A Simbologia do Futebol

por Vítor Bento

O recente Campeonato do Mundo de Futebol suscitou-me algumas reflexões sobre a importância social do futebol e, nomeadamente, sobre a sua relevante simbologia política.

O futebol é hoje o único fenómeno capaz de mobilizar todas as classes de uma sociedade num único objectivo. E seja a nível de clubes, seja a nível de selecções nacionais, essa é uma mobilização de base irracional, quase instintiva, mas que, mais que quase tudo, define um sentido de pertença afectiva, de alinhamento «tribal», de segmentação entre «nós» e os «outros».

É provavelmente uma reminiscência, presente no nosso inconsciente, da nossa primitiva herança guerreira. Os clubes (e selecções) de futebol funcionam no inconsciente imaginário como se fossem modernas legiões e os seus jogadores os novos heróis de guerras sublimadas nas disputas da bola. Mas, seja como for, é um fenómeno representativo das identidades imaginadas que definem as pertenças sociais e, como tal, um importante factor de agregação.

E é também um relevante factor de notoriedade, que acaba por dar a conhecer mais um país do que sucessivas campanhas promocionais.

Neste contexto, o entusiasmo evidenciado na mobilização à volta das selecções nacionais, nomeadamente ao nível europeu, demonstrou que as pessoas continuam a sentir, e a exprimir, um forte alinhamento afectivo com as respectivas pertenças nacionais e que é nessas pertenças que continuam a reconhecer a principal âncora psicológica da sua existência social.

E se esses alinhamentos devem ser tratados com o cuidado necessário para não fomentar “fortalezas” nacionais ou erupções xenófobas, não podem deixar de ser tidas muito seriamente em conta.

Sobretudo quando as autoridades comunitárias, tendo falhado todas as tentativas pela via democrática, parecem empenhadas em criar um super-estado europeu por via administrativa. É possível, e provável, que com o passar das gerações e a continuada, mas equilibrada, mobilização integradora, se venha a desenvolver um forte sentimento de pertença europeia.

Mas alguém acredita que, neste momento, seria possível mobilizar multidões atrás da bandeira europeia, como o Mundial mobilizou atrás das bandeiras (e dos “heróis”) nacionais?

Conviria, por isso, que o bom senso levasse a ponderar sobre o equilíbrio razoável no caminho do processo de integração europeia e sobretudo a respeitar o ritmo de aceitação dos povos.

Sob pena, de uma desintegração demasiado apressada, poder conduzir a caminhos de desintegração…

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