhões. Com este método, há algum projecto que alguma vez dê prejuízo?! Só me surpreende a modéstia, e o desamor ao País, de quem, perante uma rentabilidade económica de 20.5% e uma economia com tão baixo potencial de crescimento económico, apenas queira construir uma ponte e não duas ou três!

Por sua vez e no que se refere ao TGV Lisboa-Madrid “Em termos financeiros, esta análise custo-benefício indica que este troço vai gerar uma taxa de rentabilidade de 2.2% [!!] que é a remuneração do capital investido” (?!). No entanto, aqui o “valor económico” é mais modesto e apenas consegue uma TIRE de 5.75% (ou, se o método for igual ao anterior, imagine-se o “esforço” imaginativo para conseguir este valor) .

Com estas contas e fundamentações, ainda há quem tenha dúvidas porque é que, nos últimos 10 anos, Portugal apresentou a mais baixa eficiência marginal do capital de toda a Europa e porque é que, tendo investido mais do que a média, temos o mais baixo potencial de crescimento? And it goes on and on

13 Comentários para “VOODOO ECONOMICS”

  1. José António Girãoa 21 Jul 2009 as 14:29

    Caro Vitor:

    Parabéns pela oportunidade de mais esta sua contribuição, mas também pela excelente caracterização do tipo de análise económica a que os “excelentes consultores de serviço” do governo nos vêm habituando: Voodoo Economics”. É isso mesmo!

    De facto, o nível dos trabalhos em que supostamente se fundamentam as escolhas públicas, atingiu um estado de irracionalidade que só pode ser apelidado de demência (É preciso não ter medo dos termos!). Mais grave ainda, é que tudo isto passa impunemente na comunicação social, sem que seja denunciado e criticado. Oh santa ignorância! Será que já não se ensina nas disciplinas de análise e avaliação de projectos que no cálculo dos custos e benefícios dos mesmos só entram os chamados directos e os indirectos de 1º nível, mas não os de nível superior, face ao grau de subjectividade de saber onde parar? Aparentemente para os “consultores de serviço” devem ser contabilizados todos os que for possível imaginar! O limite é a imaginação: Voodoo Economics! Excelente!

    Face a isto, há ainda governantes que dizem estarem feitos os estudos necessários para fundamentar as escolhas e que só resta decidir. Será que acreditam mesmo nisso? Se sim, onde estão as elites deste País? Se não, onde está a sociedade civil? Precisamos urgentemente de uma cidadania activa!

  2. Maria Teresa Monicaa 21 Jul 2009 as 18:17

    No estado desesperado em que estou, já me contentava com um pouco de pundonor na esfera governativa e alguma racionalidade na oposição em geral.

    Felizmente ainda há quem nos alerte para os desmandos, como o autor do post e o 1º comentarista, a que agora também somo o Guilherme Oliveira Martins com a denúncia, enquanto Presidente do Tribunal de Contas, do negócio ruinoso para os interesses estatais da negociata dos contentores. E, já que falo neste assunto da vida ribeirinha, não posso deixar de agradecer ao Miguel Sousa Tavares ter-me alertado para a necessidade de um abaixo-assinado que assinei com todo o gosto.

    O problema não é ignorância ou deficiente formação económica. O problema é termos um ministro das Obras Públicas que jamais se demitirá ou será demitido.

  3. Ricardo Arrojaa 22 Jul 2009 as 11:50

    Caro Vítor Bento,

    Parabéns pela lucidez da sua análise e pelo magnífico livro que escreveu recentemente, que confirmou toda a admiração que desde há muito tenho por si.

    Cumprimentos.

  4. Egas Salgueiroa 22 Jul 2009 as 13:31

    Convém lembrar que a actual líder do PSD assinou um acordo com Espanha que previa, não uma mas 3 linhas 3 de AV com o país vizinho; a Dra. Ferreira Leite vem agora dizer que não conhece os estudos CB da AV. Em que estudos se baseava para assinar o que assinou?
    Não tenho grande esperança que um Governo desta oposição altere alguma coisa quanto às mega obras públicas e à convivência entre Governo e grandes empreiteiros. Talvez substitua a Mota/Engil pela Opway. Talvez nem isso.

  5. VBa 22 Jul 2009 as 18:12

    Caro Egas,

    Eu percebo que este assunto – o da discussão das chamadas “grandes obras públicas” – já está demasiado inquinado politicamente e que, por mais esforço que se faça para o tirar nesse terreno, é muito forte a tendência para querer alinhar as opiniões na dicotomia governo/oposição. O governo, ou os seus mais fervorosos guardiões, talvez acabem por ser o principal responsável por isso, por assumirem para si todas as dores dos projectos, fazendo esquecer que muitos já vêm de trás e que, portanto, a responsabilidade política por essa agenda é muito mais distribuída do que acabam por deixa parecer.
    Pela parte que me toca, deixe-me esclarecer o seguinte. Nesta discussão, o papel do governo (de turno) só me interessa porque é ele que tem o poder de execução e, como tal, é sobre ele que incide a responsabilidade de fazer ou não fazer. Quanto ao mais, não atribuo nenhuma conotação política particular ao assunto e sei que, fosse outra a cor política a governar (e tendo em conta o que foi feito e/ou aprovado no passado), continuaria elevada a probabilidade de a mesma discussão estar em cima da mesa. É possível que, nessas circunstâncias, houvesse mudanças de campo na discussão. Pela minha parte, estou certo de que estaria no mesmo campo.
    É verdade que quando se aprovaram as quatro linhas de TGV não me pronunciei publicamente sobre o assunto. Não o fiz, não porque concordasse com a solução (que sempre achei estranha), mas simplesmente porque não tinha a minha atenção suficientemente desperta para o assunto (aliás, do que me lembro, parece-me que havia consenso básico quanto ao tema e divergência apenas na forma de fazer as ligações).
    Aliás, eu não tenho nenhum problema com nenhuma das obras em particular, de per se, nem com a sua utilidade. Tenho apenas um problema geral com todas. A economia está perante uma séria restrição orçamental que limita muito os recursos que poderá mobilizar. Nesse contexto, insistir nessas obras é contraproducente porque vai esgotar recursos sem criar capacidade reprodutiva em tempo útil para lidar com os constrangimentos desse esgotamento. A sua rentabilidade económica é (quando muito) justificável num horizonte de 40 anos e nós não podemos esperar 40 anos para aumentar o nosso potencial de crescimento e, sobretudo, para deslocar a nossa produção do sector não-transaccionável para o sector transaccionável. Por isso há que estabelecer prioridades, fazer escolhas, centrar no absolutamente essencial e gerir as aspirações no tempo. Fosse outro o contexto, de maior desafogo económico e financeiro, e é pouco provável que a discussão tivesse aquecido como aqueceu.

  6. GLORIOSO SLBa 22 Jul 2009 as 18:36

    “o projecto não apresenta rentabilidade financeira’ por si só, quer na componente rodoviária, quer na ferroviária, gerando um prejuízo previsível de mil milhões de euros”

    mesmo com as portagens?

  7. Amilcar Gomes da Silvaa 23 Jul 2009 as 12:50

    Caro Vitor Bento

    Espanta-me a sua tese contra a 3ª travessia baseada no Voodoo economics, porque governar é decidir numa perspectiva de um dado futuro. Portanto qualquer decisão de investimento tem riscos e percepções subjectivas. Mesmo com análises e estudos profundos as ferramentas para definições de estratégias são apostas em determinado cenário e não ciência exacta. Como empresário surpreende-me essa sua análise. Os políticos servem exactamente para tomar decisões políticas e não tecnocráticas. Respondem por quem os elegeu. Nada pior para o país, que os refugiados na análise “objectiva” que têm posições totalmente políticas, mas não as assumem nem vão a escrutínio por elas. Pior iria o país e a nossa economia, se nas empresas, principalmente nas nossas, se se investisse somente com base na objectividade. Qualquer empresário sabe que o feeling e visão do futuro são determinantes no sucesso dos investimentos.
    Já agora é no mínimo curiosa, a sua explicação porque não tomou posição sobre as cinco linhas de TGV, quando o país estava de “tanga”. Olhe que foi bem polémico na altura. Ao contrário de agora que bastante interventivo está. E ainda bem. Convinha era assumir uma posição política e não tecnocrática, agora que até é conselheiro de Estado.

  8. VBa 23 Jul 2009 as 23:18

    Caro Amílcar Gomes da Silva,

    Espanta-me (peço desculpa por o repetir, mas não encontro melhor expressão) que me diga que os empresários investem sem fazer contas. Compreendo o papel importante do feeling e da visão nos processos de decisão, mas estranho que se tomem decisões fundamentais de investimento sem fazer contas. Sei que há muita gente que joga na lotaria, muitas vezes baseado numa “fézada”, uns tendo sorte, outros não. Mas gestão creio ser mais do que isso.

    Também concordo que os políticos servem para tomar posições políticas e não tencocráticas, como diz. Eu frasearia a ideia de outra maneira: os políticos decidem com base em funções de preferência, que são políticas (e não técnicas) por natureza e que, por essa mesma natureza, as funções de preferência não são comparáveis objectivamente. Mas as consequências dessas escolhas podem ser comparadas objectivamente (ainda que ser valaoradas diferentemente). Agora, o que não devem - e aqui falamos de um critério ético objectivo - é iludir as consequências tencicamente objectivas das escolhas. Ilustrando melhor, com um exemplo (totalmente arbitrário): decidir assumir um défice orçamental de 5%, em vez de 1%, é uma escolha política perfeitamente legítima (se respeitar os processos do Direito aplicável). Mas arranjar artimanhas para fazer parecer esse défice como sendo de 1% é uma fraude política e, como tal, totalmente condenável.

    No caso em apreço, o que me interessa são as consequências económicas das escolhas políticas em causa. E do que estou absolutamente convencido é que tais decisões vão contribuir para o aumento do défice e do endividamento externo do País, sem criar capacidade reprodutiva que ajude a tornar sustentável esse endividamento. Foi com escolhas dessa natureza que nos últimos 10 anos, apesar de termos investido mais do que a média europeia, tivémos a mais baixa eficiência marginal do capital e, por isso, temos o mais baixo potencial de crescimento do PIB (menos de 1% ao ano). E o prolongamento desta situação é, económica e socialmente, insustentável. O País precisa urgentemente é de estimular a produção de bens transaccionáveis e é aí que se deve centrar a atenção da política económica. Olhe, por exemplo, o que está a ser feito na área da energia, mesmo que os resultados de curto prazo o possam não justificar, é muito acertado e vai de encontro a esse grande objectivo.

    Compreendo perfeitamente que estranhe, ou não aceite, a minha explicação para o facto de não me ter pronunciado há meia dúzia de anos sobre as linhas de TGV, pois estamos no campo da subjectividade. Apenas posso acrescentar ao que sobre isso já disse, o seguinte: i) ando a alertar para os problemas em que entrou a economia portuguesa, desde 1998 e, desde então, a situação macroeconómica do País só tem piorado (apesar de algumas oscilações anuais); ii) em 2003 (creio que as “5 linhas” devem ser mais ou menos dessa data), a dívida externa líquida do País era de 60% do PIB e hoje é de 100% (sendo, portanto, o problema muito mais agudo); iii) nessa altura estava mais preocupado com os estádios que se estavam (injustificadamente) a construir, do que com um plano que, ao que me lembro, não estava ainda para entrar em execução. Dos estádios, o resultado está à vista: tirando os dos “3 grandes” e, eventualmente, o do Braga, quais são os que se justificam, ou pagam os custos de manutenção? Por favor, tente ver estas referências a datas, apenas do ponto de vista cronológico e sem preocupação de as colorir politicamente, porque esse aspecto, neste contexto da discussão, não me interessa.

    Lamento que lhe não agrade a minha postura “tecnocrática”, como lhe chama, e que preferisse que eu discutisse no terreno político. Mas é apenas no terreno técnico que eu quero discutir este assunto, porque o que me interessa são as consequências económicas (mesmo sabendo que estas, uma vez materializadas e socialmente reflectidas, vão acabar por ser políticas).

    Por fim, gostaria que conseguíssemos manter a discussão apenas no campo das ideias e deixássemos de lado as instituições que não têm nada a ver com isso.

  9. Egas Salgueiroa 24 Jul 2009 as 9:48

    Caro VB:

    Deixe-me esclarecer que, neste assunto, concordo consigo que:

    1 - As grandes obras públicas anunciadas e teimosamente defendidas pelo PM (NAL, TGV) são conjunturalmente arriscadas e necessitam melhor avaliação, mesmo quanto aos pormenores de projecto e de calendário.
    2 - Esta discussão deveria poder ser feita sem ser inquinada pelo extremar de posições partidárias. A questão em si não é ideológica: não se trata de ser contra ou favor de investimento público, em todos os partidos haverá quem defenda ou não estes projectos.

    Infelizmente, o assunto tornou-se central na próxime campanha eleitoral, por culpa de vários intervenientes, notavelmente o PM e MFL. Daí que, neste momento, tomar posições públicas sobre este assunto se arrisca a ser aproveitado como apoio objectivo ao Governo ou à Oposição.

  10. montenegroa 24 Jul 2009 as 17:28

    É o Partogaleco do costume, estamos a falar de obras que demoram 15 a 20 anos a ser concluidas. A Europa, por essa altura, esta noutra, vamos falar, daqui a 30 anos discutimos o que vai ser feito? muitos de nos ja cá não estão.

    Alqueva, tantos anos que se perdeu. Hoje é uma realidade que se traduz em benefício e investimento para os habitantes que lá mora e não só.

    Temos que dobrar o Cabo do Bojador

  11. Ricardo Ba 26 Jul 2009 as 17:49

    Food for thought:

    É muito fácil reduzir de lado as “externalidades” dos estudos a “cosmética económica”. Mas se for a ver, as ditas externalidades são o fundamento de quase todas os gastos públicos.
    Por exemplo, tomemos os casos de coisas como a generalidade das nossas estradas que não têm portagens, do Sistema Nacional de Saúde, do sistema de Ensino, etc.
    Normalmente, não se fazem análises custo/benefício a estes gastos porque é “óbvio” que são necessários. Mas se fizéssemos essa análise sem incluir externalidades, iriamos chegar à conclusão de que são ruinosas para o país: têm custos enormes e geram pouquíssimas receitas.

    Porque é que o fazemos sem questionar? Porque há benefícios sociais e económicos que são “óbvios” mas terrivelmente difíceis de quantificar em euros.

    A questão no caso do comboio de alta velocidade é que nada é “óbvio” e houve uma tentativa de quantificar as externalidades.

  12. VBa 26 Jul 2009 as 20:55

    Caro Ricardo,
    Claro que as externalidades sao muito importantes na avaliacao dos investimentos publicos. Mas, como explica JA Girao mais acima, se nao forem tratadas com muito rigor, as externalidades podem acabar por justificar tudo o que se queira fazer. No caso em apreco quis apenas chamar a atencao para a enormissima desproporcao entre os dados objectivoa e os subjectivos na avaliacao dos projectos em causa. De qualquer forma, a minha preocupacao sobre este tema e de natureza macroeconomica e esta explicada num comentario que deixei mais acima.

    Caro Egas,
    Se me posso atrever num comentario politico, impressiona-me particularmente se tenha enquistado de tal forma nesta materia, rechacando qualquer comentario (mesmo os desalinhados), que acabou por deixar centrar toda a atencao e toda a discussao nos seus erros, descurando assim tudo o que fez certo e de que se poderia orgulhar e deixando engrossar o lote dos que PARECE estarem contra si(sabendo o que as aparencias valem no curto prazo da politica).
    Mas acho que tem toda a razao. E, pela minha parte, tenciono que este meu comentario seja a minha ultima intervencao sobre a materia ate as eleicoes.

  13. Amilcar Gomes da Silvaa 28 Jul 2009 as 14:51

    Caro VB
    Só hoje tive oportunidade de ler o seu comentário ao meu comentário. Pela sua extensão parece que os meus argumentos não eram assim tão displicentes como pretendeu ao afirmar que eu dizia ” que os empresários investem sem fazer contas”. Desculpe mas isto é um político a falar. Eu nunca afirmei que os empresários investem sem fazer contas. Disse e repito “se se investisse somente com base na objectividade”. Está lá a palavra somente, que muda a sua a conclusão.