Jul 06 2009

O IV Congresso da SEDES e o Futuro

   Como é sabido, realizou-se no passado dia 3 de Julho o IV Congresso da Sedes, sobre o lema da “Qualidade da Democracia e o Pós-Crise”. Quanto ao interesse e oportunidade da temática, parece por demais evidente, e a forma como o mesmo decorreu, confirmou as melhores expectativas. Pena é que tão poucos ( em torno de uma centena, presumo) possam ter partilhado da reflexão havida no decurso do dia de trabalhos. Este é para mim o ponto menos positivo que ressalta deste encontro promovido pela Sedes e que, a meu ver, merece uma reflexão aprofundada. Porquê um tão baixo número de participantes, nomeadamente tendo em consideração os temas em debate e estar anunciada a apresentação do estudo sobre ” A qualidade da democracia em Portugal: A perspectiva dos cidadãos”, com base num inquérito patrocinado pela Fundação Luso-Americana e a Intercampus. Embora tenha algumas hipóteses explicativas para a baixa participação, julgo que é a própria organização que detém a maior parte da  informação relevante para empreender essa reflexão, pelo que, pelo menos para já, me absterei de quaisquer interpretações sobre a mesma.

   Numa síntese extremamente sintética (permita-se a redundância) o que me pareceu resultar como grandes conclusões deste Congresso foram as seguintes:

   1. A globalização irá continuar, embora com algumas alterações nas regras que lhe têm estado subjacentes, nomeadamente no que respeita à regulação e supervisão financeiras. Eventualmente estas não serão objecto de tantas modificações quanto algumas vozes reclamam, mas parece claro que nada ficará como antes. Quer a Administração Americana, quer a Europa, para já não falar no G2o, reconhecem que quer os mercados quer os agentes económicos em geral, se não auto-regulam, com consequências que podem ser trágicas, que fazem com que se imponha minimizar as hipóteses de crises da dimensão da actual se repetirem. Daí as propostas existentes com vista a este objectivo e toda a discussão em curso e que se irá prolongar ainda por algum tempo. Mas não parece ousado afirmar que iremos seguramente assistir a reformas proporcionando maior intervenção dos poderes públicos.

   2. Embora os indicadores não permitam ainda conclusões seguras, os mesmos parecem indiciar o “bottom-out” da crise financeira. Já quanto à crise económica ela irá prolongar-se, ainda, por mais algum tempo (face aos “lags” normalmente existentes entre ambas). Não deverá por isso ser antes de 2011 que iremos assistir à retoma generalizada da actividade económica e não antes de 2012 ou mais, que a situação do desemprego poderá melhorar significativamente. Entretanto iremos seguramente assistir à emergência de alterações significativas ao nível dos fluxos economico-financeiros de âmbito internacional.

   3. Passando para o nível doméstico, a grande conclusão é a de que obviamente o País não escapou (nem podia escapar!) às crises globais e de extrema violência, que todos os países vêm enfrentando.Mas não houve nenhuma voz discordante da visão de que existe em Portugal uma crise estrutural que de há muito nos afecta – já anterior à nossa adesão à UE - a qual temos vindo a contornar por várias vias, incluindo, mais recentemente, através do recurso a um nível de endividamento externo sem precedente. O problema é que estamos a atingir o limite das várias alternativas possíveis. Daí que, com o fim da crise global, fiquemos uma vez mais confrontados com a dimensão da nossa crise estrutural, resultante, basicamente da nossa falta de competitividade e do excesso de procura interna. Enfrentamos, assim,um típico e grave problemade oferta. Como aumentar esta é, pois, o grande desafio que se nos coloca; a alternativa é um sério “apertar de cinto”: reduçãoda procura interna (consumo e/ou investimento), já que há que travar o recurso ao endividamento externo. Os números são dramáticos: o custo com o serviço da nossa dívida externa anda já pelos 5% do PIB. Quere isto dizer que esta percentagem da riqueza anualmente criada pelo País tem de ser transferida para o exterior, só para honrarmos os nossos compromissos externos! Poderá haver algum português responsável que não esteja alarmado com a dimensão e urgência do problema?

   4. A grande questão é saber com que políticas enfrentar e mais eficazmente conseguir resolver o problema. É aqui que podem existir (e existem!) vozes alternativas, como ficou claro no grupo de trabalho organizado sobre o “Novo Contexto Económico”. Com efeito, os problemas de oferta são tipicamente de longo prazo, embora a sua solução não possa esquecer a dimensão conjuntural (” no longo prazo estaremos todos mortos”). Em síntese, a sua solução implica maior eficiência na transformação dos factores produtivos em output; i.e., na linguagem económica, a deslocação da função de produção. Basicamente isto consegue-se com  maior qualificação do factor trabalho, do aumento da produtividade do investimento (i.e., melhoria (redução) do rácio capital/output), mas fundamentalmente com mais inovação. Como alcançar este desiderato da forma mais eficiente é a grande interrogação que urge debater. Mas debater numa base técnica, i.e., com base em estudos sérios e aprofundados; não em termos opinativos, como vem sendo hábito em Portugal, nomeadamente em mesas redondas, muitas vezes organizadas pelos “media”, onde se coloca em pé de igualdade os resultados de estudos sérios e reflexões fundamentadas, com “opiniões” de comentadores pouco (ou nada) qualificados.

   É com base em tudo o que precede que para mim resultou como conclusão última deste Congresso da Sedes, que que esta instituição, com os atributos e responsabilidade e credibilidade que lhe assistem, deveria evoluir no sentido de criar um Centro de Estudos da problemática com que o País se confronta em diferentes domínios relevantes: institucionais, da justiça, reforma do sistema político, educação, económico, etc., como ficou patente nos debates ao longo do dia.

    Dir-se-á que é um salto audacioso. Será, mas como também ficou claro, é disso que o País necessita. Os cidadãos estão profundamente insatisfeitos com a qualidade da democracia existente (embora reconheçam que ela se encontra enraizada), como o inquérito apresentado revela! E não há razão para que Portugal não disponha de um único “think tank” credível de análise da problemática do País, à semelhança do que acontece em praticamente todos os países respeitados e com voz credível na cena internacional.

   É esta a minha principal conclusão e o desafio que aqui deixo à Sedes. Consciente de que para tal há inúmeros problemas que terão de ser resolvidos (financiamento, institucionalização, domínios prioritários, etc.) com vista à concretização da sugestão que deixo. Mas consciente, também, de que da concretizaçaõ deste “think tank” poderá depender o futuro da cidadania em Portugal e do próprio desenvolvimento sustentável do País.

13 comentários até agora

13 Comentários para “O IV Congresso da SEDES e o Futuro”

  1. Pedro Pita Barrosa 06 Jul 2009 as 7:15

    Já tenho ouvido várias vezes a preocupação com a falta de um “think tank” em Portugal, e partilho dela.

    A interrogação é porque não surge.

    A minha resposta neste momento assenta em duas explicações, que não são independentes:
    1) somos um país pequeno, em vários sentidos: para um think tank funcionar de forma independente precisa de financiamento, precisa de financiadores que estejam dispostos a pagar para ter análises de qualidade sem que estas tenham que cumprir a agenda dos financiadores. Como o custo do think tank é em grande medida o mesmo para um país grande e para um país pequeno, a rarefacção de financiadores dispostos a aceitar as “regras” do think tank é maior em paises pequenos e pode levar mesmo à ausência de think tank.

    2) qualquer grande agente económico (empresa ou indivíduo) tem em maior ou menor grau relações económicas importantes com o Estado (já que este “domina” directamente 50% da actividade económica, e indirectamente mais – é um pouco impreciso escrever desta forma as implicações de a despesa pública ser cerca de 50% do PIB, mas compreende-se a ideia, espero). Isto significa que a capacidade e desejo de afrontamento ao poder governamental com o financiar de pensamento independente é menor (e potencialmente mais penalizadora) do que noutros paises.

    Calculo que quem se sinta abrangido por 1) e 2) acima venha afirmar que o problema não está ai, e sim em não termos investigadores de qualidade suficiente para produzir essas análises. O argumento não é válido, porque no mercado global de talento de hoje, os investigadores de um think tank deverão ser recrutados no mercado internacional, até para garantir a sua verdadeira independência.

    Como conseguir então ter um think tank independente?
    Assim, de repente, só me ocorre que talvez juntando recursos noutros países pequenos e tendo uma think tank comum, talvez Grécia, Chipre, Malta para ficarmos pela zona Sul. Ou então, Galiza, Catalunha, Andaluzia, Valencia…

  2. constancio ngujaa 06 Jul 2009 as 8:42

    Muito interessante este congresso. Pena eu nao ter presenciado fisicamente. Agradecia q me facilitassem o relatorio oficial do mesmo.
    Bom ainda foi o comentario do Senhor Pedro Pita Barros sobre Think Tanks. Eu faco parte de uma think tank virada para a boa governacao em Mozambique. Chama-se Centro de Estudos Mocambicanos e Internacionais, CEMO. Nao imaginam a dificuldade q temos enfrentado para nos fazermos sentir. O CEMO nasceu em 2008 e ate hoje carece de financiamentos para o custeamento das suas actividades. Quero concordar com Senhor Barros, e pedir que contribuam com ideias para o florescimento da nossa iniciativa em Mocambique. Se dificil ter think tank na Europa, q dizer de Africa?
    Mas, das dificuldades surgem grandes nomes…
    Bem hajam as think tanks

  3. Nuno Vaz da Silvaa 06 Jul 2009 as 15:33

    Também partilho da preocupação com a falta de um “think tank” em Portugal e fico satisfeito com o repto deixado à SEDES pelo Senhor Professor Girão. É incrível não efectuarmos qualquer análise às políticas públicas antes, durante e após a sua implementação.
    Realmente desconheço quanto custará sustentar uma entidade deste género ou mesmo qual será o número de investigadores necessários mas será assim tão difícil avançar com esse projecto? Ou a maior dificuldade é a “concorrência” dos gabinetes de estudos a quem o governo e institutos públicos recorrem para (muitas vezes) concluírem o que se pretende (com honorários significativos)?
    A União Europeia não disponibiliza financiamentos? As Fundações? As empresas que alegam ter “responsabilidade social”? Para além disso, não houve já faculdades ou universidades que tentaram promover espécies de “think tanks”? Até os partidos têm “gabinetes de estudos”!!!
    E é bom não esquecer que também temos investigadores portugueses em “think tanks” internacionais, pelo que massa critica (mesmo nacional) também existe!
    Não estou em posição de dizer que não será difícil mas parece-me que também não será excessivamente complicado. Atrevo-me a dizer que, mais uma vez, é necessário acreditar que é possível vencer alguns (muitos) interesses instalados. Para além disso é preciso que se consiga colocar o interesse público em primeiro lugar (o que nem sempre é fácil pelas limitações indicadas pelo Professor Pita Barros no ponto 2) ).
    Ainda assim, parece-me que a SEDES tem todas as condições para iniciar este projecto: Membros reconhecidos nacional e internacionalmente, tem como missão “o humanismo, o desenvolvimento sócio-cultural e a democracia”, é uma organização extra-partidária e, certamente que conseguirá reunir financiamentos diversos para sustentar esse projecto.

  4. Jose Giraoa 07 Jul 2009 as 0:08

    Começo por agradecer os três comentários já recebidos até porque eles me permitem ir um pouco mais longe na explicitação do desafio que lancei.

    Claro que não será tarefa fácil concretizar a ideia de um “think tank” em Portugal, precisamente pelas razões evocadas pelo PPB e que subscrevo. Discordo, porém , da via por ele sugerida de um “think tank” em comum com outros pequenos países. Por várias razões, mas talvez a mais importante das quais é a de que considero que os objectivos do mesmo terão de se centrar na realidade e especificidades portuguesas, dificilmente conciliáveis com as subjacentes e que informam a dos nossos enventuais parceiros.

    Por outro lado, penso que sendo difícil, não será impossível recolher os apoios necessários ao empreendimento. Sobretudo se tivermos em conta o prestígio da SEDES e o “capital de boa vontade” que poderá angariar. Com efeito, parece-me importante alertar para a lacuna existente e a necessidade de a colmatar de forma independente e profissional, argumento a que penso muitos poderão ser sensíveis, sobretudo se veiculada por membros prestigiados da SEDES. A começar pelas Fundações existentes em Portugal, (como referido pelo Nuno Vaz da Silva) que são juridicamente instituições de interesse público. Parece-me que a melhor forma de dar jus a este estatudo seria a de contribuirem para o financiamento de uma instituição com os objectivos visados por um tal Centro, que em tudo deveria seguir as “melhores práticas” de instituições similares de outros países, entre os quais um dos mais recentes a nível europeu é a Bruegel Institution.
    À participação das Fundaçõs deveria juntar-se um apelo ao financiamento por parte de particulares, embora seja de esperar que a destes fosse de montantes menores. Mas será demasiado optimista admitir que haja portugueses disponíveis para contribuirem na ordem de 5000 euros anuais para uma causa destas? É que se houvesse 100 tal representaria um contributo não despiciendo de meio milhão de euros. E quem sabe se não seria possível conseguir mais, com uma campanha motivadora e bem “orquestrada”, como as que se fazem lá fora. E já não é só nos EUA. Há que fazer um apelo à cidadania e “abalar” a sociedade civil !|
    Uma tentativa deveria igualmente ser feita junto do Estado, solicitando, por exemplo,que se disponibilizasse para dar uma comparticipação idêntica à que fosse possível obter dos particulares. Com efeito, há que não esquecer que os poderes públicos seriam igualmente beneficiados com a realização dos estudos levados a cabo pelo Centro.
    Há várias ideias a explorar. Assim haja disponibilidade e vontade para tentar. Arrisco-me a pensar que um montante da ordem de 2 milhões de euros anuais já seria suficiente para realizar trabalho de qualidade e com impacto! Estamos dispostos a tentar? Em jeito de provocação, aqui deixo o repto.

  5. VBa 07 Jul 2009 as 16:44

    Caro José Girão,

    Primeiro, felicito-o pelo excelente sumário que fez do Congresso. Só não cobriu os outros dois paineis por óbvia impossibilidade de se repartir por vários locais ao mesmo tempo.

    Quanto à transformação da SEDES em think-tank, acho a ideia excelente e é, aliás, o único futuro que adivinho como susceptível de assegurar continuidade duradoura à instituição, à sua história e à sua marca. No entanto, partilho inteiramente do cepticismo expresso pelo PPB. O que não quer dizer que não deva ser tentado.

    O fundamental é assegurar fontes de financiamento suficientes, estáveis e, de preferência, independentes do Estado. A utilidade de instituições como a SEDES reside no fortalecimento da sociedade civil e, para isso, têm que ser independentes do Estado.

    Por experiência própria, acho muito difícil superar essa dificuldade. Nós não temos uma tradição de valorizar o pensamento livre para haver quem se disponha, a priori, a financiar iniciativas nesse sentido. Depois, a maioria (se não todas) as empresas e empresários com capacidade financiadora dependem demasiado do Estado para se disporem a correr riscos de ser verem associados a inciativas de que os ocasionais detentores das alavancas estatais possam não gostar. Tem havido algumas excepções, mas são isso mesmo.

    Por outro lado, poderia pensar-se em financiar tal instituição apenas com quotizações de associados, mas isso implicaria triplicar, pelo menos, o valor das quotas actuais (o que até nem seria muito), mas é susceptível de não ser facilmente aceite. E, mesmo assim, era preciso assegurar que todos os sócios pagariam atempadamente as suas quotas, o que a experiência não valida.

    Mas vale a pena o esforço e é uma ideia de que se não deve desisitir.

  6. Jose Giraoa 07 Jul 2009 as 19:13

    Caro VB:
    Muito sinceramente , quero agradecer-lhe o seu comentário ao meu blog sobre o IV Congresso e registo com satisfação o apoio que dá à sugestão de criação de um “think tank” pela Sedes. Ler que ” o único futuro que adivinho como susceptível de assegurar continuidade duradoura à instituição, à sua história e à sua marca”, vindo de quem vem – um ex-Presidente e “homem” da Sedes – conforta e dá alento!
    Todos nós sabemos da falta de tradição, em Portugal, em estudos e instituições independentes e do medo que eles provocam em certos espíritos e sectores, mas também é verdade que o inquérito sobre a “qualidade da democracia”, apresentado no Congresso, revela uma profunda e generalizada insatisfação com a forma e a base em que a governação vem sendo feita. Isto parece ser argumento suficiente para acreditar que é possível mobilizar os particulares e as empresas para a cidadania, com base em “boas práticas”
    Não foi por acaso que referi anteriormente a Brugel .
    Trata-se de uma instituição em que ninguém pode contribuir com mais de 5% para o seu financiamento, e que para além do grupo dirigente tem um conselho científico com credibilidade internacional. Assim é impossível afirmar-se que os estudos não são credíveis, ou que a instituição está ao serviço dos interesses de quem quer que seja.
    Na base destes princípios e práticas tem de ser possível mobilizar suficientes recursos em Portugal, para alterar os actuais condicionalismos em que se fazem as escolhas políticas e se processa a discussão pública.
    Mãos à obra!

  7. Egas Salgueiroa 07 Jul 2009 as 20:24

    Caros todos:

    A ideia de avançar com um “think-tank” é fundamental!
    Arrisco que o problema do financiamento é resolúvel. Muitos de nós somos economistas, engenheiros, sociólogos, e estaríamos disponíveis para contribuir horas de trabalho para trabalhos de análise motivadores e relevantes. Alguns poderiam conseguir contributos financeiros. E a marca SEDES ainda vale dinheiro.
    Proponham estudos, criem equipas, orçamentem o trabalho!

  8. Pedro Pita Barrosa 07 Jul 2009 as 20:53

    Ora bem, vamos lá a ser concretos quanto ao que significa criar um think tank.

    Primeiro, aconselho a leitura do site: http://www.ifs.org.uk/aboutIFS

    O institute for fiscal studies é muito provavelmente o think tank mais influente no Reino Unido. Tem quarenta anos!

    Objectivos:
    “Our goal at the Institute for Fiscal Studies is to promote effective economic and social policies by understanding better their impact on individuals, families, businesses and the government’s finances. Our findings are based on rigorous analysis, detailed empirical evidence and in-depth institutional knowledge. We seek to communicate them effectively, to a wide range of audiences, thereby maximising their impact on policy both directly and by informing public debate. ”

    O IFS tem cerca de 40 (quarenta, não me enganei!) investigadores, doutorados por boas universidades. Vários deles têm também uma posição na universidade (frequentemente UCL, que fica fisicamente próxima).

    Pensemos numa coisa 10x mais pequena em Portugal, 4 investigadores, a tempo inteiro, que isto de fazer análises apenas com o tempo disponível de outras actividades é ser amador;

    suponhamos que são recém doutorados, ganhando um valor identico à bolsa de pós-doutoramento paga pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia, 1495 euros/mês, 12 meses, valor total é 4x1495x12= 71 760 euros.

    (na verdade convém que já tenham um certo conhecimento e experiência, mas isso também custa mais, comecemos assim, com um conselho de curadores que dê o enquadramento e não custe nada)

    Falta o apoio secretarial, coloque-se mais 6 000 euros; instalações, admitamos que alguém oferece um andar devoluto; colocando mais alguma coisa para telefones, correios, consumiveis (os investigadores trazem os seus portáteis), temos 80 000 euros ano.

    Para ter tempo de produzir análise e criar reputação, consideremos um primeiro horizonte de 5 anos, são 400 000 euros no total, pelo menos.

    Se arranjarmos 80 empresários ou empresas nacionais que cedam 1 000 euros cada por ano, a coisa faz-se nos limites, mas faz-se.

    Já sei que dentro dos milhares de milhões que andam pelo QREN a pagar sabe-se lá o quê, e de outros programas públicos, tirar meio milhão de euros nem se notava e garantia o arranque; mas isso seria fazer precisamente aquilo que tantas vezes se censura: estender a mão para a apanhar as moedas deixadas cair pelo Estado!!

    Continuamos entusiasmados com o think tank?

  9. José António Girãoa 08 Jul 2009 as 14:17

    Caro Pedro:

    Agradeço-lhe mais esta achega, tanto mais que parece que estamos a convergir quanto à viabilidade do empreendimento. Quanto ao interesse do mesmo parece não haver dúvidas, tendo em conta os comentários havidos. Aliás, permita-se-me o desabafo, se dúvidas houvesse bastava ter visto o debate de ontem na SIC Notícias entre os representantes dos três manifestos sobre os “grandes investimentos públicos” para se constatar não só do interesse de um “think tank”, como da urgência do mesmo. Assistir a uma argumentação como a que foi desenvolvida por licenciados em economia do teor e nos termos da apresentada é confrangedor, pois significa que passaram pela Universidade e não adquiriram um mínimo do rigor lógico que deve informar todo o debate esclarecido e esclarecedor ! De contrário a explicação terá de ser ainda mais trágica! Mas voltemos ao tema do “think tank”.
    Estou de acordo consigo de que há que ter um “staff” como via para conseguir o indispensável profissionalismo. No entanto, parece-me que você está a pensar em termos pouco ambiciosos tendo em vista o fim e o impacto pretendido. Quatro investigadores parece-me manifestamente pouco; não se conseguirá “massa crítica” suficiente. Também me parece que não é com 1500 euros/mês que se atraiem profissionais com a qualidade exigida. Você sabe bem qual é o nível salarial para recrutamento no mercado internacional. Por isso julgo mais realista pensar-se num mínimo de 10-12 investigadores com um ordenado anual da ordem dos 60000 – 80000 euros, ou seja um financiamento mínimo anual de 100000 euros.
    Nada disto me parece exagerado ou impossível. O montante anterior é muito próximo da contribuição anual que era dada por uma dezena de instituições à APEGIP (antes da sua prematura passagem à inactividade).
    Pedir a uma empresa que contribua com 1000 euros parece-me pouco, para não dizer que poderá ser mesmo, desprestigiante. Isso será um montante adequado para uma contribuição a título de cidadania individual. Deste modo, desde já me disponibilizo para uma comparticipação dessa ordem, em homenagem aos meus progenitores empresários e a título de contributo para o arranque da ideia.
    Penso, no entanto, que chegados a este ponto do debate, compete à Direcção da Sedes decidir (ou não) avançar com a ideia. No caso afirmativo terá, como é obvio, de passar à fase de projecto, estabelecendo objectivos, determinando os meios e financiamentos necessários, estrutura da instituição e forma de funcionamento, viabilidade e, eventualmente, modo e fases de implementação, etc. Os membros, tal como eu, devem agora sair de cena e só se voltar a pronunciar se e quando para tal forem solicitados. É o que tenciono fazer, embora esperançado e fazendo votos para que a ideia germine, se desenvolva, frutifique e dê excelentes e abundantes frutos .
    Com amizade e votos de uma proveitosa reflexão.

  10. Ana Maria Evansa 08 Jul 2009 as 17:41

    Aplaudo vivamente a sugestão do Professor José António Girão de que “com os atributos e responsabilidade e credibilidade que lhe assistem, (a SEDES) deveria evoluir no sentido de criar um Centro de Estudos da problemática com que o País se confronta em diferentes domínios relevantes: institucionais, da justiça, reforma do sistema político, educação, económico …”.

    Sim, é urgente a criação de “Think Tanks” com estas características num país onde há um longo e pesado legado de centralização e elitismo nos mecanismos de decisão pública, espelhados por diminuta participação política das diferentes esferas da sociedade civil. O mercado de políticas públicas em Portugal é muito limitado e está constantemente sujeito a captura por um pequeno grupo de indivíduos (e/ou instituições), como refere o Nuno Vaz Silva.

    Recomendo a leitura de dois livros usados em cursos de “Política Comparada e Políticas Públicas” para que possamos debater de forma fundamentada (i.e. de acordo com os métodos comparativos usados nas ciências sociais) o papel que os think tanks têm desempenhado no desenvolvimento político, económico e social de diversos países, assim como os obstáculos à sua institucionalização e autonomia financeira e liberdade de agendamento e de análise (e, consequentemente à sua credibilização perante o público) e as estratégias que têm sido implementadas com sucesso para ultrapassar esses desafios:

    Andrew Rich (2005) Think Tanks, Public Policy and the Politics of Expertise. Cambridge University Press.

    James McGann and R. Kent Weaver, eds. (2000) Think Tanks and Civil Societies: Catalysts, for Ideas and Action. Transaction Publishers.

    Algumas ideias (muitíssimo resumidas) que resultam da leitura destes estudos:

    1. A questão da autonomia financeira e de agendamento é relativa: Sim, observamos com muita frequência que os think tanks ficam dependentes de financiadores que têm uma determinada agenda política ou económica. Por outro lado, os estudos comparativos também observam que:

    i) Nos países em que existe uma pluralidade de think tanks, equipados com analistas credenciados por universidades de grande reputação e que pautam os seus relatórios por critérios científicos (que obviamente podem gerar diferentes abordagens e interpretações com base em dados semelhantes quando os estudos são enviesados pelos interesses de financiadores), o simples facto de haver à disposição do público uma diversidade de informação com base científica quebra a tendência para o monopólio estatal e para o elitismo no agendamento e discussão das políticas públicas e aumenta a confiança dos cidadãos nas instituições e no debate político. Numa conjuntura marcada por profunda crise económica, social e política, como a actual, a criação de mecanismos de credibilização institucional é crítica.

    ii) Nos países referidos na alínea anterior, observamos que o debate político tende a evoluir para uma discussão fundamentada quantitativamente e é menos dominado por discurso opinativo. Este aspecto denota desenvolvimento político, social e intelectual e apela aos interesses e perspectivas das “classes” médias” (usando um termo que está algo em desuso nas ciências sociais) .

    iii) A existência de uma pluralidade de think tanks traz ao foro público assuntos que de outra forma nunca veriam a luz do dia por causa do domínio das agendas públicas por uma elite restrita e que circula transversalmente.

    iv) Mais ainda, historicamente verificamos que em conjunturas de grave crise económica, política e social e até marcadas por conflitos militares dramáticos, algumas das maiores inovações que permitiram ultrapassar modelos falhados e gerar inovação e paz social foram produzidas precisamente por think tanks (os exemplos abundam no caso Americano).

    2. Nem sempre os think tanks acabam dominados por interesses políticos e/ou económicos, mesmo em sistemas com fraco desenvolvimento da sociedade civil e caracterizados pelo peso do Estado nas actividades económicas e pelo domínio partidário do discurso e agendamento públicos, como o nosso. Vários factores contribuem para que isso seja possível:

    i) O tipo de estrutura de governação que define a agenda, liderança, gestão e regras de financiamento do think tank, assim como a transição entre mandatos;

    ii) Distinção clara entre o “coração” de actividades que definem a identidade do think tank e para os quais é utilizado um orçamento anual em que cada financiador não pode ultrapassar no montante “x” a sua percentagem no orçamento global do instituto; e, por outro lado, serviços/relatórios sob regime de contrato em que o/s financiador/es deve/m ser claramente identificado/s nos relatórios científicos e prestações de contas;

    iii) A inclusão na equipa permanente do think tank de especialistas em angariação de fundos, estratégia e marketing.

    iv) Não nos esqueçamos que diferentes think tanks se dedicam a diferentes “nichos” (ou especialidades e/ou estádios no processo de decisão/implementação pública) e que os seus financiadores não têm de coincidir com os destinatários.

    v) A panóplia de potenciais financiadores e/ou destinatários é muito vasta. Entre muitos, vejamos:
    Instituições Europeias (múltiplas, crescentes e sediadas não apenas em Bruxelas, Luxemburgo e Estrasburgo mas com agências espalhadas por toda a Europa, incluindo Portugal!) e seus Programas de Financiamento; Direcções Gerais e Ministérios, Comissões Parlamentares Nacionais e Europeias; Câmaras Municipais em Portugal e noutros Países, Comissões de Desenvolvimento Regional Nacionais e Estrangeiras; Fundações Nacionais e Estrangeiras; Universidades; Instituições Financeiras Nacionais e Estrangeiras; Grandes Grupos Económicos Nacionais e Multinacionais e em Diferentes Sectores de Actividade Produtiva; Associações Empresarias Portuguesas e Europeias (incluindo associações de PMEs) … …

    Finalmente, para surveys de Think Tanks e análise comparativa entre diferentes países e os EUA, vejam, entre outros, os seguintes sites:

    http://thinktanks.fpri.org/

    http://www.lib.umich.edu/govdocs/psthink.html

  11. Francisco Velez Roxoa 12 Jul 2009 as 22:25

    Think tanks are public policy research, analysis and engagement institutions that generate policy-oriented research, analysis and advice on domestic and international issues that enables policymakers and the public to make informed decisions about public policy issues. Think tanks may be affiliated or independent institutions and are structured as permanent bodies, not ad hoc commissions. These institutions often act as a bridge between the academic and policymaking communities, serving in the public interest as an independent voice that translates applied and basic research into a language and form that is understandable, reliable, and accessible for policymakers and the public. (Think Tanks and Policy Advic e in the US: Academics, Advisors and Advocates, Routledge 2007).
    Com os milhões que têm sido gastos nas nossas universidades, o crescente número de mestres e doutores, o crescente número de investigadores públicos e privados (poucos), com tantas agencias públicas e observatórios, tantos portais, sites e blogs (para além dos “novos social media”) porque não há espaço para um ou mais Think Tanks nacionais? a resposta parece-me simples: porque a “extensa e farta – até há pouco- mesa dos dinheiros públicos e a lei da sobrevivencia de muitas elites, não permitem que, ao menos se avance com coragem e desprendimento para qualquer coisa mesmo com “marca tipicamente” nacional que ” act as a bridge between the academic and policymaking communities, serving in the public interest as an independent voice that translates applied and basic research into a language and form that is understandable, reliable, and accessible for policymakers and the public.”
    O Congresso da SEDES, excelente evento na sua simplicidade (exagerada no painel sobre a Sociedade do Conhecimento…) poderia ter tocado com coragem neste tema.Nesta lacuna Nacional.
    Até porque agora que não há dinheiro, parece que só vão resistir as velhas SEDES deste País,nas tarefas de pensar o futuro “out of the context”.Porque quanto às forças partidárias estamos conversados e cansados da conversa.

  12. Paulo Sandea 22 Jul 2009 as 10:57

    Li atentamente todos os comentários. Concordo com praticamente tudo, o que pode parecer paradoxal: é uma excelente ideia, muito difícil de concretizar; ancorá-la na Sedes faz todo o sentido mas pode ser um risco para a associação, adulterar a sua natureza, sobrecarregar os seus escassos recursos, pelo menos numa fase de transição (para a abundância de recursos, se é que alguma vez ela se completará); o problema no nosso país é de facto a extrema inextricabilidade das elites, Estado, financiadores, como todos os que participam em modelos associativos de todo o género sabem bem; o financiamento é o busílis, sobretudo sabendo-se que as fontes são sempre as mesmas. Dito tudo isso, no conjunto de intervenções em resposta à proposta do António Girão há várias sugestões muito interessantes e a explorar (dimensão internacional, contribuições de particulares, independência científica, pesquisa sistemática de financiamentos, etc). Por isso, aqui fica a minha contribuição, à laia de sugestão concreta: que a direcção da Sedes peça ao original proponente para gizar um modelo realizável, em consulta com os membros da Sedes (órgãos sociais e sócios), desde que o José António Girão o aceite, bem entendido; que seja constituída uma “task force” interna para, em conjunto com o proponente, desenvolver o projecto e executar as acções concretas pertinentes. Logo se verá se os atavismos que habitualmente condenam este tipo de iniciativas podem ser, pelo menos, minorados. Esta sugestão, naturalmente, é à atenção do presidente do Conselho Coordenador, Luís Campos e Cunha, que poderá suscitar a sua discussão e eventual aprovação.

  13. djsoaresa 09 Dez 2009 as 12:20

    gostaria de saber se vcs tem algum telefone
    para eu poder estar entrando em contato com vcs
    obrigado