A oportunidade

por Paulo de Almeida Sande

«Toda a acção, em particular a acção política, é sempre um novo começo», escreveu Hanna Arendt.

 

Ora, quase inesperadamente, Portugal parece viver um novo começo. Estranhas voltas do ciclo político tornam de novo admissível a esperança:

 

Um governo com maioria absoluta que parece (ousar) decidir – resta conhecer os resultados -, um Presidente com crédito, que defende uma cooperação estratégica para as políticas essenciais, uma oposição (pelo menos a principal) responsável e um tímido início de recuperação da economia, sobretudo a da Europa de cujo desempenho tanto dependemos.

 

E até a selecção portuguesa de futebol decidiu contribuir para a apregoada auto-estima das nossas gentes.

 

Tudo isto está a acontecer exactamente quando, à frente, se perspectivam dois anos e meio sem eleições. Ou seja, um tempo – politicamente infindável – para a tomada de decisões sem o espectro da tentação populista que a perspectiva da conquista do poder (ou o receio da sua perda) tantas vezes desperta nos homens (e mulheres) políticos.

 

Um tempo de oportunidade. Recuemos nos anos: deparamos com momentos de pujança, em particular nos governos do actual Presidente da República; de euforia, quando os governos Guterres, nomeadamente o primeiro, atravessaram os píncaros (políticos) da adesão ao euro, da expo-98, dos primeiros sucessos da selecção, do nobel Saramago; mas encontramos também, mais perto de nós, um mergulho doloroso no retrocesso económico, com a divergência europeia e o desconsolo que afectou as bases da cidadania.

 

Somos um povo de altos e baixos, de luzes e sombras quase instantâneas, que gere com dificuldade as expectativas e sofre, para o bem e para o mal, com a sua superação ou a incompletude de tantas promessas. Mas talvez o principal, o mais inesperado e trágico no destino luso, seja uma atávica incapacidade para aproveitar verdadeiramente as oportunidades.

 

O ouro do Brasil e a barroca ostentação não serviram a Dom João V para criar as bases de uma Nação, senão rica e poderosa, pelo menos remediada e respeitada; também os momentos de euforia recentes, os créditos da revolução que inaugurou a terceira vaga da democratização e os períodos de convergência com a Europa desenvolvida, não chegaram para nos pôr ao abrigo dos maus ventos da “malvada” globalização.

 

Tivemos, no recente passado, várias oportunidades, ocasiões em que parecia possível pagar os juros de tempos difíceis, autárcicos, empobrecedores. Na prática, poucas foram aproveitadas.

 

Enchemos a boca com os exemplos triunfantes de Nações como a Irlanda ou a Finlândia. E conhecemos a receita. Mas os bolos preparados pelos nossos cozinheiros não sabem a sucesso, são um verdadeiro fiasco.

 

Não cresceram, diria um mestre pasteleiro, que enunciaria os ingredientes: acordo social e de regime em relação aos objectivos cruciais, investimento na educação, nas novas tecnologias, reconhecimento do mérito, um sistema de justiça adequado, perseguição implacável dos desvios como a corrupção, o nepotismo, a complacência.

 

Na verdade tudo se resume ao pouco ou nenhum rigor com que tantas vezes encaramos os desafios. À falta de vontade de verdadeiramente fazer o que é preciso. Sem eles – vontade e rigor -, falta o fermento, o bolo não cresce e o resultado é inevitável.

 

Tinha que falhar, falhou.

 

Mas, como bem disse Harendt, há sempre uma nova ocasião de agir, de começar de novo, especialmente na acção política. Essa ocasião, no caso português, é agora.

 

Não pode começar amanhã nem esperar por um outro tempo. A oportunidade está perante nós e tem de ser aproveitada. Caso contrário, o atraso será cada vez maior: o destino lido pelas cartomantes da desgraça – de que estamos condenados a ser a cauda da Europa, a dos 15, dos 25, dos 27, dos mais – será tragicamente cumprido.

 

Há consciência da urgência. A oportunidade é indiscutível. Anunciada a acção política, o recomeço que se impõe, resta saber se haverá vontade.

 

Falta cumprir-se Portugal, escreveu Pessoa. Cumprir-se-á?

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