A meio da ponte

por Paulo de Almeida Sande

Há no ar do tempo uma espécie de suspensão. Como se estivessemos a meio de uma ponte, sem saber para que lado ir.

Tem havido coisas positivas e a opinião – seja a pública seja a publicada – parecem continuar a estender sobre o governo o benefício da dúvida. Em si mesmo, este é um facto notável, pois nos últimos anos poucos foram os executivos que gozaram de um estado de graça tão prolongado. Por outro lado, atendendo ao grau de conflitualidade social – que parece ser, quantitativamente, a mais elevada dos últimos anos – talvez valha falar-se antes de um estado de semi-graça. Ou então, pura e simplesmente, concluir que a conflitualidade social tem cada vez menos efeitos sobre a imagem e a popularidade dos governos.

 

Seja qual for a análise, in medio stat virtus, e o medio, neste caso, parece ser que os portugueses querem acreditar, por uma vez, que é correcto o caminho prosseguido, que as medidas propostas ou tomadas, mais as primeiras do que as segundas, são as adequadas. E se os portugueses querem acreditar nisso, é porque estão fartos de acreditar no contrário. E se aceitam – verdade seja dita que não se sabe até quando – novos e cada vez mais duros sacrifícios, é porque querem crer que a luz ao fundo não é a das chamas da depressão mas o final do longo túnel em que mergulhámos há anos.

 

Tem havido coisas positivas, mas as negativas são inúmeras. Portugal é o país que menos cresce, já não dos doze ou dos quinze, mas de todos os 27 Estados-membros da União Europeia. A produtividade embaraça-nos, a iliteracia envergonha-nos, o abandono escolar enrubesce-nos, a assistência hospitalar apoquenta-nos, a justiça… bem, a justiça oscila entre o indignar-nos e o pôr-nos a rir, o que faríamos com muito maior frequência se não fosse coisa tão séria.

 

A meio da ponte, o país asculta as suaves brisas favoráveis, como um ano de crescimento contínuo, sinais de retoma ligeiros mas seguros, índices de confiança razoáveis, enquanto deita um olho assustado ao abismo, profundo e ameaçante. Na verdade, a conjuntura é favorável ao governo, que não se deve iludir pelo aparente paradoxo entre os inúmeros casos de deslocalização e encerramento de empresas e os índices do desemprego, em baixa, ou as animadoras sondagens de opinião. Com a Europa a crescer, o longo período sem eleições e um Presidente compassivo, ainda que a dar sinais de exigência crescente, bem pode dizer-se que o fogo é fátuo e que o verdadeiro teste se aproxima.

 

O próximo referendo sobre o aborto é abrangente e não deverá significar, apesar de algumas vozes pretenderem o contrário, uma verdadeira aferição da sustentabilidade da actual acção política. Mas a acalmia em breve chegará ao fim. E então os portugueses saberão se atravessámos a ponte ou se a atracção das profundezas foi mais forte.

 

Há no ar do tempo, um tempo suspenso. Falta pouco, porém…

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